Lhast & Charlie Beats: “Isto ainda vai crescer mais, estamos só a começar”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Manuel Abelho

Lhast e Charlie Beats são dois nomes incontornáveis da nossa música presente. Ligados a um universo que se estende de Richie Campbell e demais nomes da Bridgetown ao campo dos Wet Bed Gang, de ProfJam a Regula, de Diogo Piçarra a Capicua, os dois produtores oferecem algumas das mais notórias possibilidades para se medir o pulso da actual cena portuguesa. Entre Los Angeles e o coração de Lisboa, entre o hip hop e a pop de recorte assumidamente urbano, ambos têm sabido projectar o seu trabalho no futuro.

Agora, a dupla encontrou-se finalmente em “Saturno”, nova “vibe” de Lhast que beneficiou do toque de Midas de Charlie Beats na produção, um criativo que também não descura o lado técnico — diz-se apaixonado pela forma como o reverb é usado nos discos de Travis Scott. Esse foi o pretexto para uma conversa em estúdio em que cada um teve oportunidade para dizer o que pensa do outro e do momento actual da cena que se faz de rimas e de batidas e que tem o carimbo Made In Portugal bem visível.



Comecemos, antes de mais nada, pelo “Saturno”. Como é que vocês foram dar essa viagem ao espaço?  

[Lhast] Eu mandei-te uma ideia, tu fizeste um beat e liguei-te logo… 

[Charlie Beats] Tu tinhas pedido para fazer uma cena numa vibe e eu fui para outra. Houve uma falha de comunicação entre nós. Eu mostrei e ele disse: “bem, isso não era aquilo que estava eu estava a pensar, mas espera que eu vou para aí já porque isso está muito bom”.   

[Lhast] Cheguei cá, fizemos uma vibe – foi a melodia e algumas palavras, já tinha um bocado do refrão — e ficou. Depois disso ainda houve várias sessões.   

[Charlie Beats] Há sempre várias versões, nós temos uma tela em branco e nada se decide até ir para o YouTube e para o Spotify. E acho que isso é muito bom porque enriquece sempre a música. Não definir logo e não ficarmos presos logo às primeiras coisas faz com que a gente experimente — e não quer dizer que não voltemos atrás nas versões, mas é sempre uma tela em branco que se vai compondo e só acaba quando sai, mesmo.  

Quando é que vocês sabem, enquanto artistas, que algo em que estão a trabalhar já não precisa de mais nenhuma pincelada?  

[Lhast] Acho que houve dois processos: o primeiro foi quando fiz a vibe e a gente ficou logo, “ok, há aqui um chavão que dá para aprofundar e está a soar fixe”. A partir daí é um bocado irmos vendo até onde é que vai. Por exemplo, eu faço várias vibes e há vibes que eu depois já não pego mais porque não consegui desenvolver a partir daí. Neste caso saiu isso e depois foi até estarmos satisfeitos. É até dar aquela satisfação de estares a ouvir e não estares [a pensar], “aí, tenho que mudar isto, tenho que mudar aquilo…” 

[Charlie Beats] É intuição. A primeira fase tem que ser — e eu aprendi um bocado isto com ele também — não pensar muito e fazer o que vem à cabeça. No beat também, mas mais na parte vocal. E depois há uma parte de limar e de aprofundar que vem muito daquilo que o Rafa está a dizer. Estou a ouvir nos fones e se a minha intuição diz, “epá, não, não consigo, isto tem que entrar no tempo antes ou este reverb tem que ser mais forte…

[Lhast] Acho que depois foi um trabalho tanto de estruturar toda a viagem, e também do que é que era o conceito porque eu tinha umas palavras e depois é que comecei a desenvolver mais esse conceito e a perceber onde é que ia cair o verso, até tivemos uma altura em que o refrão entrava mais cedo.

[Charlie Beats] E também é muito importante deixar [a música] descansar um bocadinho, uns dias

A marinar...

[Lhast] Sim, isto era um tema que nós estávamos a fazer enquanto estávamos a trabalhar noutras coisas. Não foi o primeiro tema que nós tentámos fazer juntos. Temos outros projectos e foi uma coisa de, “olha, hoje bora tocar um bocado neste e depois passamos para outro”.  

