Monster Jinx: Monstro Robot celebra 10º aniversário e é editado pela primeira vez em formato físico

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Pedro Lopes

Monstro Robot celebrou 10 anos de existência no passado dia 8 de Junho. Em jeito de comemoração, a Monster Jinx vai editar pela primeira vez o álbum que juntou DarkSunn, Stray e SlimCutz — a cassete roxa transparente pode ser “apanhada” aqui.

“Independentes ou nada”. Um statement arrojado por parte de um então recém-formado colectivo de hip hop português. O ano era 2009 e a indústria musical atravessava um dos momentos mais conturbados de toda a sua história, ainda à espera do desenvolvimento das plataformas de streaming como hoje as conhecemos e com o formato físico a cair no esquecimento. No meio do caos e da incerteza, a Monster Jinx abriu actividade e encontrou uma oportunidade para fazer a diferença: editar a sua música de forma acessível, sem qualquer custo relacionado e apenas à distância de um clique.

DarkSunn, Stray e SlimCutz foram os obreiros por detrás de Monstro Robot, o primeiro projecto de sempre da Monster Jinx, editado poucos meses depois da criação da label portuguesa — na altura, o disco mereceu destaque no agora extinto MySpace. O Rimas e Batidas falou com Bruno Dias a propósito deste lançamento, aproveitando para voltar atrás e recordar aquele momento específico da história.



Olhando para a evolução do hip hop na última década, com cada vez mais sub-géneros e ramificações a surgir a toda a hora, de que forma classificas o trabalho apresentado no Monstro Robot?

Bem, 10 anos é muito tempo e, na verdade, essa ramificação não só é natural como desejada, a meu ver. Olhando para trás, continuo sem conseguir encaixar bem Monstro Robot numa caixa. Foi catalogado como indie rap na altura, mas para nós era e continua a ser só rap.

Para a Monster Jinx foi o início de tudo aquilo em que se tornaram. Mas para o resto da cultura hip hop em Portugal, com aquilo que arriscaram trazer para cima da mesa, sentes que há um antes e depois desse marco?

Para nós na Jinx, sem dúvida, para o resto do hip hop em Portugal, acho que seria muito presunçoso dizer isso. Acho que na altura conseguimos provar que havia caminhos alternativos, especialmente a nível de edição. Hoje é totalmente comum veres álbuns para download gratuito — por exemplo Run The Jewels, ou muito recentemente Classe Crua — o que na altura não é que fosse inconcebível, mas não era um caminho normal, porque serias intitulado “amador” ou algo do género. Era quase uma prova dada teres música em CD. O tempo nisso deu-nos razão. A nível de conteúdo, gosto de pensar que ajudámos a mostrar que era possível fazer rap com uma ideia diferente, não ter de ser sempre “arroz”. Já o tinham feito antes de nós, com o claro exemplo de Matozoo, mas acredito que ajudámos de alguma maneira a cimentar a ideia que é normal fazeres rap sobre o que tu quiseres, sem isso diminuir ou sequer poderes considerar que isso não é hip hop. Nós éramos e continuamos a ser nerds e isso não é motivo de vergonha alguma, é sim motivo de orgulho termos conseguido canalizar isso para a música que fizemos e fazemos: é a definição de ser real, não é?

Sendo tu de Almada, como é que te cruzas com o Stray e o SlimCutz e quando surgiram os planos para formar esta equipa?

Isto começa na Internet. Falava com o Stray na altura que lancei o meu EP Fractal, ele estava a lançar Clã da Matarroa com o Paulo Leitão na Matarroa. Tínhamos muitas referências em comum e entendíamos-nos a nível de sonoridade e rap. Pensámos fazer umas faixas juntos. Entretanto, o Stray conhece o SlimCutz, que estava a começar no scratch. Beats para aqui, para lá, envios de demos e noitadas no Google Chat e tínhamos uma ideia de fazer um EP. À segunda faixa pensámos os três: “ok, isto tem caminho para um álbum”. Junta isso a bilhetes de Intercidades sentido Norte-Sul e o resto é história.

Lembras-te de como este disco foi feito? É fruto de várias horas passadas juntos em estúdio ou foi elaborado à distância, com a ajuda da internet?

Uma mistura dos dois. O Stray gravou tudo no primeiro estúdio do SlimCutz, eu ia enviando pacotes e pacotes de beats. Quando as ideias se começaram a delinear, comecei a ir ao Porto mais vezes, ainda acompanhei a gravação de algumas tracks e de vozes extra. Entretanto, assim que gravávamos uma parte, eu voltava à mesa para reescrever o instrumental. Eventualmente tínhamos tudo alinhado e acabou sendo misturado e masterizado cá em baixo. Passámos sim muitas horas em estúdio, mas na verdade foi mais a cimentar ideias, a conhecermo-nos e a solidificar os laços que ainda temos hoje.

Na altura poderia soar arriscado para uma nova label servir a sua música no formato físico, mas, com a evolução da Monster Jinx, esse modo de operar tornou-se num hábito vosso. Fazer o Monstro Robot evoluir do digital para a cassete nesta época comemorativa é algo que já vinha a ser pensado por vocês ou foi uma ideia espontânea? Que sentimentos vos vieram à cabeça quando decidiram avançar com o plano?

Nós, na ideia do físico, andamos um pouco contra a corrente. No início, em 2009, acreditávamos que o caminho era o digital, especialmente devido à forma que nos sentíamos a relacionar com a música — apesar de compradores (e até coleccionadores), o nosso canal habitual era sacar mp3. Sabíamos também que a queda de uma série de editoras independentes se devia à aposta num formato que, na nossa humilde opinião de miúdos, estava obsoleto: o CD. Se fizeres um fast forward para 2019, a relação das pessoas com a música mudou: toda a gente consome digital. Mas a relação de pertença com a música também mudou: as pessoas querem algo para se agarrar, algo a que se possam ligar, algo que seja mais do que o toque descartável no telemóvel numa lista em shuffle. Daí o culto do objecto relacionado com a música. Para nós, a cassete representa o regresso a outro tempo, mas também representa a manifestação física da música no formato objecto. A ligação que tens com uma cassete, com um vinil, até com um CD, não é igual a um clique que dás no Spotify ou na Apple Music. O teres o “objecto” nas mãos, numa estante, é diferente, parece mais real. Daí esta edição, que já estava a ser pensada e arquitectada há algum tempo, para ajudar a celebrar os 10 anos. Nós adoramos o formato fita e, enquanto não acabar, vamos continuar a editar cassetes (já vamos na 5ª edição da ROXO), juntamente com outros formatos (exemplo do livro do Contos de Espadas do J-K). E claro, uma cassete roxa transparente. Como não escolher isso imediatamente?


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira