A lista do ano de dB

[FOTO] Sebastião Santana

Em 2017, David Besteiro, artista mais conhecido como dB, manteve uma agenda ocupada com o Conjunto Corona – actuou em Vodafone Paredes de Coura, Lisboa Dance Festival ou Vodafone Mexefest, por exemplo – e, no caminho, ainda teve tempo para criar um novo pseudónimo: David Bruno, um poeta amargurado que encontra a sua sonoridade entre Madlib e Toy.

Assumindo que o “tempo disponível para exploração e descoberta do que bom se tem feito pelo mundo da música não foi tanto como gostaria”, o mais famoso arqueólogo musical de Vila Nova Gaia deixou-nos a sua “colheita” de 2017.

 


[MELHOR ARTISTA NACIONAL] Ângela Polícia

Soulman/rockstar nos Bed Legs, cantor romântico-gótico no projecto Amante Negro, drill rapper e outras variações que tais no seu Pruridades, Ângela Polícia (ou Fernando Fernandes) é um camaleão artístico e não me surpreenderia se em 2018 lançasse, por exemplo, um álbum de canto gregoriano: tenho a certeza que o iria fazer na perfeição e juntar meia dúzia de arcebispos ao seu crescente clube de admiradores.

 


[MELHOR ARTISTA INTERNACIONAL] King Gizzard & the Lizard Wizard

Cinco álbuns num ano. Do rock psicadélico de partir cavaco de Flying Microtonal Banana ao jazz psicadélico para relaxar na margem do ribeiro de Sketches of Brunswick East (em colaboração com  Mild High Club), não me recordo na história recente da humanidade de uma banda que lançasse cinco álbuns num ano. E logo cinco álbuns com tanta qualidade e tanta diversidade. Esta é uma das minhas bandas favoritas de sempre e vê-los ao vivo é sempre algo que me causa borboletas no estômago: sinto que estou a receber a visita de criaturas de outra galáxia (nunca me esquecerei da imagem de Stu Mackenzie a engolir o microfone em Paredes de Coura). Talento, talento, talento, espontaneidade, força e energia em estado selvagem: o Mustang indomável do mundo da música.

 


https://www.youtube.com/watch?v=Ortksg6RCzs&feature=youtu.be

[MELHOR PRODUTOR NACIONAL] Lyfe

Um empreiteiro das andanças do lo-fi português cuja evolução tem vindo gradualmente a despertar a minha curiosidade. Coerente, simples, muito fácil de absorver por qualquer ouvido amante de música, este produtor natural de Lamego faz parte da estripe de beatmakers DIY que não se fica pela criação de pérolas para os ouvidos: a imagem, os vídeos e a identidade visual do seu projecto são também da sua autoria e distinguem-no de outros nomes do mercado, acrescentado ao seu maravilhoso trabalho musical uma segunda de mão tão coerente que dá vontade de entrar, contemplar um bom pedaço e sair disparado do andar modelo para dar o sinal de entrada, pois tudo o que este jovem nos faz chegar são criações “preço chave na mão”: pegar ou largar.

 


[MELHOR PRODUTOR INTERNACIONAL] Oddisee

Instrumentais de 60 a 160 BPMs, compassos de 3/4 a 5/4, arranjos maravilhosos, sequenciamentos inesperados, dinâmica, coerência, riqueza no leque de instrumentos utilizados. Qualquer amante de música, seja ela tocada, produzida digitalmente ou samplada não pode ficar indiferente às qualidades de Oddisee enquanto compositor nem ao característico je ne sais quois sentimental que coloca em todas as suas criações instrumentais.

 


[MELHOR FAIXA NACIONAL] Quarto pt. 1″ de Ângela Polícia feat. Moca

Gosto de ouvir música no quarto ou no sofá da sala, de meia & chinelo ou pantufinhas de pele de cordeiro quando o frio aperta. Esta faixa foi feita para isso, por isso pontuou máximo nos meus parâmetros e peço-vos que me imaginem de fato de treino com uma placa “10” numa mão e um iogurte líquido na outra, aterrando em Gaia depois da viagem em que embarquei quando carreguei no play desta obra-prima.

