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Fotografia: Vera Marmelo
Publicado a: 21/01/2023

Exploração nefasta.

Mão Morta & Pedro Sousa na Culturgest: rock nervoso com pulso jazz

Fotografia: Vera Marmelo
Publicado a: 21/01/2023

O requinte do Auditório Emílio Rui Vilar, na Culturgest, facilmente levava ao engano daqueles que, não o conhecendo, aí se deslocaram para ver o encontro em palco de Mão Morta e Pedro Sousa, na passada quinta-feira, dia 19 de Janeiro. Mesmo aqueles que já dominavam as discografias quer da banda de mutantes do rock, quer do inventivo saxofonista, precisaram de uma adicional dose de estômago para deixarem que esta música se entranhasse à primeira, directamente e sem passar pela etapa do “estranhar”. Até os que tiveram a curiosidade de escutar Tricot de antemão, já que os temas que figuram no EP lançado pela ESFERA no ano passado soaram com uma maior intensidade naquela sala, colocando ênfase sobre o rock stoner do histórico conjunto de Braga e as deambulações jazz — por vezes cósmicas, por outras industriais — a que Pedro Sousa nos habituou ao longo dos meses em que tivemos o seu Má Estrela como abrigo para os ouvidos — e não foi por acaso que figurou entre os melhores trabalhos nacionais que colhemos ao longo de 2022, tal como também não terá sido por mera coincidência que foi o único músico a receber alguns aplausos quando subiu ao palco.

Diante de uma plateia lotadíssima, em apenas um par de minutos percebemos que tínhamos pela frente uma actuação fibrada, capaz de arranhar ao passar pelos tímpanos e até de nos mandar dois ou três socos na barriga, muito por conta dos poemas escolhidos por Adolfo Luxúria Canibal, icónico frontman dos Mão Morta, para adornar aquela mescla de sons. À nossa frente, uma senhora visivelmente desconfortável contorcia-se no assento graças ao imaginário que lhe era pintado pelo vocalista — “um homem com labaredas à roda da cintura, farto de fazer tricot com as próprias tripas, deixa que o vento lhe seque os olhos” — antes da massa encefálica lhe ter emitido o “BASTA!”, que a levou a caminhar porta fora ainda nem a primeira canção tinha chegado ao fim.

A tempestade provocada pelo choque entre a instrumentação e o processamento de efeitos também não era de fácil digestão para o comum dos mortais e só os mais habituados a certos ruídos interpretavam os glitches em cascata como um verdadeiro festim. Mas nem tudo era experimentação levada ao extremo, havendo momentos de música mais “organizada” e facilmente relacionável com sonoridades que possam ser mais familiares. O nome que nos ocorreu por repetidas vezes foi o dos The Comet Is Coming: o saxofone de Pedro Sousa fez muitas vezes lembrar rasgos semelhantes aos que Shabaka Hutchings usa para se esquivar e sobressair por entre os relâmpagos dos demais colegas, que casam a subtileza de uma técnica típica do jazz com o som de pedra rolante que tanto apreciamos nos grandes recintos de festivais e arenas.

“Vivemos numa época que adora matar as coisas bonitas,” declama Adolfo em “Dias de Abandono”, antes de lembrar que “por comida, até os pássaros brigam.” Pela Culturgest, foram muitos os que não se importaram de abraçar uma linguagem musical mais abrasiva e aventureira, levantando-se quase toda a gente no final para aplaudir a banda de pé. Mas não houve guerras por quaisquer migalhas, antes pelo contrário: ao longo de alguns minutos, puxámos todos uns pelos outros para que o ruído não cessasse e chegasse ao backstage, na tentativa de trazer os músicos de volta para um encore. Depois de uma ameaça que se traduziu numa nova vénia, Mão Morta e Pedro Sousa voltaram a desaparecer do nosso campo de visão, acabando por voltar uma última vez para cima do palco num momento que parece não ter tido qualquer planeamento prévio, já que foi preciso apalavrar a afinação de alguns detalhes antes de se atirarem ao derradeiro tema daquela noite.


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