Isso era o que eu ia perguntar: isto é o primeiro de muitos? Estão a prever mais encontros em que se cruzem os dois? 

[Lhast] Sim, claramente. Não só em coisas para mim, mas para outras pessoas…   

[Charlie Beats] Até começámos por aí, ? 

[Lhast] Sim. Nós conhecemo-nos um bocado por trocas de ideias sobre produção e depois surgiram essas coisas. Mas acho que vamos fazer muito.  

Então digam-me: o que é que cada um pensava do outro antes de se terem conhecido? 

[Charlie Beats] Ah, isso é fácil. Claramente que o Rafa é uma influência directa para mim, aliás, eu já tenho dito isto à malta. Quando o “Do You No Wrong” saiu — antes não acompanhava assim tanto o trabalho dele –, pensei “man, o que é isto? O que é que se passa aqui, meu deus?” E ajudou-me na minha carreira pessoal enquanto [inspiração] técnica e estética também. Lembro-me de ouvir as sonoridades e os timbres e dizer, “não, isto é um game para cima”. Acho que existe um antes e depois do “Do You No Wrong”. Para mim, é fácil. Já queria trabalhar com o Rafa há bué, mas estava à espera do momento certo.   

[Lhast] Eu estava a par, a gente ia falando até. Já trocamos ideias há algum tempo. Eu sempre acompanhei o trabalho do Charlie, mas saltou-me à vista na “Aleluia“. Acho que foi aí que começámos a trocar mais ideias.  

Vocês têm consciência que ocupam um lugar de destaque numa eventual primeira divisão? Têm esse peso de responsabilidade? Sentem-se parte de algum tipo de elite?  

[Charlie Beats] É assim, nós trabalhamos todos os dias por amor à música. Eu faço isto desde que tenho 10 anos. Sei lá, eu ontem deitei-me às três da manhã a trabalhar em coisas de misturas que nem são para mim, mas dá-me um prazer enorme estar constantemente a lapidar diamantes e a aprender com os mais novos e com os mais velhos. E as coisas têm corrido bem, a mim e ao Rafa, mas não sei se tenho uma responsabilidade ou que sinta que faça parte de uma elite. Sei que estou a passar um bom momento, mas também sei que eventualmente pode acabar, o que não vai acabar mesmo é o meu amor à música. Vou continuar sempre a trabalhar, mesmo que depois deixe de ter este sucesso. Faço isto porque preciso.   

Eu quando falo de elite nem sequer estou a falar de views ou streams mas de uma qualidade consistente de trabalho que acho que ambos têm sabido apresentar, não é?   

[Charlie Beats] Eu acho que se um cozinheiro cozinhar todos os dias desde sempre vai sempre aprofundar muito os seus pratos, e é um bocado o que a gente faz. Nós estamos aqui todos os dias, temos que ir ao computador fazer qualquer coisa de música, ou há dias, poucos, que não, mas é sempre muito isso que nos faz existir enquanto seres humanos. Eu, pelo menos, defino-me bué pela música.   

[Lhast] Eu não acho que haja uma responsabilidade. Tu queres sempre continuar a melhorar. Quando te metem numa posição em que assumem que fazes sempre coisas com qualidade, tu próprio também tentas chegar aí. Quando começas a pensar nisso já estás a acreditar demasiado no hype. Tens que continuar com a mesma fome que tinhas quando querias que as pessoas notassem no teu trabalho e viessem falar contigo. Todos fizemos isso. Queríamos trabalhar com os artistas que gostamos. Pelo menos eu comecei assim, fazia beats e pensava, “quem me dera fazer um beat para este”. E, felizmente, hoje em dia, podemos fazer o beat para essas pessoas.

Olhem, vocês são dois bons exemplos de uma nova raça de produtores, se calhar mais próxima do sentido clássico do produtor, alguém que já há muito ultrapassou a mera classificação do beatmaker. Têm outras valências que vão muito para lá disso. Não centrando naquilo que vocês fazem, nós hoje já temos uma nova, digamos assim, classe de produtores que já têm essas valências mais amplas. Acham que em termos de rappers também já estamos aí? Vocês vêem uma nova classe de rappers a emergir que já tem outro tipo de valências além da capacidade de escrever uma rima no papel e entregá-la com um determinado flow?  

