Marc Ribot no Jazz em Agosto: as cantigas são armas da resistência

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Jazz em Agosto / Petra Cvelbar

Foram quase três dezenas de aviões que passaram por cima das nossas cabeças durante a apresentação de Marc Ribot na jornada de abertura da 36ª edição do Jazz em Agosto, festival promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Um drone constante, movido a carburante altamente poluente que nos recorda, de forma aguda, que as canções que o guitarrista americano traz consigo foram criadas para que pensemos sobre o mundo em que habitamos.

Songs of Resistance, o álbum de 2018 que Ribot trouxe agora a Portugal (para a primeira de três datas de uma “muito curta digressão”, como fez questão de frisar, que o levará ainda à Croácia e a Itália) inclui denúncias e lamentos, despedidas e apelos, fala-nos de racismo sistémico e dos direitos das pessoas, de ecologia e da opressão sobre a diferença. É um singular e urgente sinal de alarme que reclama a nossa atenção e procura mobilizar energias para combater o que se acredita estar errado com um sistema capitalista que coloca aviões no ar e muros em terra. Que pretende separar as pessoas: pela cor de pele, pelo país de origem, pela orientação sexual, pelo escalão económico. Esta música, pelo contrário, existe para unir, para mobilizar.

Em entrevista ao Rimas e Batidas, Marc Ribot fez questão de explicar que as canções não conseguem mudar o mundo, mas talvez forneçam algum ânimo aos que decidem unir-se para que tudo, como sugere o mote deste ano do Jazz em Agosto, não fique na mesma. Mas mesmo nos mais arrebatados momentos do concerto, com mensagens políticas mais assertivas, só um solitário braço se ergueu em protesto na primeira fila… Talvez Ribot tenha mesmo razão… Até as canções de resistência podem limitar-se a ser entretenimento. E talvez por isso mesmo Marc Ribot tenha resistido a incluir no alinhamento o “hit” do seu álbum, a leitura do clássico italiano “Bella Ciao” que em disco mereceu participação de Tom Waits e que uma voz – solitária também, diga-se – reclamou várias vezes a partir da audiência.

O concerto começou com a belíssima “We Are Soldiers in the Army”, a versão free jazz de um velho hino de igreja cantado nas ruas durante o Movimento dos Direitos Civis que tentou derrubar barreiras na América segregada. Um problema com o som da guitarra de Ribot, no entanto, retirou brilho ao que poderia ter sido um portentoso arranque de concerto, obrigando o quinteto a abandonar o palco enquanto o amplificador foi substituído. Mesmo assim, e após regressar ao palco, Marc viu-se ainda obrigado a trocar cabos e, pelo que julgamos ter entendido, a abdicar de parte dos recursos de efeitos que tinha ao seu dispor para conseguir tocar, comprometendo a paleta de “cores” com que certamente teria pensado “pintar” as suas prestações.

O concerto começou por isso mesmo algo comprometido, sentindo-se (por comparação com anteriores apresentações – e o próprio Marc fez questão de dizer que só ali, no Jazz em Agosto, este foi já o seu “terceiro ou quarto concerto”) alguma contenção ou até retracção por parte do músico e do seu ensemble, justificadamente incomodados com o sucedido. No final, os insistentes aplausos do público que se traduziram em três encores acabaram por premiar os músicos, com Ribot a agradecer à audiência, nitidamente sensibilizado por acreditar que talvez as pessoas não se tenham afinal deixado perturbar pelos problemas técnicos.



Ribot, curvado sobre a guitarra, posicionado de lado para o público, à direita do palco de forma a poder assim orientar os músicos, indicando-lhes nomeadamente espaços para solarem, mostrou, uma vez mais, o espantoso mestre que é, desfiando solos e riffs, dedilhando e arranhando a guitarra, expondo dessa forma o seu amplo leque de recursos linguísticos que lhe permitem viajar entre épocas, geografias, culturas e estilos com perfeito à vontade: mais rock num momento, mais blues noutro, folky quando era necessário, capaz de injectar ecos de flamenco só porque sim, latino (ainda que postiço…) pontualmente, universal sempre, do Delta do Mississippi ou do deserto do Mali, das calles de Cuba ou dos clubes mais ousados de Nova Iorque. Ribot é gigante e ontem demonstrou isso uma vez mais, vencendo as condições técnicas adversas com que se viu confrontado graças a um saber fundo que nunca é vistoso ou ostensivo, com cada abordagem, mais lírica aqui ou atonal mais adiante, a servir cada canção. E nunca o seu ego…

E depois, a voz. Ribot, não sem alguma ironia, confessou-nos que só canta em emergências e que a situação actual é de emergência. E por isso mesmo ontem cantou. E declamou. E até rappou. Um bocadinho pelo menos, percorrendo a distância entre Brooklyn e o Bronx com a simples cadência de uma voz que entoou velhas canções e modernas diatribes, como aquela em que repetiu “I refuse, I Resist” e em que exclamou, levando o tal braço solitário a erguer-se na primeira fila, “I don’t accept Donald Trump” depois de ter igualmente exclamado “I don’t accept my shoes, I don’t accept my language, I refuse, I resist…”

Decisivos no desenho dessa vitória foram, claro, os músicos que o acompanharam: Reinaldo de Jesus na percussão, seguro e subtil entre congas, timbales e cowbells, com argumentos de sobra para proporcionar os necessários sublinhados rítmicos às composições; o enorme Ches Smith na bateria, livre num momento, capaz de divergir para terrenos pouco catalogados, e firme no pulso logo a seguir, ancorando passagens mais funky ou até rockadas, mas sempre com pormenores de absoluta delícia técnica que o erguem a um escalão superior; o mesmo se poderá dizer do grande Brad Jones, que num par de solos demonstrou ser um seguríssimo contrabaixista, igualmente capacitado em diferentes técnicas, com ou sem arco, cadenciado ou mais livre no discurso quando o espaço se abria; e, finalmente, Jay Rodriguez, saxofonista seguríssimo no tenor e que pontualmente recorreu ao soprano e à flauta para oferecer diferentes cores aos quadros apresentados, ocupando quase sempre um espaço secundário, o que o obrigou a recorrer a técnicas mais refinadas, usando a sua respiração para também ele colorir o segundo plano, deixando espaço para o líder expor as suas narrativas, tanto com a voz como com os dedos.

O reportório do belíssimo Songs of Resistance ofereceu a parte de leão ao alinhamento e além do já referido “We Are Soldiers in the Army” escutaram-se canções como “The Big Fool”, “John Brown”, “How to Walk in Freedom” ou a poderosa “We’ll Never Turn Back” que Ribot fez questão de dedicar a pessoas amigas “gays e lésbicas, bi e transexuais que lutam actualmente no Brasil”. Emoção, matéria para reflectir e verdadeiros sinais de alarme apontados às consciências colectivas foi, de facto, o que não faltou.

Como o próprio Ribot explicou, esta foi a primeira de três datas e, indica-nos a agenda no seu site oficial, os últimos meses têm sido passados na estrada com John Zorn e Diana Krall (um patinador, afinal de contas, pode jogar hóquei e ainda fazer uma perninha em patinagem artística, certo?…). Percebe-se por isso mesmo que este concerto, encomenda especial do Jazz em Agosto, não esteja tão oleado como seria desejável, e assim se deve entender uma mais visível orientação de Ribot aos músicos, com o ensemble a denotar alguma falta da cola que só a rodagem traz. Nada que tenha, ainda assim, comprometido a elevada qualidade da prestação, que arrancou com um sério percalço técnico, mas que logrou, por total mérito do protagonista principal, ultrapassar esse primeiro embate e fazer-nos esquecer os aviões e a atmosfera pesada, a gentrificação e a falta de calor que Agosto já nos deveria ter oferecido, lembrando-nos a todos, pela força das palavras nas canções, que é mesmo importante que a mudança aconteça.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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