MC versus produtor: o génio de Madlib em três colaborações icónicas

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Nick Walker

Como destacava Rui Miguel Abreu na passada terça-feira, Madlib é “um dos raros casos dentro do hip hop de um artista que ocupa exactamente o lugar que quer ocupar”. O feito está apenas à mercê daqueles que, além de possuírem um enorme talento, gerem a carreira com atenção aos detalhes mais pequenos. E isso passa também por não aceitar todo e qualquer pedido que surja para uma colaboração — é preciso “passar no casting” antes de conquistar o direito a rimar numa batida de Otis Jackson Jr.. Não esquecendo, claro, algumas pontuais parcerias com outros músicos, como já aconteceu com Karriem Riggins ou Ivan Conti, que ficam de fora desta equação MC/produtor.

Numa luxuosa lista de menções honrosas ficam os nomes de Talib Kweli, Lootpack, Percee P, Dudley Perkins, Joey Bada$$, Snoop Dogg, Roc Marciano, Oh No, Kendrick Lamar, M.E.D., Blu, Kanye West, Guilty Simpson, Georgia Anne Muldrow, Planet Asia, De La Soul, Ghostface Killah, Mos Def, Anderson .Paak ou Erykah Badu.

Aqui, o foco vai para três casos de colaborações que fizeram história no hip hop, gerando discos que ainda hoje são merecedores de toda a atenção.


[Jaylib] Champion Sound

Já na casa de talentos da Stones Throw, e depois de ter produzido para os Lootpack ou Tha Alkaholiks e ter revelado a sua faceta de MC com o primeiro álbum enquanto Quasimoto, Madlib fez uma jogada improvável no LP que sucedeu a Shades of Blue. Aquele que poderia ser o seu principal “rival” acabou por se tornar no complemento perfeito para criar Champion Sound, editado em 2003 pela label de Peanut Butter Wolf. Falamos de J Dilla, homem que estava a colocar Detroit no mapa e a revelar-se peça fulcral da beat scene, dono de um swing inconfundível que, à semelhança de Otis, também sabia como debitar poesia ao microfone.

A fórmula utilizada para chegar a Champion Sound é curiosa: à vez, Madlib e Dilla iam rimando em cima das produções um do outro, trabalho feito  entre Detroit e Oxnard, prática que é hoje mais comum na geração digital.

Embora o autor de Donuts tenha ficado alguns furos abaixo daquilo que seria expectável — tanto na vertente de MC como na de beatmaker —, o disco serviu de exemplo para alguns polivalentes do hip hop que se seguiram, como Kanye West ou El-P, ambos produtores com créditos firmados também na arte das palavras.


[Madvillain] Madvillainy

Não foi preciso esperar muito até vermos nascer uma nova parceria de Madlib. Curiosamente, o álbum a meias com MF DOOM até esteve para ser editado antes de Champion Sound, mas uma versão leakada que surgiu na Internet fez com que os dois artistas perdessem o ânimo, empurrando-o para 2004, depois de ter sido regravado: voz do rapper da máscara de ferro não coincide com essa versão não-oficial e foram adicionadas mais faixas.

Se a fuga de informação contribuiu para o fraco desempenho comercial do LP, queremos acreditar que nem tudo acontece por acaso, até porque Madvillainy será sempre relembrado como um dos grandes clássicos do novo milénio do hip hop norte-americano, alvo de menções nas mais diversas publicações musicais, inclusive ocupando lugares admiráveis em listas de melhores álbuns de sempre dentro do género. Nada de surpreendente, se pensarmos na sua fórmula: DOOM apenas contava com dois projectos editados (um deles assinando como King Geedorah) e se hoje o vemos como um dos mais misteriosos artistas dentro do meio, a bruma que pairava em torno da máscara era ainda mais densa e o seu jogo de rimas mais fresco do que nunca; do outro lado, Madlib, ao reconhecer a faceta de explorador sónico do então novo parceiro, viu os limites à criatividade serem-lhe totalmente derrubados, assinando em Madvillainy algumas das suas mais arrojadas produções, fazendo o impossível numa arcaica Boss SP-303, movida a sons de universos tão distintos como os das heranças musicais afro-americanas, brasileiras e até asiáticas.


[Madlib & Freddie Gibbs] Piñata

Em 2014, o hip hop aproximava-se a um ritmo vertiginoso dos campos da electrónica. Flying Lotus caminhava no limbo entre os dois géneros e reactivava uma então estagnada beat scene, o trap e o drill mostravam ser a próxima sonoridade adoptada pelas ruas e qualquer “miúdo” com acesso a um computador facilmente começava a compor batidas de forma completamente autónoma. É nesse mesmo ano que Madlib convoca um “desconhecido” Freddie Gibbs para uma nova parceria, que voltaria a colocar o hip hop movido a drum breaks quentes e a samples poeirentos na ordem do dia.

Piñata é um daqueles raros discos destinados ao estatuto de clássico logo desde o dia da sua edição. Cozinhado durante três anos, o álbum alberga os pensamentos e confissões mais obscuros do rapper, que então ganhava o seu pão de cada dia nas ruas. Facilmente conseguimos fazer a ligação entre Piñata e Only Built 4 Cuban Linx… — álbum de estreia de Raekwon, que não resistiu em dar o selo de aprovação ao colega com uma feature registada em “Bomb” — pelo toque sombrio que os MC têm na sua escrita, atravessando paisagens de loops filtrados fornecidas pelos seus pares de produção. A contribuir ainda mais para este cenário, Kane contracenou com alguns dos melhores liricistas da sua geração, Earl Sweatshirt, Mac Miller, Danny Brown ou Domo Genesis. 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira