Lógos é o novo trabalho de niLL

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTO] Mendesl

A expectativa era alta para a chegada de Lógos, o quarto trabalho do brasileiro niLL, desde que Regina (2017) — até hoje a magnum opus do jovem Davi Rezaque — o catapultou para o pódio do rap alternativo que nos chega de São Paulo. O burburinho contaminava os grupos mais underground, não fosse ele um dos “filhos da Internet”, responsável por nos fazer cantar as relações tóxicas (e inevitáveis) do jovens de 2019 com os seus ecrãs e sinais de Wi-Fi. De 2016 até hoje, niLL tem sido pioneiro a trabalhar o campo do retro electro, que revisita a pop dos 80s e 90s, e a fundi-lo com o rap, muitas vezes em batidas trap, no seu flow irregular bastante característico. 

É no synthwave, e nos géneros que roçam as suas fronteiras, que o rapper se sente confortável e as 12 faixas de Lógos voltam a denunciá-lo. As produções, principal aspecto em que, numa primeira escuta, o álbum se engrandece, evoluem a partir do caminho que já vinha a ser traçado desde a mixtape GoodSmell, e ficam a cargo não só do próprio rapper (aka O Adotado) como dos brasileiros CrimeNow, YungBuda, Tan Beats e Nave. Nas participações, o fundador da SoundFoodGang volta a trabalhar com Callíster e Mano Will e estende os convites a BK’ e Melk, para duas parcerias inéditas.

A ideia do regresso à infância volta a ganhar vida na capa e contra-capa do trabalho, onde se vê um niLL-figura de acção romper a sua caixa na prateleira (padronizada) de loja de brinquedos. A assinatura é de Wagner Loud, o ilustrador que, no último ano, ganhou visibilidade ao transformar vários ícones do rap brasileiro em heróis de banda desenhada


Núria Rito Pinto

Núria Rito Pinto

Hip hop, r&b e brasilidades com tanta moderação quanto vontade. Fundou o clube de fãs da “Corda” do Boss AC, já comprou CDs pela capa e preferia comer douradinhos frios todos os dias do que ficar sem Spotify.
Núria Rito Pinto