[Lhast] Sem dúvida. Acho que há rappers que já são produtores também. Acho que há rappers que muitas vezes nos conduzem para chegar ao que eles querem.  

[Charlie Beats] Sem mexer nas ferramentas são produtores.  

[Lhast] Não só rappers como artistas pop ou o que for que já sabem onde vão. Já se vê mais isso.   

[Charlie Beats] Claramente nós também somos filhos de um legado que tem sido deixado, e obviamente que o jedi apprentice deve ultrapassar o master e nós também vamos ser ultrapassados (e queremos ser ultrapassados). Vão estar sentados nos [nossos] ombros, como nós também estivemos nos ombros de um Sam The Kid, por exemplo. Há uma nova abertura, acho que as pessoas estão a abrir mais os horizontes e já não se estão a fechar tanto em gavetas, e isso também permite que os MCs e que os artistas no geral dêem outros frutos e tenham mais versatilidade, como o Rafa está a dizer.  

[Lhast] É isso. Eu acho que tu podes ser um produtor sem sequer mexer no programa. Se chegares e juntares tudo, isso é um skill que eu considero bastante bom, nem toda a gente tem que ter, tens pessoas que são muito bons beatmakers. É como trabalhar com músicos: se for aprender a tocar aquilo tudo, eu não vou ser tão bom como um gajo que toca aquilo. Acho que também é bom haver gajos que são muito bons a fazer beatmaking, mas também é necessário gajos que conseguem ligar as peças todas.   

[Charlie Beats] A cena é que quanto mais eu sei de técnica, mais sei que a técnica é um fim em si mesmo. A técnica é o que vale, é o que é, é importante, mas a técnica é uma ferramenta. O importante não é propriamente o cameraman estar a filmar o filme, é mais a ideia, o argumento e a mensagem que se quer passar, o legado que se quer deixar e isso vale muito. Quanto mais eu percebo isso, menos dou valor se cantas muita bem ou se tocas muita bem, interessa-me saber é a energia que me passas, a bigger picture.  

[Lhast] É a discussão entre o feeling e a técnica. Nós falamos bué disso em misturas. Pá, podemos ir meter a mistura melhor, mas perdemos a essência da música. Às vezes há ruídos que são erros, mas bons erros.  

[Charlie Beats] Orgânico. Não existem linhas rectas na natureza.   

[Lhast] Podes evoluir muito tecnicamente mas acho que música vai sempre passar pelo sentimento que tem.

Há um grande produtor, o Brian Eno, que costumava dizer uma frase que acaba por ir um bocadinho ao encontro ao que vocês estão a dizer. “The problem with computers is that there is not enough Africa in them“.

[Charlie Beats] Completamente. Não conhecia a frase e revejo-me completamente. É o swing, a falha, o balanço. Eu também venho de uma cena de reggae, onde tens que estar, se for preciso, cinco minutos a fazer o mesmo beat, mas com um balanço incrível que tu entras num mantra — e isso aí é emoção.  

O que é que vocês enquanto observadores sentem, e até porque têm contactado com muitos artistas diferentes cá, que ainda falta a esta cultura? Se é que falta alguma coisa…  

[Lhast] No meu caso acho que é ainda mais colaboração entre os artistas.  

Porque até agora isto era uma actividade muito solitária e começa-se pela primeira vez, aliás, o caso do Slow J com quem vocês os dois têm trabalhado é exemplo disso, a construir equipas. É uma coisa nova em Portugal, não é? 

[Lhast] Em Portugal é, exactamente, mas lá fora não. Vais a uma sessão em que estás com três producers, quatro songwriters e toda a gente a fazer o melhor para ali.

[Charlie Beats] E importante é que eles estão pelo fim, pela música, não pelo umbigo.   

A gente vê isso quando olha para as fichas técnicas das Beyoncés, etc, uma música tem 300 pessoas a trabalhar. Ela telefona ao Bon Iver para obter uma dica para uma linha melódica de voz, mais nada.  

[Lhast] É. Acho que aqui durante muito tempo se esteve no seu canto, agora já se vê mais, como no exemplo do Slow J, esses exemplos de pessoas que se estão a juntar e a ajudar a música uns dos outros. Também já ouvi, não sei se é verdade, mas acho que a Rihanna vai fazer um álbum e vai tudo para lá para o camp dela, depois é o álbum do Drake e vão todos para o dele. Esse tipo de situação faz sentido. É enriquecedor e é uma coisa que só temos a ganhar.   

[Charlie Beats] Vi uma história no outro dia no Instagram a dizer que nós tínhamos dado esse exemplo de colaboração. Foi o DT, que é um produtor angolano, ele diz que lá em Angola há muito essa individualidade e essa competição.   

E até são ciosos, protegem os segredos uns dos outros…   

[Charlie Beats] Eu não sou nada assim.   

[Lhast] Isso é insegurança. O melhor que nós temos é aprender o que o outro tem para ensinar, o outro aprender o que temos para mostrar, mas nunca vamos fazer igual. Não há nada a perder. 

E vêem-se no futuro mais próximo, ou eventualmente mais distante, a assinarem álbuns como produtores? 

[Lhast] Acho que isso é muito bom e acho que se devia fazer.  

[Charlie Beats] Claro, mas é com calma. Eu sinto que ainda não tenho essa maturidade.   

Tu já fizeste trabalho que dá para 10 álbuns, mas teres um álbum em que és tu que pensas tudo exige maturidade?…  

[Charlie Beats] Eu quando fizer isso não pode ser só uma compilação de singles. Tenho que contar a minha história. Tenho que viver mais um bocadinho, crescer.   



Mas já te passou pela cabeça? 

[Charlie Beats] Logo com 20 anos eu queria fazer isso, só que ainda bem que não fiz.   

[Lhast] Isso também me passou pela cabeça, sem dúvida. Neste momento eu comecei a fazer mais as minhas cenas e isso já pus de lado, pelo menos para já.   

[Charlie Beats] Tem que haver coisas para dizer.   

Então, e fazendo aqui um exercício de ficção, e assumindo-o como tal, no dia em que esses álbuns acontecerem, dois ou três artistas que gostariam de lá ter?  

[Charlie Beats] Sam The Kid, sem dúvida. Gson, sem dúvida. Há muitos, mas um Slow J, um Papillon, um Rafa.   

Já está a tomar forma o disco [risos].  

[Charlie Beats] Acima de tudo eu tenho que perceber o que é o disco. Eu estou a dizer nomes que adorava ter, mas eu não sei se com a história que eu vou contar esses nomes vão fazer sentido entrar. Eu não posso só chamar o Sam porque quero o Sam.  

Não vais chamar o Jackie Chan para um filme romântico, vais chamá-lo para um filme de acção.   

[Charlie Beats] Exacto. Para já tenho que me conhecer mais a mim e quando tiver isso mais alinhado na minha cabeça e tiver mais centrado vou perceber realmente que mensagem quero passar, que conceito quero fazer, e depois sim vou perceber quem é adequado para que tema.  

[Lhast] É isso. Eu não sei como é que se desenharia isso. É mais fácil fazer uma compilação.   

Uma playlist, quase. 

[Lhast] Uma playlist seria fácil de fazer. Agora juntar, fazer o conceito, contar a história, ya, ainda mete um trabalho, mas quero ver isso.   

Num mundo pós-2019 ainda faz sentido pensar em álbuns?  

[Charlie Beats] Claramente. Eu achava que o álbum ia morrer e cada vez mais acho que o álbum faz todo o sentido. Num mar de singles, tu teres aquele álbum que faz todo o sentido ouvires do início ao fim e adoras…

[Lhast] E eu quero ouvir e sentir que estou numa viagem e que tu não puseste ali faixas à solta. Quero sentir mesmo que estamos a ir por algum caminho. Não é só singles, singles, singles, se calhar o Khaled faz um bocado isso.   

[Charlie Beats] Que também é legítimo.  

[Lhast] É legítimo, é o que é.   

Olhem, tanto no caso nacional como internacional, álbuns que vocês tenham ouvido ultimamente e que vos tenham levado a dizer “isto é que é um álbum”.   

[Charlie Beats] É assim, eu neste momento consumo muito mais nacional. Perguntam-me, “porque é que não vais para LA com o Rafa?” Epá, ainda não tenho essa vontade. Tenho aqui tanto sumo. Mas assim muito rápido: o Deepak Looper… há um Charlie antes e depois desse disco, até porque há ali muita coisa em que eu me revejo nas palavras do Papillon. O Slow J, neste último, parece que está a falar para mim, entendes? Há ali muita coisa quando ele diz, “o que é que eu quis?” Esta coisa de fazer aquilo que se gosta e a cena de lutar pelo sonho, pá, eu estou mesmo a passar essa fase, é uma benção eu estar a viver o que estou a viver mas ao mesmo tempo é estranho, o caminho não é a direito, obviamente, tem pedras e curvas e esses dois álbuns foram mesmo muito importantes para mim nos últimos tempos. Lá fora, não tanto enquanto uma viagem, mas o ASTROWORLD do Travis Scott mudou a minha vida. O Mike Dean é um deus, para mim. É muito bom e isso nota-se depois no “Mais Caro” e também no “Saturno”. Eu ando a trabalhar os reverbs de forma diferente, muito por causa do Travis, e de quem trabalha com ele, claro.  

[Lhast] Assim de fora, Travis e Drake continuam a ser… É aquela escola Kanye [West], sempre foi a minha favorita. Cada álbum que lançam tu não sabes bem o que é que vai acontecer. Gosto disso num artista. Também ando a ouvir bué o do 21 Savage. Do Offset também senti. Acho que aquilo está um álbum. Saiu dos singles e contou ali umas quantas histórias da vida dele.   

Vocês ainda conseguem ouvir música sem estar a olhar para os truques? Uma vez um estudante de cinema disse-me assim, “eu estou a adorar o que estou a descobrir, mas a minha relação de espectador mudou: deixei de olhar para o que acontece à frente da câmara e comecei a imaginar o que se passa atrás dela”. Vocês são assim ou ainda conseguem desfrutar de música sem analisar o lado técnico? 

[Lhast] Eu ainda consigo desfrutar de música e acho que isso é o mais importante para se manter vivo, porque se não já é muita análise. Ao mesmo tempo, consigo parar… quando fico bué surpreendido, é tipo, “ok, deixa-me lá desmontar isto”.   

Vão ao clube? Ouvem música no clube?

[Lhast] Ya, eu vou.   

[Charlie Beats] Eu não tanto. Claramente que passei uma fase que não conseguia ouvir da mesma forma como ouvia quando era miúdo, e agora estou a voltar a ter esse mindset de “mano, esquece a tarola”. Porque também era o que eu estava a dizer há bocado: eu já percebi que a técnica é o que é. Eu não preciso de me preocupar assim tanto e o cérebro vai percebendo isso e vai começando a desfrutar outra vez da música enquanto um todo, e não enquanto um trabalho que tem várias partes.  

[Lhast] Eu acho que quando comecei a produzir foquei-me bué nos beats. Tu estás durante bué tempo [a pensar] nos beats, e até te esqueces um bocado que quando eras um puto ouvias músicas por aquilo que as pessoas diziam. E entras um bocado nisso.   

Olha, falando agora de um outro aspecto. Está-se a viver bem disto em Portugal neste momento? 

[Charlie Beats] Não diria BEM, mas estou a viver.   

[Lhast] Foi o que um gajo pediu. Se eu puder ganhar dinheiro a fazer isto, já estou a ganhar. A partir do momento em que começou, “ok, posso estar aqui no estúdio a fazer isto, está-me a pagar as contas”.  

Mudou alguma coisa nestes últimos anos com a entrada assumidamente no jogo de players como a Universal e a Sony? Porque até aqui vocês vinham para o estúdio directamente com o artista, havia um funcionamento muito na horizontal, e agora passámos a ter estruturas mais elevadas metidas no jogo. 

