Marcelo D2: “Preciso falar o que eu tenho para falar e o Planet Hemp é a válvula de escape para isso!”

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTO] Direitos Reservados

“Não tragam o ‘Planeta’ Hemp na capital porque o Ministério Público vai metê-los na Penitenciária!” Corria o ano de 1997 e a ameaça, vociferada por um apresentador e ex-deputado brasileiro que, à época, apresentava o seu próprio talkshow na TV, tinha destinatários muito concretos. Marcelo Maldonato Peixoto, 30 anos, também conhecido como Marcelo D2, era um deles, a par de Black Alien, Formigão, Bacalhau, Zé Gonzales e Jackson. Os seis acabariam mesmo por ser presos, no final desse ano, depois de um concerto em Brasília. O motivo? Incitação ao consumo de cannabis. A polícia civil estaria há um ano a estudar as letras do grupo que, por esta altura, já tinha na rua dois álbuns de estúdio: Usuário e Os Cães Ladram Mas A Caravana Não Pára



Se as letras já incomodavam os “donos” de uma democracia ainda recente — “comichão” suficiente para garantir que cinco dias de prisão não aconteceriam sem antes terem sido cancelados concertos, limitados os horários de transmissão de videoclipes na TV ou discos e músicas terem sido retirados do ar –, a atitude não deveria incomodar menos. Em 1997, já se tinham passado quatro anos desde que Skunk encontrara Marcelo D2 a envergar uma t-shirt dos Dead Kennedys e a paixão mútua pelo rock os unira. Nenhum dos dois sabia tocar um instrumento mas isso, surpreendentemente, não seria um impedimento: ambos sabiam rimar. Rafael Crespo, Bacalhau e Formigão trouxeram a guitarra, a bateria e o baixo. Depois da morte prematura de Skunk, em 1994, BNegão substituiria o vocalista e, em 1995, chegava Usuário. O resultado? Baixos pesadíssimos e guitarras furiosas num registo que ora se passeava pelo raprock e pelo hardcore ora pelo ragga. No Brasil, os Planet Hemp conviviam com sucessos do rock nacional como Os Raimundos ou com o rock psicadélico e o maracatu de Chico Science e Nação Zumbi. O último, que tinha James Brown ou Grandmaster Flash como grande referências, viria a influenciar até fenómenos do metal como os Sepultura ou os Soulfly. Lá fora, Beastie Boys ou Cypress Hill traziam ingredientes para juntar a um caldeirão que já se aquecia há muito.

“Não Compre, Plante!” e “Porcos Fardados/Bicho Feroz”, logo à partida, deixavam três pontos bastante claros. A intenção da banda em passar a sua mensagem de legalização da cannabis reforçando o constante fracasso no combate ao tráfico no Rio de Janeiro, já desde os anos 70; a noção de que este não seria um álbum de temática única (tal como não o é a questão do tráfico); e, por fim, de que não seria apenas um registo de rap tal como não seria apenas rock. O punk de “Mary Jane” ou o hino hardcore que era a “Legalize Já!” caracterizavam uma banda que tinha conseguido fechar contrato com a Sony e começava já rodar o país e a agitar muitas cabeças. No álbum, que chegou a disco de Ouro, participam também DJ Gonzalez e Black Alien, vindo das suas andanças com Speed e trazendo toda a influência ragga e uma técnica de rima ímpar, que levaria para um segundo trabalho. Os Cães Ladram Mas A Caravana Não Pára chegava em 1997, depois dos Planet Hemp terem voado até Los Angeles para o produzir ao lado de Mário Caldato Jr., o brasileiro que trabalhava com os Beastie Boys já desde 1989. O rap e o hardcore confundiam-se agora com o samba, o jazz e a bossa nova e as letras continuavam contundentes, numa altura em que a banda ocupava salas por todo o país, incendiava os media e a opinião pública, levando o activismo musical a abrir telejornais, e vendia 500 mil cópias no final do ano. Soltos depois dos cinco dias presos em Brasília, Marcelo D2 dizia à imprensa que os Planet Hemp iriam seguir na defesa da legalização e de que não iriam alterar letras de músicas. ”A gente não vai amolecer.” 



Em 2000, a banda grava o prometido, e último, álbum de originais, A Invasão do Sagaz Homem Fumaça, antes de um hiato que, em 2010 e 2012, romperia apenas brevemente as carreiras solo de cada um dos membros, para dois concertos de celebração. Os encontros, por mais que fortuitos, e o contexto, talvez perigosamente semelhante em muitos níveis, parecem ter aguçado a vontade de um nova reunião mais duradoura. 2019 entra a murro e a pontapé e os Planet Hemp regressam a Portugal com as suas guitarras barulhentas e a energia adolescente de uma banda já madura que se recusou a “amolecer”. 

“A gente voltou há uns cinco anos mas só voltou mesmo neste último ano!”, conta Marcelo D2 em conversa com Rimas e Batidas, a partir do Rio. “E voltou com a corda toda, lotando salas! Só que a gente resolveu dar uma segurada agora para fazer um disco novo e voltar a fazer tournée com esse disco. Mas está uma loucura!” 

O rapper de 51 anos, que em 2018 lançou o seu 10º álbum de estúdio, não tem dúvidas de que o regresso da banda não é menos uma alegria para ele do que o é para os fãs. O show de Planet Hemp é uma catarse. É incrível, cara! Eu gosto muito de fazer meus shows solo. Amo e me representa pra caramba. Mas não tem nada igual a um palco de Planet Hemp, sabe qual é? A energia? Não tem nada igual.”, confessa. Se o contexto actual pede ou não essa energia, para D2 é, acima de tudo, uma questão de necessidades individuais. “Acho que mais do que necessário para o público uma volta ou um disco do Planet Hemp, é necessário para mim, entendeu? Eu preciso falar o que eu tenho para falar e o Planet Hemp é a válvula de escape para isso. Mais do que para o público é necessário para mim, como artista. Preciso me expressar.” As agendas e as vontades de cada um atrasaram sempre muitas reuniões e, neste caso, não foi diferente. Mas “agora estava todo o mundo com muito vontade, querendo fazer, cheio de ideias!” 

Os recuos sociais e políticos no Brasil e no mundo, desempenham, também, o seu papel quando o negócio continua a ser a luta através da expressão artística. O peso está de volta. Ao palco e aos discos voltam as palavras de ordem. “A gente está vivendo um momento de caos e à beira de um fascismo, sabe? A gente está vendo o que está acontecendo no Chile, quase que na América do Sul inteira. Desde a ditadura militar que a gente vive, talvez, o momento mais repressor. Imagina que, em 2019, as pessoas ainda ficam incomodadas com homossexualidade, a gente ainda tem que lutar pelos direitos dos negros e das mulheres. É inacreditável, cara. Eu achei que neste momento a gente já fosse estar num lugar mais à frente. De evolução como cidadãos, como sociedade.” afirma, confessando que o regresso, embora desejado, traz consigo um sabor agridoce. “Parece que você está naquele jogo em que anda duas casas para trás para depois ir pra frente, sabe? Tomara que seja isso, na verdade.” 



Sobre o novo trabalho, com chegada marcada para 2020, D2 adverte: “é um álbum clássico do Planet Hemp em 2019, cara! Se as pessoas ouvirem os nossos três discos, principalmente na sequência, vão ver que teve uma mudança de som natural. Eu acho que as pessoas vão ficar surpresas pelo que vem por aí, tá ligado? A gente tem um som mais maduro mas ao mesmo tempo super contemporâneo, tem a energia e a porrada que o Planet Hemp sempre teve”. Na produção trabalham novamente com nomes como Nave e voam até aos Estados Unidos para finalizar com Mário Caldato Jr. aquele que será o marco de 25 anos da banda. 

Energia e ímpeto não faltam a Marcelo D2, BNegão e companhia que, a 1 e 9 de Novembro, invadem o Capitólio, em Lisboa, e o Hard Club, no Porto. Deste lado, a sensação de que nunca tanto quanto hoje, é novamente necessária uma vaga de energia e rebeldia adolescentes; por menos “fuck the problems” e mais “fuck the police”. Se os mais novos retiram do trap a catarse e a explosão de que necessitam, qualquer um acima dos 30 sabe bem o bálsamo que é voltar a ouvir o poder das guitarras ou permitir-se a um headbang aceso sem mais nada a declarar. “O Planet Hemp tem essa energia encruada dentro da banda. A gente tem essa energia que envolve a banda e é incrível. Não é só no palco que rola isso, tá ligado? Além do palco rola no estúdio, quando está escrevendo, quando está ouvindo o disco, claro”. Que regressem os samples de rock e o inconformismo barulhento. O hip hop só tem a ganhar com isso. “Adivinha, doutor, quem tá de volta na praça? Planet Hemp! Ex-quadrilha da fumaça!”


Núria Rito Pinto

Núria Rito Pinto

Hip hop, r&b e brasilidades com tanta moderação quanto vontade. Fundou o clube de fãs da “Corda” do Boss AC, já comprou CDs pela capa e preferia comer douradinhos frios todos os dias do que ficar sem Spotify.
Núria Rito Pinto