Semibreve: novos circuitos da electrónica em foco em Braga

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] AlbertoNovelli (Kyoka) / Carsten Aniksdal (Deathprod)

O festival bracarense Semibreve arranca esta sexta-feira para a sua sétima edição com a plena certeza de ser já uma “marca” sólida no panorama cultural não apenas da sua cidade, mas do país. Este ano o Semibreve oferece uma “resposta” vigorosa à sua própria história programando espectáculos de Gas, Visible Cloaks, Beatriz Ferreyra, Steve Hauschildt, Deathprod, Rabih Beaini, Lawrence English ou, entre outros, dos portugueses Sabre e conseguindo dessa forma equilibrar história e futuro, diferentes visões do complexo panorama da electrónica e o arrojo que se lhe reconhece desde a primeira hora.

Em 2016 o Semibreve programou concertos de Kara-Lis Coverdale, Kaitlyn Aurelia Smith, Laurel Halo ou Nidia, mantendo aí um cuidado óbvio de representar os talentos femininos que são cada vez mais incontornáveis num campo que sempre foi receptivo à participação das mulheres (a história da electrónica não se poderia fazer sem o contributo de gente como Bebe Barron, Ruth White, Laurie Spiegel, Suzanne Ciani, Delia Derbyshire, Daphne Oram, Pauline Oliveros ou Clara Rockmore, para citar apenas alguns nomes). A tendência mantém-se obviamente em 2017 com Karen Gwyer, Kyoka e a histórica Beatriz Ferreyra a assegurarem uma justa diversidade num cartaz que ousa sempre buscar as mais desafiantes propostas da electrónica contemporânea. Haverá ainda uma instalação a cargo de Laurie Spiegel – outra venerável veterana do universo da electrónica, autora do clássico The Expanding Universe – que inclui uma nova composição para uma peça de vídeo Maya Deren, Prelude to Generating a Dream Palette, a partir de texto do dramaturgo e radialista Peter Schmideg.

 


https://www.youtube.com/watch?v=M2j3G3bOluY


[1º Dia // 27 de Outubro]

21:30    –    Visible Cloaks    –    Theatro Circo · Sala Principal

22:50    –    GAS    –    Theatro Circo · Sala Principal

23:59    –    Beatriz Ferreyra    –    Theatro Circo · Pequeno Auditório *

00:45    –    Kyoka    –    gnration *

02:00    –    Karen Gwyer    –    gnration *

 


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O primeiro dia da edição 2017 do Semibreve navegará entre as diferentes águas do ambientalismo de recorte “quarto mundista”, pelas densas e negras florestas da electrónica mais inclassificável, pelas memórias da musica concreta e electro-acústica do Groupe de Recherches Musicales e pelas diferentes avenidas em que as máquinas nos ensinam a dançar.

O destaque vai, muito naturalmente, para a monolítica presença do projecto Gas de Wolfgang Voigt no cartaz, mas essa actuação no nobre espaço do Theatro Circo merecerá destaque à parte aqui mesmo no Rimas e Batidas. Importa saber que o homem que partiu do techno para a construção de uma pessoalíssima e algo wagneriana visão da electrónica editou Narkopopp em Abril último, um extraordinário trabalho de que ainda não nos refizemos.

O dia arrancará com os Visible Cloaks que propõem uma digital actualização das derivas exóticas da electrónica dos anos 80 que Jon Hassell tão bem classificou como “4th world possible musics”. Estas músicas possíveis graças à imaginação têm inspirado o duo de Spencer Doran e Ryan Carlile, de Portland, no Oregon (EUA), a criar musica altamente evocativa que encontra nas imagens criadas por Brenna Murphy o seu perfeito complemento visual. A “remontagem” a que o título do seu recente lançamento na extraordinária RVNG Intl. se refere – Reassemblage é já o segundo trabalho da dupla (terceiro, se contarmos com uma cassete lançada em 2015 na Hare Akedod) – será exibida perante os nossos olhos e ouvidos num concerto que não se deve perder, ainda por cima tendo a belíssima moldura do Theatro Circo por cenário.