[Charlie Beats] As labels estão sempre à cata do que é pop. Neste momento o hip hop é pop. Estamos no mainstream. Não interessa se é bom, se é mau, é o que é. O que eu sinto, e aqui falo completamente da minha pessoa, é que a Universal, a Sony e a Warner não vieram propriamente acrescentar grande coisa. Não vieram. Às vezes até vêm baralhar. Eu tenho a experiência de trabalhar com as majors, as editoras mais pequenas e os independentes e o que é certo é que corre muita bem sempre com os independentes. O Spotify, o TuneCore e o YouTube vieram democratizar muito mais a difusão da música. E nós hoje em dia não estamos dependentes de uma major para nos fazer assessoria de imprensa, meter as músicas na rádio e podermos ir à televisão. A televisão é um meio de comunicação que está em declínio, a rádio já não está a ter grande possibilidade de não passar hip hop e música mais urbana. Eu ouço crioulo na Cidade e isso deixa-me um orgulho enorme. Portanto, sinceramente, nós não precisamos de ninguém. Nós temos bué exemplos disso. O Sam The Kid é independente, o Piruka é independente, os Wet Bed Gang são independentes, o Slow J é independente e tem a sua própria label, o Dillaz é independente, o Richie Campbell tem a sua própria label.

[Lhast] Não muda muito. Têm os seus factores bons, têm outros negativos. Ao ganhar este destaque todo, quem está a fazer negócio da música vai-se envolver. Tem os seus dois lados.  

Imagino que ainda vão ter uma recta final de 2019 agitada. Como é que estão a projectar os próximos tempos e 2020? 

[Lhast] Eu estou a preparar uma mixtape, talvez. Em nome próprio. E estou a fazer outras produções que nunca se sabe quando é que saem ou não. Em termos pessoais tenho algumas coisas para dizer e estou a fechar isso. Nem é um álbum, seria uma mixtape com alguns temas.   

[Charlie Beats] Estou numa altura em que preciso muito de apostar mesmo… Eu tenho vindo a fazer muita coisa com muita sede e porque tenho muito amor a isto, mas preciso de apostar mais na qualidade. Prefiro fazer duas ou três coisas incríveis que eu amo, por ano.   

Precisas de saber dizer não, é isso? 

[Charlie Beats] Claramente que aprendi a dizer “não” em 2019. Por isso é que eu estava a dizer que tenho crescido muito enquanto pessoa. Às vezes, um produtor para furar tem que fazer várias coisas e eu estou a aprender a valorizar-me a mim primeiro. E acho que isso é uma aprendizagem que eu não tenho vergonha nenhuma de assumir. Dizer “não” é importante.   

[Lhast] E acho que felizmente estamos numa posição em que podemos seguir o nosso entusiasmo. Tu cresces sempre quando vais fazer as coisas que te tiram da cama.   

Deixou de ser um hustle e agora é algo que são vocês que escolhem fazer…   

[Lhast] Acho que nunca foi assim um hustle, nunca fiz nada contrariado, mas posso seguir o meu entusiasmo, não tenho tanto medo de dizer “não” a certas coisas. Normalmente quando começas a ter as pessoas a virem-te procurar ou o que for, tu às vezes perdes um bocado do foco do que te levou ali. Quero divertir-me. Eu próprio se calhar não estou a fazer tantos beats porque não me estava a divertir tanto a fazer isso. É por fases. E eu tento seguir esse foco de “o que é que me apetece fazer”.

Vocês acham que a cena das rimas, das batidas, do hip hop, da música urbana no caso português específico, já atingiu o auge ou ainda estamos a crescer?   

[Charlie Beats] Eu acho que vai crescer e ainda estamos a começar. Eu não estou a dizer que não se fez um trabalho enorme nas duas ou três décadas para trás, mas estamos a virar aqui uma página. Não sei. Estou a mandar coisas para o ar, mas eu sinto que há aqui uma lufada de ar fresco. Ainda estamos a crescer todos e estamos a aceitar coisas diferentes, a ter mais públicos diversificados, artistas diversificados, a rádio está mais diversificada.  

[Lhast] Há muitas pessoas que vão dizer que agora está tudo igual e não sei quê. Pá, mas sempre foi. Eu acho que sempre houve muitas coisas iguais e depois há pessoas que vêm com coisas novas.   

Por exemplo, ao nível da expressão feminina dentro desta cultura, acham que tem crescido?  

[Charlie Beats] Acho que sim. Nós vivemos numa sociedade machista, não há aqui grande dificuldade em dizer isto, em que o homem é privilegiado. Se ser artista, independente de género, é difícil, claramente que ser uma artista feminina ainda deve ser mais difícil, calculo eu. Sempre houve artistas femininas, e boas, mas agora se calhar existe uma maior aceitação porque estamos a crescer enquanto seres humanos e sociedade aqui dentro deste país.   


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu