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Fotografia: Direitos Reservados

Um "velho" novo talento.

Maudito sobre Troca Tintas: “A ordem dos temas do EP segue o meu humor diário”

Fotografia: Direitos Reservados

Troca Tintas é o EP de apresentação de Maudito. Beiro está aos comandos da produção e Here’s Johnny fica como responsável pelos adds, mistura e masterização.

O nome é novo mas o skill já é um nosso velho conhecido. Gustavo Sousa é um MC do Porto que respondia anteriormente por Weis, assinatura que ficou cravada nos projectos Preso a Ideias Soltas, Palavras Atropeladas e Agora ou Nunca.

Vestida a capa de um novo alter-ego no início deste ano, a proposta sónica de Maudito descola-se das sonoridades tradicionais do hip hop, algo que veio com a maturidade adquirida pelo artista nos últimos tempos, tal como explicou ao ReB numa troca de impressões sobre a mais recente obra. “Dá-me Espaço”, o single de apresentação do disco, tem todos os condimentos para ser uma das faixas que mais marcaram este ano: o balanço que vai buscar à música de dança é irresistível apresentou o poderio vocal do emergente João Não a um público mais vasto e esteve em destaque na última compilação de novos talentos da Fnac.

Beiro é quem segura a nova nave em que navega Maudito, orientando o seu flow e jogo de fonéticas — as duas características que mais se destacam do currículo técnico do rapper — pelas rotas que o universo da electrónica nos proporcionam. O produtor vinha de um 2019 irrepreensível — percorreu uma saga de 10 beat tapes e colaborou com Ângela Polícia, Each ou os Caixa Cartão Collective – e surge de cara lavada em Troca Tintas, deixando clara a habilidade camaleónica que possui.



Este é o teu primeiro projecto desde o Agora ou Nunca. Entretanto começaste a apostar mais nos singles, mudaste de nome e transitaste para uma outra sonoridade. Do ponto de vista artístico e criativo, em que consistiu o salto do Weis para o Maudito?

Este é o meu primeiro projecto lançado desde o Agora ou Nunca. Pelo meio ainda fiz um álbum com o Virus e comecei outros EPs que acabaram por se aproveitar para singles soltos. A principal mudança entre Weis e Maudito está no nome; a sonoridade e empenho talvez tenha vindo com a maturidade. Eu não mudei de nome para poder trocar de sonoridade nem vice-versa, os momentos coincidiram. Acredito que todas estas experiências fazem parte do processo criativo de artista, e esta ia acontecer quer o meu nome fosse Weis ou Maudtio.

Entretanto figuraste entre um admirável elenco de promessas nacionais na compilação Novos Talentos Fnac 2020. Como é que recebeste esta notícia e o que é significa para ti esta distinção?

Como qualquer pessoa, é sempre um prazer ver o próprio trabalho a ser reconhecido. Não é que eu estivesse reticente com o primeiro single como Maudito mas essa distinção deixou-me ainda mais seguro do caminho que procurava seguir na música.

Lanças agora o Troca Tintas: porquê este título? Vem no seguimento destas mudanças que falava atrás?

Sim, em parte vem também dessa mudança. Ao longo dos últimos anos a minha vida variou bastante: companhias, cidades, casas, interesses, trabalhos… Claro que é bom ter confiança e segurança no que se pensa e diz mas numa fase de crescimento as mudanças são constantes e inegáveis. Sou uma pessoa muito inconstante com o meu trabalho e este título reflete isso também. Ao longo de sete temas encontramos diferentes sons, ritmos e estados de espírito. Acho que até quase pode haver uma contradição nas letras mas estou perfeitamente seguro da mesma porque o processo irregular faz parte para, mais tarde, poder cimentar ideias.

Também trocaste a ordem na forma como como apresentas os temas. Em que é que isso nos ajuda a alinhar com a narrativa que criaste para este EP?

Semelhante à ideia de Troca Tintas, o primeiro título que me tinha ocorrido para o projecto estava relacionado com a palavra “mas” e a constante adição de alternativas. Dentro destas infinitas alternativas formava-se um loop que pode ter diferentes horizontes temporais. A ordem dos temas do EP segue o meu humor diário, começando com mais vontade e gana mas aos poucos vai caindo, sendo que à noite — momento de reflexão — tudo se torna questionável e mais triste — aqui entra a faixa “Dr.?”. No dia seguinte o ciclo repete-se, ou seja, não há propriamente um fim ou um início, daí a “Intro” estar numericamente em último mas fazer a ponte com a primeira faixa do disco – o último verso é “As coisas acabam más e começam com um mas”, e o primeiro é “Mas o que eu faço aqui, mano, é engano?!”

Ao teu lado contas com o Beiro, que assina todos os instrumentais. Como é que chegaste até ele e o que é que vos motivou a partirem para um disco colaborativo?

O contacto com o Beiro já vem bem antes do EP. Há uns anos, ainda vivíamos os dois no Porto, ele enviou-me uns beats e mostrou interesse em trabalharmos mas na altura, como estava a fechar outro álbum, a minha disponibilidade não era a mesma e o que planeamos acabou por morrer. Mais tarde, eu estava à procura de produtores e perguntei-lhe se estava interessado em fazer alguma coisa. Inicialmente ia buscar um beat para um single mas rapidamente mudei de ideias porque gostei muito da forma de pensar e trabalhar do Beiro. Ele concordou em produzir todos os temas do meu EP e a partir daí a ligação foi natural e rápida.

O primeiro single, “Dá-me Espaço”, começou por ser apresentado no início de um ano que se veio tornar completamente atípico para todos nós. Teve alguma influência na forma como o processo criativo se desenvolveu?

Sim, o planeamento de datas e lançamentos acabou por ter de ser trocado. Por um lado deu mais margem de manobra para aperfeiçoar certos pontos mas, por outro, a expectativa de tocar ao vivo este EP como idealizei no início perdeu-se.

O que se segue na agenda da promoção do Troca Tintas? Há por aí mais algum videoclipe, edição física ou concerto nos teus planos?

A nível de videoclipes acho que a “trilogia” está fechada. Agora tenciono apresentar ao vivo no Porto e Lisboa (pelo menos) e ando a ponderar fazer merchandising do EP.


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