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Mike El Nite no Samsung Galaxy Live: a justiça (musical) tem um nome

[TEXTO] Gonçalo Oliveira

Falar de Mike El Nite é como ir ao centro da questão acerca da credibilidade de uma nova geração de artistas que se agigantam de forma totalmente — ou quase — independente. Quem ainda pensa que o sucesso comercial de um projecto depende, por exemplo, do acesso a um estúdio apetrechado de maquinaria cara, não está bem a par daquilo que os “putos” conseguem fazer com recurso a um computador, um microfone e uma placa de som.

O primeiro aviso chegava-nos em 2012 com a mixtape Trocadalhos do Carilho Vol.1. Ao lado de Nofake, Ipas Tripas, Kaeser Flores, Marsemellow, Sidekiko e Mono!, Mike El Nite explorava uma escrita inventiva e fora-da-caixa, isto comparado ao hip hop que estava a ser feito na altura em Portugal. Gravado através de métodos caseiros e com recurso a batidas “emprestadas” de temas já editados por outros artistas, o rapper e produtor de Telheiras estava a dar sinais de que estava disposto a fazer muito com pouco.

 



Apesar de Trocadalhos do Carilho Vol.1 ser um daqueles tesouros obscuros que a Internet faz questão de não esquecer, a primeira dose de hype viria pouco tempo depois. Com a chegada da Liga Knockout, Portugal teve pela primeira vez um circuito de battle rap com uma produção credível. ProfJam foi um dos primeiros a recolher os louros desse mediatismo e Mike El Nite “usou-o” como trunfo na cartada seguinte. “Mambo Nº1” contou com os dois artistas da agora extinta ASTROrecords e iniciou uma revolução sónica no hip hop nacional. A canção também serviu de single de apresentação para Rusga Para Concerto em G Menor, o primeiro trabalho musical “a sério” de Miguel Caixeiro. A dupla voltou a aproximar-se recentemente quando Mike aceitou o convite para ingressar na Think Music — quase impossível de “fintar” nas redes sociais e plataformas de distribuição digitais, “Dr. Bayard” foi o single de estreia pela editora de ProfJam e o primeiro aviso de que está um novo trabalho a caminho.

Enquanto não chegam as grandes novidades, O Justiceiro ainda é uma peça à qual devemos prestar atenção e que, a par, talvez, de T&C/AVNP&NMTC, de NERVE, marca um ponto de viragem na indústria musical em Portugal, que vê nascer os primeiros discos de hip hop alternativo e “caseiro” com um alcance que atravessa tribos.

Amorim Abiassi Ferreira, colaborador do Rimas e Batidas, teve o privilégio de ver a história acontecer bem de perto, ele que era colega de casa de DWARF, o produtor escolhido para produzir, gravar, misturar e masterizar todo o alinhamento d’O Justiceiro no seu home studio. Ao ReB, Amorim descreveu alguns dos rituais neste processo: “O Caixeiro ia e voltava. Mas quando voltava, trazia com ele mais ideias para os beats, mais letras, ou um novo refrão. Enquanto o efeito ioiô acontecia, o Quintino afinava beats, preparando as próximas produções das faixas. Avançar, trocar opiniões, discordar, e avançar mais um pouco. Este processo repetiu-se numa sucessão de meses, quase um ano, às vezes divertido, às vezes espontâneo, muitas vezes frustrante.”

Também ao Rimas e Batidas, o próprio Mike El Nite fez um apanhado das ideias que quis vincar no seu álbum de estreia. Em conversa com Bruno Martins, o “justiceiro” frisou: “É o meu disco de apresentação, aquele em que eu quero mostrar mesmo a essência d’O Justiceiro. A minha escrita, na altura da produção, andava à volta de mensagens essencialmente críticas, políticas, mas também quis fazer justiça ao trap – ou ao rap new school – muitas vezes atacado por uma cultura que, supostamente, não é preconceituosa e acaba por sê-lo em relação às coisas novas. Há muito trap a ser feito hoje com mensagem, não é só drogas e gajas – até porque isso também havia com o hip hop clássico.”

 


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