 


[MELHOR FAIXA INTERNACIONAL] “Made In China” de Higher Brothers x Famous Dex (Prod. Richie Souf)

Tenho que começar por alguma honestidade: não sou o maior fã do mundo de trap. No entanto, há uns meses quando o meu colega Edgar me mostrou este vídeo, de imediato atirei a toalha branca para o ringue. Um grupo de adolescentes chineses a fazer trap em chinês? À partida, não promete. Até carregarem no play. Até verem este vídeo, e especialmente até deixarem o vídeo rolar até ao minuto 1.27 e verem aquele gordinho de leggins e cabelo à tigela a detonar o edifício: nem o Denzel Curry evitou deixá-los cair ao chão quando confrontado com estes campeões (comprovem o vídeo do react aqui).

A melhor prova de que os que adaptam culturas ao sítio onde vivem vencerão sempre os que adaptam o sítio onde vivem a outras culturas, seja em Pequim ou em Arco de Baúlhe.

 


[MELHOR DISCO NACIONAL] Império Auto-Mano por PZ

Um pouco suspeito da minha parte, mas realmente este é o meu disco favorito de sempre do artista Paulo Zé. “Dou-te com um taser / no blazer”, “Atiro-te pizza / para a camisa”, “Tenho fome de lulas”, “Conheci uma gaja num bosque / que já tinha visto num quiosque”, “Estás descontraído / a ver Júlio Isidro / na RTP memória / mas queres ainda mais” e citações afins, o próprio título Império Auto-Mano: é mais do que música, é um modo de vida. PZ é o Larry David da música portuguesa, não há ninguém com mais capacidade do que ele para a nobre arte de dizer palavras e este álbum acompanha a genialidade do seu pensamento com alguns dos instrumentais (e vídeos) mais maravilhosos por ele criados.

 


 [MELHOR DISCO INTERNACIONAL] Steve Lacy’s Demo por Steve Lacy

Reza a lenda que este álbum (ou EP, chamem-lhe o que quiserem), foi praticamente feito num iPhone. Verdade ou não, este trabalho de um jovem de 18 anos conhecido por ter produzido a faixa “Pride” no álbum DAMN. de Kendrick Lamar é simplesmente maravilhoso. Uma espécie de Mac DeMarco negro que me provocou um dejá-vu dos tempos em que ouvia Salad Days em loop, desta vez aditivado com elementos funk com sabor a Califórnia e sobretudo com a identidade de um artista que apesar de ser tão jovem parece já ter encontrado o seu próprio estilo e espaço. A sua música muitas vezes lembra-me dos tempos de Anderson Paak como Breezy Lovejoy. Pelo sim, pelo não, já coloquei o nome no meu radar.

 


[MELHOR VÍDEO NACIONAL] “BruceGrove” de Keso

Mais que um amigo, o Keso é um dos artistas da minha cidade que mais admiro, alguém que considero realmente um artista com o seu je ne sais quois característico: algo intrinsecamente seu que conseguimos facilmente detectar em tudo o que faz. Ao final de anos (quiçá décadas) lançou o seu primeiro vídeo (ele que até é da área do cinema) e adivinhem: lá está o seu toque pessoal bem vincado. O vídeo de “Bruce Grove” é intenso, chegando até às vezes a ser um pouco perturbador, sem precisar para isso que recorrer a imagens fortes: não é o que está lá, é o que nos leva a pensar. Tudo isto sem perder o tal toque característico do nosso Original Marginal.

 


[MELHOR VÍDEO INTERNACIONAL] “The Mister Mellow Show” de Washed Out

Como apologista do álbum de música como um todo e de full videos a cimentarem o seu conceito, fiquei maravilhado com este “álbum visual” de Washed Out lançado em Agosto pela conceituada Stones Throw. O tema deste trabalho é a tendência para as novas gerações serem infelizes apesar de todas a condições que o mundo de hoje nos proporciona para que precisamente o contrário aconteça. A música é uma maravilhosa miscelânea dos mais variados estilos e a estética deste vídeo de aproximadamente 30 minutos é baseada em fotos e vídeos familiares de Mister Mellow misturados tudo que possa imaginar e ainda mais alguma coisa: uma verdadeira explosão de detalhes que me fez ficar muito tempo colado no ecrã do PC.

ReB Team

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