Michael Rother // Solo

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Michael Rother é um dos grandes. O músico apaixonado por gatos foi um dos pilares da cena que se ergueu na Alemanha na década de 70 do século passado como uma distinta alternativa aos caminhos que a pop ensaiava noutras latitudes. Michael passou brevemente pelos Kraftwerk e fez nome com os Neu!, ao lado de Klaus Dinger, e com os Harmonia, projecto dividido com Dieter Moebius e Hans-Joachim Roedelius que chegou a contar, na sua encarnação Harmonia 76, com o input de Brian Eno.

A desagregação dos Neu!, primeiro, e dos Harmonia, depois, efectivamente forçou Rother a trabalhar a solo, com a estreia de 1977, Flammende Herzen, a resultar, como o próprio já fez questão de confessar, de circunstâncias incontornáveis: “Eu não conhecia mais ninguém”.

A confissão faz parte das reveladoras notas incluídas no livro que acompanha Solo, caixa que a Groenland acaba de lançar e que reúne os primeiros quatro álbuns a solo de Rother, um álbum que inclui trabalho para bandas sonoras e outro com raras gravações ao vivo e remisturas (exclusivo da versão em vinil). Tomando apenas o catálogo da Groenland, é possível ler nesta distinção do tratamento nobre que uma edição assim implica (a mesma editora já ofereceu tratamento semelhante à obra de Conny Plank, dos Harmonia, D.A.F, Neu! ou, por exemplo, Holger Czukay) a consagração definitiva de uma obra que provavelmente não foi tão celebrada quanto devia.



Quando nos visitou em 2015 (fez concertos no Milhões de Festa, em Barcelos, e na ZdB, em Lisboa), Michael Rother fê-lo com a obra dos Neu! na bagagem, pelos vistos a única forma que até então tinha de coleccionar carimbos no seu passaporte. De facto, ao lado dos legados dos Kraftwerk e dos Can, a discografia dos Neu! é bem capaz de representar o outro pilar mais celebrado do chamado “krautrock”, um monólito tão imponente que qualquer realização posterior estaria sempre condenada a passar despercebida. Mas há óbvias recompensas no mergulho presente nos trabalhos coleccionados em Solo: a investigação recente da história pelo ângulo mais “baleárico” que etiquetas como a Music From Memory têm imposto na agenda colectiva permite encontrar outro enquadramento para a música que Michael Rother inscreveu no mítico catálogo da Sky na segunda metade dos anos 70.

Efectivamente, o lirismo bucólico das peças de Flammende Herzen e até de Sterntaler — fruto de uma vivência em isolamento profundo no seio da natureza que rodeava Forst, local onde reside até aos dias de hoje — estaria bem mais alinhado com algumas das experiências conduzidas por outro bem conhecido eremita, Mike Oldfield, do que com as derivas mais experimentais, de perfil mais vincadamente electrónico, que os Kraftwerk ou os Tangerine Dream então conduziam, conseguindo aliás vasto reconhecimento e sucesso no plano internacional.

Rother, por outro lado, liberto da necessidade de concessões e compromissos que o trabalho em equipa sempre implica, investiu na busca de uma linguagem própria, mais europeia, menos dependente dos blues, mais introspectiva e menos expansiva, mais fluída e menos angular. Com o extraordinário produtor Conny Plank, as sessões que decorreram no igualmente rural estúdio situado entre Bona e Colónia e em que participaria Jaki Liebezeit, o baterista dos Can (desaparecido em 2017…), partiram das ideias que Rother foi fixando com um gravador de quatro pistas em casa. Duas guitarras para Michael — uma Fender Mustang e uma Gibson Les Paul –, a bateria de Jaki e ainda um piano e um “stringorchestra” da Farfisa e um sintetizador Yamaha de Conny completaram a lista de recursos instrumentais nos económicos registos iniciais.



“A capacidade que Conny tinha para fazer arranjos, como em ‘Hallogallo’ dos Neu!, sempre me espantou. Esse era o talento incrível do Conny Plank — eu não teria sido capaz de o fazer e o Klaus Dinger não teria sido capaz de o fazer também. Para Flammende Herzen, Conny mostrou-me como fazer overdubs sozinho. Gravei algumas linhas melódicas para a faixa título, mas baralhei-me com as camadas — quando ele voltou, disse-me: ‘porque não vais dar um passeio e voltas daqui a uns 20 minutos?’. Quando voltei ele tinha montado as partes certas — a melodia principal estava clara, mas Conny organizou as restantes linhas de guitarra e todas as melodias juntas de repente passaram a fazer sentido. Estava a pedir uma introdução, que celebra mesmo a orquestra de guitarras. Havia muito amor naquele tema título, eu estava muito apaixonado, a minha rapariga estava longe e essa ânsia está na música”.

Totalmente verdade. Sobre gentil motivo propulsivo fornecido por Jaki Liebezeit (claramente a tentar acomodar o estilo de Klaus Dinger nas novas composições do guitarrista, certamente a seu pedido), Rother despe o nervo e a tensão que marcavam o som “motorik” dos Neu! e opta por uma via mais romântica e melancólica em que o objectivo principal é descobrir novas formas de extrair emoção da guitarra. Esse íntimo trabalho de construção de uma linguagem própria implicou que Michael tenha declinado ofertas para tocar o seu registo de estreia ao vivo, preferindo antes recolher-se de novo em Forst para preparar o seu segundo álbum a solo.

Uma vez mais produzido por Plank e com Liebezeit como único músico extra, Sterntaler refinava a proposta inicial e acrescentava novas fontes sonoras à paleta tímbrica da estreia, nomeadamente com a aquisição por parte de Rother de um vibrafone italiano que se escuta de forma proeminente em “Fontana di Luna”, tema que abre com o pulso de Liebezeit e que depois se expande de forma elegante, quase prenunciando o trabalho para o grande ecrã que Rother haveria de executar mais tarde.

“Talvez seja quase foleiro?”, questiona Rother nas notas de capa a propósito do tema que dá título ao seu segundo álbum, eventualmente por ter aguda consciência do peso da cultura “schlager” no seu país. “Não o vejo dessa maneira, mas agora consigo olhar para ele de fora e perceber que poderia ser entendido como sentimental e reconfortante — mas para mim era acerca de notas e de harmonias e combinações, portanto não estava a tentar ser foleiro”. À sua maneira muito particular, e bem pelo contrário, Michael Rother continuava a procurar ser exploratório, característica que haveria de evidenciar no seu terceiro registo a solo, Katzenmusik, a sua homenagem aos felinos, datada de 1979.



Realizado com a mesma equipa – Conny Plank na mesa de mistura, Jakie Liebezeit na bateria –, o terceiro álbum a solo de Rother continuava a socorrer-se da electrónica para construir as bases para as delicadas pinceladas melódicas e harmónicas da sua guitarra, agora expandida com um e-bow adquirido em Inglaterra.

“Claro que eu estava excitado com a possibilidade de ter sustain infinito”, conta, entre risos, Michael na notas de Solo. “É por isso que se escuta o e-bow em todo o lado. No tema ‘KM10’, que tem uma intro longa e flutuante antes da batida entrar, soa um pouco até como gatos aos gritos. Lembro-me de estar no estúdio, muito triste — tínhamos três ou quatro gatas que tinham tido gatitos e nós tivemos que os oferecer senão seriam demais. Mas a gente apaixona-se por estas criaturas. Lembro-me que não era minha intenção expressar tristeza nesse tema, mas ainda o recordo”.

Essa é, provavelmente, a mais funda marca do guitarrismo de Michael Rother: ele está sempre muito menos interessado em evidenciar técnica, em compor para integrar alguma particular forma de execução que pudesse ter aprimorado, do que em expor emoções. A sua música serve o coração, não o ego.

Para o último álbum de originais incluído em Solo, Fernwärme de 1982, muito mudou em termos técnicos, embora não necessariamente emocionais.



Gravado em Forst num estúdio de 24 pistas construído por Michael Rother no andar térreo da sua casa, com amplas janelas abertas para o rio Weser — o mesmo que tinha inspirado Brian Eno a escrever “By This River” para o seu álbum de 1977, Before and After Science (lançado após a sua experiência com os Harmonia) –, Fernwarme foi gravado pelo próprio Rother que apesar de ter assim dispensado Conny Plank continuou a contar com os discretos serviços de Jaki Liebezeit, capaz de uma sempre elegante pulsação, subtil, mas matematicamente exacta. Mais electrónico, talvez com um tom um pouco mais sombrio do que os predecessores, este é um trabalho em que se sente que o guitarrista anda à procura do seu lugar, tentando entender como poderia a tecnologia libertá-lo para criar sempre que a inspiração lhe pedisse.

“Talvez não tenha sido muito inteligente continuar a trabalhar sem o Conny, mas para mim foi um passo natural, não apenas fazer a música mas também esculpi-la até à sua forma final. É acerca de experimentação, da aventura.”

O espírito de aventura, em abono da verdade, nunca abandonou Rother até ao presente. Manifestou-se não apenas no seu trabalho para bandas sonoras aqui incluído (muito interessante e até “carpenteriano” o seu score para The Robbers, pleno de tensão e suspense, muito apoiado em texturas electrónicas, bem como o mais meditativo Houston, com peças aparentemente menos funcionais, mas de uma singular beleza abstracta) e também no trabalho de palco: “Groove 139”, gravada no Jazz Cafe de Londres em 2018 é uma vénia aos Neu! efectuada com classe e distinção, e “Drone Schlager”, resultado de um encontro “live” em estúdio com Aaron Mullan, engenheiro de som dos Sonic Youth, e Steve Shelley, o baterista da mítica banda nova-iorquina, confessos fãs da obra dos Neu!, são duas claras provas de que mesmo com alma de eremita, Rother nunca se importou de colaborar com outros artistas.

“O que eu sei”, admite Rother em jeito de conclusão nas notas de Solo, “é que Forst é um ambiente em que o meu batimento cardíaco desacelera e a minha respiração fica mais funda de cada vez que ali chego, regressado de alguma viagem. Adoro viajar e ver o mundo e consigo apreciar o bulício louco de cidades como Tóquio durante algum tempo, mas seria incapaz de ficar exposto a esse tipo de stress, de ruído, de tráfego caótico e lugares apinhados de gente. Tento equilibrar ambos os mundos porque é claro para mim que preciso de uma mistura de ambos”.

O mundo e a casa, o exterior e o interior, o bulício e a calma, o caos e a ordem. Todas essas ideias atravessam a música de Michael Rother, um homem que entende os gatos e que percebe que, como de resto essas misteriosas criaturas, também a música se pode mover em saltos elegantes, carregados de poder e de leveza ao mesmo tempo, sendo permanente fonte de maravilhamento e eterna fonte de inspiração.

Solo é por isso mesmo um justo retrato de um criador tão inquieto quanto discreto, um músico emocional e emocionante, que criou uma linguagem própria, romântica e melancólica, suspensa num tempo de urgentes revoluções e de vertigem permanente. Ouvi-la agora é fazer-lhe a justiça que sempre mereceu.


Michael Rother – Solo – Boxset – GROENLAND RECORDS

RELEASE DATE: 22.02.2019 Pre-order the new boxset from Michael Rother! THE SIGNED VINYL BOXSETS ARE NOW SOLD OUT – Regular versions still available. (Those who ordered a Vinyl Boxset on or before 8th December will receive a signed copy) Solo includes Michael’s first four solo projects, Flammende Herzen, Sterntaler, Katzenmusik and Fernwärme, a Soundtracks and […]

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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