MEO Sudoeste’19 – 7 Agosto: à caça de talento na Herdade da Casa Branca

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Francisco Direitinho e Iris Cabaça / World Academy

Às vezes, e por muito que custe ignorar o ruído, as atenções não têm que se virar para os cabeças de cartaz. Neste caso, e falando do primeiro dia da edição deste ano do MEO Sudoeste, a realidade foi essa: em vez de focarmos energias no Palco MEO, a agulha foi apontada para outros dois sítios, o Palco Santo Casa e o Palco LG by Mega Hits. A missão? Medir o potencial dos novos talentos.

“Sou a Mynda’Guevara e venho da Cova da Moura. Ah! E faço rap crioulo”. Foi desta maneira que a rapper deu início à sua apresentação na Zambujeira do Mar, lutando contra um horário que, por norma, não beneficia ninguém. Nos primeiros cinco minutos, o cenário não parecia o melhor, mas rapidamente mudou e o público que compareceu serviu para que as suas rimas não caíssem no vazio.

Assistida somente por DJ Firmeza, a MC atacou o microfone com notória confiança, assumindo, quando foi necessário, o seu lado mais cantado com facilidade. Não é de agora e já todos sabemos o leque de argumentos de Mynda; admira que ainda não ande em voos mais altos, algo que só se pode justificar pela utilização do crioulo e pelo carácter mais interventivo das suas letras.

Depois de disparar “Nha Mundo”, “Bu Silêncio”, “Sodadi” e “Ken Ki Fla”, entre outras canções, a talentosa artista despediu-se a pedir que se gritasse “female power”, pedido prontamente acedido pelos homens e mulheres na plateia, dando um desfecho digno à sua prestação.



Ainda a poeira não tinha assentado no Palco Santa Casa e DJ Suprhyme já aquecia os poucos que se aventuravam no Palco LG by Mega Hits. “FRIENDS” de J. Cole ditou o tom do que viria a seguir: música consciente a reflectir sobre o certo e o errado e a tentar ser a banda sonora da redenção dos nossos pecados.

Vozeirão parece redutor para descrever as capacidades de Macaia, mas, à falta de melhor, ficamos assim. Do agudo ao grave, o seu espectro aparenta ter poucos limites, desdobrando-se em acrobacias vocais nas faixas “Casa de Oportunidades” ou “Tu Vens”, por exemplo, mas pouco importa o contexto: esta voz vai a todo o lado (r&b, soul, gospel, afrobeat, hip hop) e merece ser ouvida. Pode ser que o primeiro longa-duração, que segundo o próprio sai depois do Verão, ajude a espalhar a palavra.

Na recta final do concerto, o cantor chamou Papillon ao palco para “Areia Vermelha”, single produzido por Kid Simz, momento de celebração e de dança que serviu de passagem de testemunho — em 2018, o autor de Deepak Looper actuou em nome próprio no festival e, desta vez, regressou à Herdade da Casa Branca para deixar um aviso: estão a assistir na primeira fila ao início da caminhada gloriosa de Macaia. Fica ao critério dos presentes acreditar nas palavras de Rui Pereira; nós não podíamos concordar mais…



Tal como o seu antecessor, Francisco Murta também está a preparar o seu álbum de estreia, mas existem vários factores decisivos a separá-los e que apontam um caminho mais facilitado para o lado do segundo: o ex-concorrente do The Voice Portugal faz parte do elenco da Universal Music Portugal e já tem um hit (a correria de pessoas de trás para a frente em “Porquê” é a prova) que lhe permite, para já, construir uma base de fãs que só tende a crescer de dia para dia.

Musicalmente, Murta é um híbrido estranho que se pode colocar entre Gson e Diogo Piçarra, um novato à procura de equilibrar trejeitos de exibicionismo bacoco adquiridos nos talent shows e uma voz elástica que se junta a uma vontade de equilibrar referências como Mac Miller (uma das músicas do seu novo álbum é dedicada ao rapper e produtor norte-americano) e Da Weasel (“Duía” entrou no alinhamento do concerto).

Acompanhado por uma banda competente que emprestou groove quando foi necessário e apareceu com peso, conta e medida, o jovem cantor não comprometeu, mesmo que os auriculares nem sempre tenham facilitado a vida, parecendo completamente apto para os maiores palcos. Esperemos que chegue lá pela porta certa.



Para fechar o primeiro dia, assistimos ao concerto de mais um dos “escolhidos” de Blaya. Pedro Mafama, autêntico papa-festivais em 2019, continua a trilhar um percurso bonito que, se tudo correr bem, culminará num sucesso retumbante. É dar-lhe tempo e espaço.

Marcar presença num gig do autor de Tanto Sal e Má Fama, que surgiu na companhia da “mana Kamila” e foi novamente vestido por Martim Alvarez, é ver as mais diferentes reacções: a surpresa, o desdém, a alegria, a estranheza, a desconfiança; há espaço para tudo. Como tudo o que não encaixa nos cânones tradicionais, a assimilação destes “novos fados” pode não acontecer à primeira.

“Aquele palco ali é bué grande. Quero um assim”, atirou enquanto olhava para o Palco LG by Mega Hits. Sonhar ainda é grátis.

O pontapé-de-saída foi dado com “Jazigo”, “tarraxo f***** lisboeta” logo a seguir com “Elefantes” e, depois de outros desvios, “Lacrau”: “Essa batida é f*****. Pedro da Linha é mau”. “Aquele palco ali é bué grande. Quero um assim”, atirou enquanto olhava para o Palco LG by Mega Hits. Sonhar ainda é grátis. O “som badalhoco de Lisboa”, palavras do próprio, espalhou-se como veneno pelo corpo dos resistentes (dos 5 aos 45 anos) que não arredaram pé até ao fim.

Hoje, 8 de Agosto, é o dia mais preenchido para o ReB: 6LACK, Post Malone, Jimmy P, Mike Lyte, Spliff, X-Tense, Ary Rafeiro, Phoenix RDC e Uzzy apresentam-se ao vivo no evento alentejano.