Luís Fernandes: “A atitude didáctica está enraizada no espírito do Semibreve”

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO] Eduardo Brito

O director artístico do Festival Semibreve, Luís Fernandes, fala com o Rimas e Batidas a horas do arranque da sua sétima edição que levará até à cidade de Braga nomes como Beatriz Ferreyra, Gas, Steve Hauschildt ou Deathprod, numa ambiciosa e exploratória programação pelos campos da mais avançada electrónica. O também músico (membro de peixe:avião, com edições sob o nome Astroboy e um par de colaborações com Joana Gama lançadas no catálogo da Shhpuma) fala-nos da sua visão para o festival dos desafios que impõe e de como acredita que o melhor está ainda para vir.

 


Semibreve: novos circuitos da electrónica em foco em Braga


A momentos do arranque da sétima edição do Semibreve, que balanço fazes das primeiras seis?

Cada edição é sempre uma experiência intensa do ponto de vista físico e emocional. Temos crescido e aprendido imenso ano após ano. Quando começámos, em 2011, seria difícil perspectivar que 6 anos depois estaríamos ainda a fazer o festival. Contudo, a cada edição, conseguimos solidificar uma posição e reforçar uma identidade forte que nos torna um festival de características únicas no país. Esperamos continuar a estar à altura e fazer muitos mais.

Este festival tem um perfil singular no panorama de festivais nacionais. Sentes o peso dessa singularidade ou pelo contrário vês o Semibreve como parte de um conjunto mais amplo de ofertas culturais na mesma área?

Sentimos que ocupamos um espaço muito particular, sem dúvida. Talvez por isso também sintamos bastante responsabilidade e expectativa na preparação de cada nova edição. Mas, na verdade, é também isso que nos faz gostar tanto de idealizar, ano após ano, o Semibreve.

Diria, contudo, que existem também em Portugal, em domínios mais ou menos distantes do nosso, outros excelentes exemplos de festivais arrojados, com elevada qualidade e com uma oferta única, como, por exemplo, os Jardins Efémeros, o Out.Fest, Amplifest, Madeiradig ou o Milhões de Festa.

O Semibreve tem programado muitas mulheres no seu cartaz e numa era em que tanto se discute o equilíbrio de géneros nos cartazes dos festivais, sobretudo na área electrónica, impõe-se questionar se isso tem acontecido de forma natural ou se se pode ler alguma militância ou intervenção nessa atitude de programação?

De uma forma perfeitamente natural, embora tenhamos cuidado em ter cartazes equilibrados do ponto de vista do género. Não acreditamos que o talento seja dependente do género!

Como é que vês esta edição de 2017? A diversidade e o espírito mais exploratório e desafiante da electrónica contemporânea continuam a funcionar como bússolas para a elaboração do cartaz, certo?

Totalmente. Costumamos dizer que fazemos o festival para tomar as decisões menos expectáveis. O nosso objectivo é apresentar artistas que se coloquem em causa e que nos coloquem em causa, sendo relevantes na sua proposta artística. Não queremos deixar ninguém indiferente. Acreditamos piamente que essa é uma das principais forças do Semibreve. Nesse sentido, apresentamos uma mistura de artistas consagrados e por consagrar, que apesar de poderem estar incluídos numa categoria chamada música electrónica, são bastante diversos no conteúdo. Tentamos que essa diversidade seja condensada de uma forma coesa e fluída, tendo em consideração bastante variáveis, como por exemplo os espaços físicos nos quais o festival decorre.

Laurie Spiegel e Beatriz Ferreyra são dois nomes históricos da electrónica pioneira. Nesse lado mais vintage da electrónica presente no cartaz pode entender-se também uma atitude didáctica perante o vosso público?

Sim, essa intenção e homenagem esteve na base da nossa motivação. Mas também o timing e o sentido de oportunidade. A Laurie tinha uma peça nova a estrear no moogfest, em formato de instalação audiovisual, e não quisemos perder a hipótese de a mostrar em Portugal. A Beatriz, que actua muito raramente, foi outra feliz oportunidade. Vai ser um momento para recordar. Mas a atitude didáctica está enraizada no espírito do Semibreve. Somos um festival que forma públicos.

 



Quais foram os vossos maiores desafios em termos de produção para a edição deste ano?

Os maiores desafios são sempre as produções audiovisuais, por vezes muito complexas e que nos tiram bastantes noites de sono. Felizmente contamos com as excelentes equipas técnicas do Theatro Circo e gnration para nos ajudarem a ultrapassar as dificuldades.

Já começaram a pensar na edição de 2018? Podem levantar só um bocadinho do véu?

Claro que sim, mas queremos que seja surpresa! Vai ser a melhor de sempre, como sempre dizemos!

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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