Madlib: 25 anos de criatividade sem limites

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Matthew Scott

Madlib é um tipo peculiar, realmente diferente, e provavelmente um dos raros casos dentro do hip hop de um artista que ocupa exactamente o lugar que quer ocupar. Nem demasiado alto, onde se vai por vezes parar – quase sempre temporariamente – por desígnios mais ou menos inexplicáveis que se prendem com a ideia do “sabor do mês”, nem, por outro lado, demasiado baixo, para onde frequentemente é remetido quem não tem o talento ou o rasgo de sorte necessários para vingar. Nada disso: aos 45 anos, Otis Jackson, Jr. encontra-se, precisamente, no lugar que sempre pretendeu que fosse o seu, um verdadeiro “producer’s producer” que ergueu tranquilamente uma obra vastíssima, ferozmente independente, multifacetada e carregada de vários títulos de culto. As suas míticas colaborações com MF Doom, Jay Dilla ou, mais recentemente, Freddie Gibbs valeriam, cada uma delas, pináculos irrepetíveis na carreira de qualquer outro produtor, mas na sua ultra dilatada discografia de várias dezenas de títulos são entradas normais que precisam de ser colocadas lado a lado com outros trabalhos de produção (para Talib Kweli, Guilty Simpson, Dudley Perkins…), de reinvenção pura (como a que assinou sobre catálogo Blue Note), de divisão criativa de personalidade (todo o universo que construiu em torno dos Yesterdays New Quintet) ou de fantasia levada ao extremo (as “expedições” ao Brasil, África ou Índia em que tem embarcado a bordo do seu sampler).

É um bocado incrível pensar que é preciso recuar um quarto de século para apanhar o início do novelo da carreira de Madlib, quando começou a criar os primeiros beats para os Tha Alkaholiks. O primeiro passo realmente digno de nota do seu percurso, no entanto, foi dado em meados dos anos 90, com as edições inaugurais dos Lootpack com selo da sua Crate Diggas Palace. E quase tão relevante como o seu trabalho inicial é a designação que escolheu para o seu primeiro selo: a sua referência aí ao “crate diggin”, à procura obsessiva de vinil relevante para samplar, revelava afinal de contas uma ética rigorosa de procura de um passado que nunca o abandonaria. Madlib é um digger que tem lugar garantido na mesma elite de escavadores da memória impressa em plástico negro em que também se encontrará gente como DJ Shadow ou Cut Chemist.

Os Lootpack, grupo em que também militavam o MC Wildchild e DJ Romes, seriam a porta de entrada de Madlib para a Stones Throw de Peanut Butter Wolf que, em 1998, editaria o maxi Whenimondamic, preâmbulo para a clássica estreia em formato grande com Soundpieces: Da Antidote, em 1999. A primeira edição em nome próprio, o EP de sete polegadas Madlib Invazion, chegaria com o novo milénio. E, pouco tempo depois, uma das mais notáveis e originais estreias de sempre, The Unseen, primeiro registo longo de Quasimoto, o alter-ego MC de recorte algo surreal com que Madlib vincou definitivamente a diferença.

Quas é um MC com rimas movidas a hélio, mas é muito mais do que isso: é um veículo para Madlib experimentar novas texturas que musicalmente podem significar jazz, soul, funk e ruídos avulsos e poeticamente surge sempre com um ângulo imprevisível, sobre as mulheres, os discos, ou o rap game! O argumento principal dos dois álbuns de Lord Quas – o segundo volume surgiu com The Further Adventures of Lord Quas em 2005 – é mesmo a imaginação, traduzida nos milhentos samples usados, nas diversas vozes usadas, nos flows de cartoon de que se socorre, sempre saudavelmente alheio às “regras”.



Entretanto, no arranque do novo milénio, com a edição, primeiro, logo em 2001, de Angles Without Edges enquanto Yesterdays New Quintet e, pouco depois, em 2003, do projecto de abordagem ao catálogo da Blue Note Shades of Blue, Madlib escancarou outra porta que não voltaria a fechar: a que dá para o inesgotável universo do jazz que exploraria de múltiplos ângulos.

Madlib haveria de retirar do mundo do jazz muitos elementos que lhe guiariam a criação, mas, além das questões puramente estéticas, o jazz ensinou-lhe igualmente uma disciplina de trabalho que já não se usa e que no meio do hip hop onde se move é extremamente rara. A indústria pop moderna dita o fôlego da criação, pois a um álbum tem que se suceder um período de promoção e pelo menos uma digressão e as vendas dilatam-se cada vez mais no tempo não permitindo que um artista se exprima consoante a inspiração impõe. Mas um rápido olhar para a discografia de Madlib revela que este homem aprendeu o timing das edições na época em que os mais esforçados jazzmen podiam colocar o seu nome em mais de uma dezena de títulos por ano.

O jazz sempre correu nas veias de Otis Jackson, Jr: o seu pai era um músico de sessão que trabalhou bastante com H.B. Barnum, arranjador de serviço em muitas produções conduzidas por David Axelrod. Por outro lado, Madlib habituou-se a ver grandes vultos do jazz em sua casa, trazidos para jantar pelo seu tio, o trompetista Jon Faddis, sempre que a estrada o aproximava de Oxnard, a vila a norte de Los Angeles onde cresceu. O jazz não demorou a manifestar-se na música criada por Madlib. Primeiro como matéria-prima dos beats que criou para o seu grupo Lootpack ou para alter-egos como Quasimoto e mais tarde quando congeminou a ideia Yesterdays New Quintet. Este quinteto imaginário, mas com todos os músicos perfeitamente identificados – Ahmad Miller, Joe McDuphrey, Malik Flavors, Monk Hughes e, claro, Otis Jackson Jr – editou dois álbuns, Angles Without Edges e Stevie Vol. 1, e todos os seus “elementos” lançaram projectos a solo: a “esquizofrenia” musical de Madlib deu origem a um universo perfeitamente equilibrado, em que cada um dos elementos do quinteto tinha uma baliza estética perfeitamente definida, o que tanto podia significar experiências modais ou incursões por territórios mais free.

A Blue Note foi a primeira a reconhecer o pedigree jazz de Madlib e, pela segunda vez na sua história, abriu o seu arquivo ao sampler de um artista (a primeira vez que isso aconteceu foi com os Us3). O resultado foi Shades of Blue, um álbum em que Madlib encarou o legado da Blue Note como um mapa para o guiar numa jornada musical até ao presente com o luxo adicional de lhe ter sido facultado o acesso a multipistas em que descobriu trechos não usados em misturas finais de trabalhos clássicos de gigantes como Donald Byrd.

Madlib voltaria a entrar na “zona” com Yesterdays Universe, um complexo empreendimento musical de 2007 em que o então ponta de lança da Stones Throw foi ainda mais longe: como não lhe bastava um quinteto, Madlib concebeu esse álbum como uma antologia em que participavam vários projectos com nomes delirantes, subtraídos directamente ao universo dos discos de vinil que alimentam desde sempre a sede deste criador. The Last Electro-Acoustic Space Jazz Ensemble, Kamala Walker and The Soul Tribe, Monk Hughes & The Outer Realm, The Eddie Prince Fusion Band, Joe McDuphrey Experience, The Jahari Massamba Unit, Yesterdays New Quintet, Young Jazz Rebels, Sound Directions, Jackson Conti, The Jazzistics, Malik Flavors, Ahmad Miller ou Suntouch são 14 maneiras diferentes de dizer Madlib. Com a ajuda de dois bateristas — Karriem Riggins (que já trabalhou com Roy Hargrove e que normalmente acompanha Roy Brown e que entretanto impôs o seu nome graças a vários lançamentos em nome próprio na Stones Throw) e Mamão (do lendário grupo de fusão brasileiro Azymuth) –, Madlib fechou-se no estúdio e emergiu com outro álbum de excepção, em que o jazz surgia como uma linguagem capaz de comunicar diferentes visões musicais: do jazz de feição mais espiritual até ao free, passando por momentos mais declaradamente enraizados na tradição rhythm n’ blues. Obviamente, o que era de louvar aí não era o facto de Madlib produzir todo esse glorioso ruído com as ferramentas que o hip hop lhe ensinou a usar, mas antes o resultado final, a música, que o revelou sempre como um jazzman de alma e coração preso no corpo de um excepcional produtor de hip hop.

Será, aliás, interessante pensar como as derivas jazz de Madlib podem não só ter influenciado aproximações ao género por parte de artistas como Kendrick Lamar ou BadBadNotGood, mas também apontado caminhos para os novos músicos que hoje se impõem nos domínios do jazz, mas que não escondem a inspiração retirada de uma educação declaradamente hip hop.



Esse excepcional e visionário produtor haveria depois de alcançar a imortalidade com projectos colaborativos como os clássicos Champion Sound, repartido com Jay Dilla e editado em 2003, ou Madvillainy, lançado a meias com MF Doom em 2004.

Numa entrevista à Wax Poetics, MF Doom esboçava uma ideia extremamente interessante: quando é que o hip hop se tornou hip hop? Segundo Doom, o momento em que o DJ primordial usou o crossfader para passar de um disco de soul para outro qualquer, aquele momento preciso em que o fader abriu o espaço sónico de ambas as rodelas de vinil à interferência do DJ, esse foi o momento de nascimento do hip hop. Sendo assim, o hip hop poderia ser entendido como uma música entre dois (ou mais) mundos, uma música que existe no espaço que a formação do produtor ou DJ determina. Para Madlib, companheiro de Doom no projecto Madvillain, esse espaço foi o da intersecção do jazz e da soul com a modernidade electrónica dos samples. Jay Dee, outro produtor de eleição que fez parte dos Soulquarians com ?uestlove dos Roots (e que militou nos Slum Village), vinha de um espaço formativo semelhante, mas com o sabor específico da sua Detroit natal, onde a soul por via da Motown foi sempre alavanca de elevação, ferramenta de sobrevivência e motivo de orgulho. Com Madlib, Jay Dee criou em 2003 o incrível projecto Jaylib.

As aventuras de laboratório Jaylib e Madvillain, traduzidas discograficamente em Champion Sound e Madvillainy, respectivamente, afirmaram-se como puro hip hop porque resultaram igualmente do cruzamento de dois mundos. Em Champion Sound, ‘lib e Jay Dilla rimavam alternadamente nos beats um do outro, numa espécie de troca de estímulos em regime aberto de ideias que se traduziu num entusiasmante caleidoscópio hip hop, com beats sujos e fluidos que traíam as paixões de cada um dos produtores e que soavam como uma noite passada num clube de jazz, com headphones na cabeça.

Madvillainy, por outro lado, afirmou-se como um objecto diferente, mais apoiado nas memórias de cada um dos produtores, Mad e Doom, soando como uma viagem de zapping por canais de TV com quarenta anos e imagem distorcida (pelo tempo ou pelo fumo…). Ambos soam ainda hoje como exercícios brilhantes que forçaram o hip hop para fora do confortável sofá onde por vezes teimava (e ainda teima…) deitar-se, levando-o a explorar o resto da casa, de luzes apagadas…



Em meados da primeira década do novo milénio, Madlib inaugurou uma das suas notórias séries, The Beat Konducta, com que disponibilizaria sete volumes de Movie Scenes, incluindo um par deles a dar corpo ao seu fascínio pelo vinil criado no seio da indústria de Bollywood: com uma utilização sempre criativa do sampling, não pretendendo alguma vez soar “limpo” ou “musicalmente correcto”, Madlib nestes registos mais livres cria sem ligar a regras ou a limites, assinando trabalhos de espessura psicadélica, desconjuntados, mas plenos de invenção e de personalidade.

Antes da criação do selo próprio Madlib Invazion em 2010, sinal de uma mente irrequieta, completamente alheia a regras – tanto em termos de licenciamento correcto de samples como de contenção comercial no que diz respeito ao output -, o produtor de Oxnard ainda lançou uma colaboração com Talib Kweli, Liberation, de 2006, que precedeu o encontro com Guilty Simpson, Before The Verdict, datado de 2010 e merecedor já do seu então novíssimo carimbo. Esse foi igualmente o primeiro passo numa nova e arrojada série a que chamou Medicine Show.

Inicialmente anunciada como uma série que lhe permitiria editar um novo álbum a cada mês durante um ano, Medicine Show acabaria por se estender até 2012 e render 13 títulos, entre mixtapes, projectos de instrumentais, novas incursões pelo jazz ou declarações de amor via diggin’ ao lado mais esotérico da música brasileira. Na verdade, projectos de ambição desmedida como este apenas traduziam uma atitude compulsiva face à produção que sempre distinguiu Madlib: ele cria e edita não porque o “mercado” assim o exija, mas simplesmente porque pode e lhe apetece…



E nem é apenas em nome próprio que Madlib se expressa: excluindo inúmeros beats pontualmente cedidos para projectos de diversas dimensões (de duas faixas em The Grind Date dos De La Soul a um “No More Parties in LA” em The Life of Pablo de Kanye West, Madlib tem um vasto catálogo de produções avulsas), há que contar sobretudo com um flow constante de álbuns inteiros merecedores do seu carimbo desde os tempos dos Lootpack. Além dos projectos colaborativos já mencionados com gente como MF Doom, Jay Dilla, Talib Kweli ou Guilty Simpson, para a obtenção de uma correcta perspectiva da dimensão da sua obra há que contabilizar os álbuns realizados a meias com gente como Dudley Perkins, Declaime, Percee P, Strong Arm Steady, Planet Asia, Georgia Anne Muldrow, MED e Blu, Kazi ou Sam Herring.

E, claro, há ainda a parceria com Freddie Gibbs. Com o MC de Gary, Indiana, Madlib assinou o incrível Piñata em 2014, trabalho que merecerá sucessão em breve com Bandana, novo álbum que ainda recentemente foi antecipado com a revelação dos singles “Flat Tummy Tea” e “Assassin”.

O homem que identificou gigantes como Miles Davis, Sun Ra e David Axelrod como os seus principais mestres pode, hoje, reclamar um lugar à parte que, como se começou por explicar, habita em modo perfeitamente solitário, de forma livre e independente, alheio a movimentações de fundo que possam ditar rumos comerciais à indústria. Essa liberdade traduz-se não apenas na sua labiríntica e extensa discografia, mas na sua declarada falta de vontade em interagir com a imprensa ou na fraca propensão para apresentações públicas. Madlib poderia, facilmente, facturar muito mais, nomeadamente se aceitasse todos os convites que lhe são dirigidos para produzir para terceiros ou para integrar cartazes de festivais. Felizmente para todos nós prefere fechar-se no seu Bomb Shelter, rodeado de vinil, e com as suas ferramentas de eleição à mão. E com isso, na verdade, ganhamos todos.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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