Também no Theatro Circo, mas no Pequeno Auditório, apresentar-se-à a veterana Beatriz Ferreyra, alvo de uma oportuna antologia de trabalhos na série Recollection GRM, conjunto de lançamentos da grande Editions Mego de Peter Rehberg dedicadas ao catálogo da importantíssima INA-GRM, a instituição francesa estabelecida por Pierre Schaeffer que foi decisiva na história da evolução da música concreta e electroacústica. GRM Works, lançada em 2015, repôs no presente algumas das mais importantes peças desta compositora argentina que apesar de ter trabalho nos estúdios do GRM entre 1963 e 1970 tinha a sua obra parcamente documentada. Em Braga manipulará um sistema de difusão de oito canais. Imperdível, certamente.

O primeiro dia completar-se-à com as mais tardias apresentações de Kyoka e Karen Gwyer no espaço do gnration. Kyoka alinha-se entre Berlim e Tóquio, o que pode servir também como um metafórico mapa para a sua música que harmoniza algum peso techno com alguma transparência pop. SH lançado o ano passado na Raster-Noton é glitch e experimental, exótico e futurista, sombrio e luminoso ao mesmo tempo. Finalmente haverá também Karen Gwyer, autora do vigoroso ópus techno Rembo, lançado no passado mês de Junho na mesma Don’t Be Afraid em que já editou gente como o português Photonz ou Achim Maerz.

 



[2º Dia // 28 de Outubro]

10:00    –    The Radical Listener Workshop por Lawrence English   –   Mosteiro de Tibães

15:00    –    Conversa com Beatriz Ferreyra: Perspectivas sobre uma carreira na música electrónica    –    Casa Rolão**

17:30    –    Steve Hauschildt    –    Capela Imaculada do Seminário Menor **

21:30    –    Fis    –    Theatro Circo · Sala Principal

22:50    –    Deathprod    –    Theatro Circo · Sala Principal

23:59    –    Blessed Initiative    –    Theatro Circo · Pequeno Auditório *

00:45    –    Rabih Beaini    –    gnration *

02:00    –    Sabre    –    gnration *

 


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O segundo dia do Semibreve será também o mais recheado em termos de programação, com a música a encontrar-se com a cidade histórica pela inclusão de eventos em espaços como o Mosteiro de Tibães (Lawrence English), Casa Rolão (Beatriz Ferreyra) ou Capela Imaculada do Seminário Menor (Steve Hauschildt). Com um cartaz mais dilatado, neste dia as coordenadas exploradas serão também mais amplas, com lugar para derivas ambientais, experimentalismos obtusos e exotismos digitais e analógicos em igual medida.

Depois de uma oficina conduzida por Lawrence English dedicada ao “ouvinte radical” e de uma prometedora conversa com Beatriz Ferreyra que certamente passará por uma explicação na primeira pessoa do papel da mulher num mundo tão dominado por homens como era o de uma certa academia electrónica na década de 60, a programação de concertos começará com o que será uma solene ocasião para ouvir as oníricas propostas do ex-Emeralds Steve Hauschildt na Capela Imaculada do Seminário Menor. Com quatro álbuns de originais lançados na Kranky e uma antologia curada pela Editions Mego, argumentos para o nosso maravilhamento será algo que não faltará ao concerto de Steve Hauschildt.

A partir das 21:30, o Theatro Circo ficará entregue a Fis, Deathprod e Blessed Iniative, três artistas muito diferentes, com origens igualmente diversificadas (Nova Zelândia, Noruega e Alemanha, respectivamente) e visões personalizadas do lado mais inquieto e experimental da electrónica digital contemporânea. Fis irá expor material do seu mais recente trabalho, From Patterns to Details, abstracto conjunto de peças que, fazendo jus ao título, exploram o caminho que se estende entre a repetição de padrões – rítmicos ou texturais – e a observação próxima dos diferentes elementos de que se compõe a sua música, como se os submetesse ao olhar de um microscópio aural. Já Deathprod, projecto de Helge Sten, membro dessa venerável instituição que responde ao nome Supersilent, investirá pelos caminhos do que o programa oficial descreve de forma feliz como um “minimalismo granular profundamente atmosférico” patente por exemplo nas peças com que contribuiu para Stator, um split release feito com o também norueguês Biosphere, projecto histórico de Geir Jenssen. Blessed Iniative fechará depois o dia do Theatro Circo com uma apresentação no Pequeno Auditório que se fará de propostas glitch como as que expôs no homónimo álbum que lançou o ano passado na Subtext.

O programa de sábado será concluído com a dupla apresentação do libanês Rabih Beaini e dos portugueses Sabre no gnration. O primeiro – homem do leme da respeitadíssima Morphine Records, editora que nasceu em Itália mas que é actualmente operada a partir de Berlim, com um catálogo que inclui obras de Hieroglyphic Being, Charles Cohen, Pauline Oliveros ou de Morphosis, alter-ego do próprio Beaini – deverá explorar um mundo de possibilidades infinitas abertas pela tradição techno. Os últimos, aventura de Bruno Silva e Carlos Nascimento, não deixarão de pegar na deixa para nos mostrarem a sua singular visão cósmica de uma música pensada para dançar (ou dançada para pensar) e que parte dos legados house e techno para procurar paisagens mais expansivas que podem tocar no lado mais espiritual do jazz ou da kosmische alemã dos anos 70. Tudo é possível. E isso é a melhor das ideias.

 


[3º Dia // 29 de Outubro]

15:00    –    Conversa com Fis e Rabih Beaini: Performance na música electrónica    –    Casa Rolão**

17:30    –    Lawrence English    –    Theatro Circo · Sala Principal

18:40    –    Valgeir Sigurdsson    –    Theatro Circo · Sala Principal

 


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A derradeira jornada do Semibreve 2017 começará com uma conversa com Fis e Rabih Beaini em torno da fracturante questão da performance na música electrónica, em que uma divisão entre os planos “cerebral” e “físico” parece ecoar uma tantas vezes sublinhada dificuldade que esta música parece ter de se separar das ferramentas com que é feita e cujos interfaces não são sempre os mais favoráveis ao encaixe nas tradicionais noções de performance. Será na Casa Rolão.

As duas últimas apresentações decorrerão depois na Sala Principal do vetusto Theatro Circo. Lawrence English, homem do leme da importante casa editorial australiana Room40, em que o português Rafael Toral acaba de lançar o álbum Moon Field, trará a sua electrónica inquisitiva que procura investigar as relações existentes entre as noções de som, harmonia ou estrutura, nunca abdicando de uma abordagem que pode ser abrasiva, para forçar a ida até aos limites. “Os seus álbuns mais recentes”, refere o programa, “Cruel Optimism e Wilderness Of Mirrors são um festim de “densidades e extrema dinâmica” e desenvolvem-se numa “estética de substituição da distorção harmónica””. Acreditamos que sim.

Já o islandês Valgeir Sigurdsson, co-fundador da Bedroom Community, etiqueta por onde têm lançado nomes como Nick Muhly ou Ben Frost, seus parceiros nessa aventura editorial, trará ao palco a sua ideia de Dissonance, para citar o título do seu mais recente álbum, lançado já este ano no seu próprio selo: trata-se de um denso e misterioso trabalho de moderna erudição que, como se refere no programa, revela de Sigurdsson tanto de músico e compositor como de pintor e escultor. O seu currículo rico que inclui colaborações com gente tão diversa como Björk, Bonnie ‘Prince’ Billy, Feist, Damon Albarn, CocoRosie, Sigur Rós, Jóhann Jóhannsson, Brian Eno, Tim Hecker, Anohni, Oneohtrix Point Never e Alarm Will Sound deverá funcionar como argumento extra para se marcar presença na sua performance.

Além dos concertos, convém não esquecer que o Semibreve oferece ainda um programa generoso de instalações que pode ser consultado aqui (http://www.festivalsemibreve.com/pt-pt/instalacoes).

 



* acesso limitado a portadores do bilhete geral ou bilhete geral diário e à capacidade da sala

**acesso gratuito, limitado à capacidade da sala

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu