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Fotografia: Daryan Dornelles
Publicado a: 05/03/2026

O novo disco a caminho dos palcos do Auditório de Espinho e Culturgest.

Lavoisier sobre era com h: “Queremos realmente servir as palavras”

Fotografia: Daryan Dornelles
Publicado a: 05/03/2026

Há muito que os Lavoisier fazem da palavra o centro da sua música. No novo álbum, era com h, Patrícia Relvas e Roberto Afonso levam essa postura ainda mais longe, convocando um conjunto diverso de poetas contemporâneos para um diálogo que transforma a escrita em matéria sonora e performativa. O disco — cujo título joga com a ambiguidade entre oralidade e grafia e com a persistência simbólica do “H” mudo na língua portuguesa — nasce precisamente desse encontro entre poesia dita, escrita e cantada, entre a criação literária e a sua transfiguração musical. Nos textos que compõem era com h encontram-se vozes da poesia contemporânea tão distintas como José Luís Peixoto, Maria do Rosário Pedreira, Nástio Mosquito, Vinícius Terra, Raquel Nobre Guerra, Alice Neto Jorge ou Maria Júlia Pinheiro, autores que aceitaram o convite para escrever a partir do presente e cujas palavras se tornaram o ponto de partida para novas canções.

Desde que começaram a trabalhar juntos, Patrícia Relvas e Roberto Afonso têm vindo a construir um território muito próprio dentro da música portuguesa contemporânea, onde a canção se cruza com a tradição oral, a poesia e uma estética minimalista que privilegia a escuta da palavra. Depois de discos como Viagem a Um Reino Maravilhoso (2019), com que exploraram a escrita de Miguel Torga, (2022), um disco que descreveram como contendo “muitos mundos”, ou do projeto Polifonias Singulares – Volume 1, em que exploraram práticas vocais tradicionais com as Cantadeiras do Campo do Gerês, era com h surge como um novo capítulo desse percurso: um disco que aprofunda o diálogo com a literatura e com a língua portuguesa, partindo do desafio de musicar poemas escritos especificamente para este encontro entre música e poesia.

Esse encontro ganha agora outra dimensão em palco. Na apresentação do álbum no Auditório de Espinho (amanhã, 6 de Março) na Culturgest (12 de Março), Patrícia Relvas (voz) e Roberto Afonso (guitarra) surgem acompanhados por uma formação que inclui Ricardo Dias Gomes no baixo e sintetizadores, Pedro Branco na guitarra e Diogo Sousa na bateria, músicos que participaram também no processo de construção do espetáculo. O concerto contará ainda com uma cenografia concebida pelo artista plástico João Ferro Martins, desenvolvida em colaboração com Luís Moreira, prolongando visualmente o universo do disco.

Na conversa que se segue, os dois músicos falam sobre a decisão de trabalhar com poetas vivos, sobre o modo como as palavras se transformam em música e sobre a dimensão física da interpretação vocal que atravessa estas canções. Falam também do lugar de era com h no percurso de Lavoisier, da transposição do disco para o palco e da preparação destes concertos antes de espreitarem os caminhos que se desenham para o futuro do projeto, entre novas explorações das Polifonias Singulares e a vontade de fazer viajar estas canções por outros territórios da língua portuguesa.



era com h inclui textos de um conjunto muito diverso de poetas contemporâneos. A decisão de trabalharem desta vez com poetas contemporâneos foi deliberada?

[Roberto Afonso (RA)] Eu diria que foi uma coisa deliberada, embora nós trabalhemos com poesia desde o início do Lavoisier. Começámos por musicar Fernando Pessoa e Judite Teixeira, depois houve aquele mergulho muito imersivo na poesia do Miguel Torga, e, entretanto, fomo-nos rodeando também de poetas amigos que começaram a fazer parte da nossa vida. A certa altura surgiu esta vontade de trabalhar com poetas vivos, que era uma coisa que nós nunca tínhamos feito. Isso acabou por ser um impulso importante. Entretanto fomos convidados pelo Alex Cortez para participar num projeto chamado A Vida Secreta das Palavras, no MAP, em Oeiras. Parte sempre de uma fotografia que é atribuída a um poeta, e depois convidam músicos para musicar o poema que nasce dessa imagem. Nós fizemos isso com o José Luís Peixoto e com a Maria do Rosário Pedreira e correu muito bem. Gostámos muito da experiência e ficámos a pensar: estas músicas, se calhar, podiam fazer parte de um disco. Depois também fomos tendo poetas amigos à nossa volta — como o Filipe Palmeira Fonseca, que é nosso vizinho e com quem nos cruzamos muitas vezes — e começámos a imaginar um conjunto mais alargado de vozes. Quando demos por nós já havia um corpo de poemas e de ideias que apontava claramente para um álbum.

[Patrícia Relvas (PR)] Também sentimos que, depois do e do Polifonias Singulares, nos apetecia muito fazer esse exercício de musicar palavras de outras pessoas. Quisemos perceber como é que nos dávamos com isso, porque é um exercício muito particular. Quando musicamos poesia há sempre esse compromisso de tentar ser o mais justo possível com o texto. Todas as palavras têm um peso e uma medida, e nós queremos mesmo atribuir-lhes um contexto musical honesto. Não estamos a usar o poema apenas como pretexto: queremos realmente servir as palavras.

O título do álbum desperta imediatamente curiosidade: era com h. Que significados ou jogos linguísticos estão escondidos nesta escolha e que universo queriam sugerir logo à partida?

[RA] Curiosamente o título começa com uma ideia que nem era bem um título. O mote inicial era algo como “a musicalidade e o gesto da poesia contemporânea”. Era um ponto de partida conceptual, mas percebemos rapidamente que não funcionaria como título de um álbum. Mas foi importante porque nos levou a refletir sobre o que é isto da poesia enquanto gesto — enquanto palavra dita, escrita ou cantada. Depois o título acabou por surgir de uma forma muito inesperada. Eu tive um sonho quando andávamos a pensar no nome do disco. Lembro-me de acordar e de ter escrito “era com h”. E aquilo ficou a ecoar. Começámos então a pensar nesse jogo entre oralidade e escrita. A palavra dita, a palavra escrita e a palavra musicada são três universos completamente diferentes e podem suscitar imagens distintas. Se eu disser “era com h”, alguém pode pensar na deusa grega Hera ou numa planta. Mas quando se vê escrito percebe-se que é outra coisa. E depois há também esta questão do H mudo. Na nossa ortografia têm existido várias reformas, mas o H continua ali, firme.

[PR] Sim, e começámos a brincar com essa ideia. O H do homem, o H da humanidade. Ou o H da hora — porque sem H é outra coisa completamente diferente.

[RA] Exatamente. É uma consoante que não se ouve, mas que continua presente. Isso interessava-nos simbolicamente. Por outro lado, há também a ideia de era enquanto tempo histórico. Como se estivéssemos a falar de um presente que já pertence a uma nova era. E o facto de aparecer com letra minúscula é curioso: é como se já estivéssemos a meio de uma frase ou de um poema.

Quem sabe se o próximo álbum não será é com m… era com h, de homem, agora é com m, de mulher…

[PR] Sim, quem sabe… (risos)

Quando começam a trabalhar um poema, procuram primeiro a música que ele já contém ou partem de uma abordagem mais livre?

[PR] Acho mesmo que as palavras no papel já contêm música. Há sempre uma musicalidade inscrita no próprio texto. Mas o processo neste disco foi muito livre. Não quisemos impor nenhuma metodologia nem aos poetas nem a nós próprios. Não existe aquela regra rígida de primeiro vir a música e depois a letra. Alguns poetas quiseram simplesmente enviar o poema. Outros quiseram ouvir ideias musicais antes de escrever. Houve quem ouvisse duas ou três propostas e dissesse: “quero escrever para esta”.

[RA] E houve até quem pedisse um “lá-lá-lá”…

[PR] Sim. Nalguns casos fiz nas maquetes um “lá-lá-lá”, uma espécie de melodia provisória, e eles escreveram já com essa métrica em mente. Cada colaboração teve um processo diferente e isso também foi um desafio muito interessante para nós.

[RA] Mas houve sempre um compromisso muito forte: musicar todas as palavras. Mesmo quando isso era difícil do ponto de vista melódico ou harmónico. Se a palavra estava ali escrita, nós queríamos que ela fosse cantada. Não queríamos cortar versos para facilitar a música.

[PR] E conseguimos. Não foi retirada uma única palavra.

Ao ouvir o disco surgem imagens muito físicas — mar, pele, sal, sangue. Como trabalham essa relação entre palavra, a voz e a matéria?

[RA] Cada poeta pertence também a um espaço artístico diferente. O Vinícius Terra é rapper. O Nástio Mosquito trabalha muito com performance e spoken word. A Maria Júlia Pinheiro tem uma dimensão muito ligada ao activismo. Então houve sempre esse cuidado de perceber que discurso musical podia acolher melhor cada poema. Se nos perguntarem se este disco é jazz, pop, rap ou música popular, é difícil responder. Por exemplo, quando a Maria do Rosário Pedreira escreve aquele texto quase narrativo, fomos buscar referências dramatúrgicas, coisas como Kurt Weill e que pudessem evocar esse universo.

[PR] No caso do Vinícius Terra, o exercício foi naturalmente mais próximo do rap, porque as palavras já vinham com aquela cadência. E com o Filipe Palmeira Fonseca aconteceu algo curioso: eu tinha feito primeiro um “lá-lá-lá” e quando o poema chegou percebemos que encaixava perfeitamente, como um fato feito por medida.

[RA] Mas, no fundo, a palavra já traz essa musicalidade inscrita. Muitas vezes o nosso trabalho é apenas escutá-la.

Desde os primeiros trabalhos o projecto tem vindo a construir uma linguagem muito própria. Onde situam era com h no arco discográfico de Lavoisier?

[RA] Eu diria que este disco é uma continuidade do , que saiu em 2022. Depois tivemos o Polifonias Singulares – Volume 1, que é um projecto muito específico feito com as Cantadeiras do Campo do Gerês. Esse trabalho é quase um laboratório e queremos continuar a desenvolvê-lo. Mas no já tínhamos feito experiências semelhantes com palavras de outros autores. Tivemos, por exemplo, o Vum Vum, que é angolano, e a Ava Rocha, que é brasileira. Isso deu-nos uma dimensão muito interessante da língua portuguesa enquanto espaço transatlântico.

[PR] E depois há também a nossa própria história. O Roberto é transmontano, eu sou da Beira Alta, mas crescemos ambos nos subúrbios de Lisboa, em Odivelas. Isso faz com que dentro de nós coexistam muitas influências: a música tradicional portuguesa, mas também a música cabo-verdiana, angolana… tudo isso faz parte do mesmo universo.

A música de Lavoisier ganha muitas vezes outra vida em palco. Como foi transformar este disco em espetáculo?

[PR] Neste caso foi muito mais fácil do que no . No tivemos muitas colaborações e depois percebemos que não tínhamos propriamente uma banda definida para apresentar o disco ao vivo. Desta vez quisemos evitar isso desde o início. A banda fez parte do processo logo desde o começo. Fizemos uma residência com o Ricardo e com o Pedro Branco quando já tínhamos as estruturas base das canções. Depois fomos trabalhando tudo em conjunto. E depois, mais tarde, o Diogo juntou-se ao processo porque percebemos que algumas músicas pediam bateria. Como o disco foi construído desde o início com os cinco, a passagem para o palco acabou por ser muito natural.

A apresentação do álbum no Auditório de Espinho e na Culturgest surge como um momento importante desta digressão. Pensaram esse concerto de forma particular?

[PR] Sim. A Culturgest era um sítio onde eu queria muito apresentar este disco. Nunca tocámos lá, mas é um espaço com um significado especial. Antes do concerto fizemos uma última residência artística em Ílhavo e convidámos o artista plástico João Ferro Martins para criar a cenografia do espetáculo, juntamente com o Luís Moreira.

[RA] Essa cenografia vai fazer parte do concerto na Culturgest e depois poderá acompanhar outros espetáculos. Pensámos também se devíamos convidar alguns dos poetas, mas acabámos por decidir concentrar-nos na banda.

Depois de era com h, que caminhos imaginam para o futuro mais próximo de Lavoisier?

[PR] Agora estamos muito focados em ir para a estrada. Depois de tanto tempo em estúdio sentimos necessidade de tocar.

[RA] Mas há ideias que já estão a germinar. O Polifonias Singulares – Volume 2, por exemplo, faz todo o sentido continuar. A ideia é estudar as nossas raízes e perceber o que significa ser músico português hoje. E estender o conceito de polifonias para lá das vozes. Poderemos abordar as percussões, cordofones, há mutas possibilidades. Vivemos num mundo muito global e isso faz parte da nossa identidade. Mas também nos interessa perceber o que existe nas nossas próprias raízes musicais. Acho que é uma meta nossa: entender isto, do que é que é ser músico, o que é que é ser músico português. Hoje, que ideia é esta desta globalidade, não é? Ou seja, de sermos tão antropofágicos, como nós gostamos muito também de trazer esse conceito dos tropicalistas para o nosso trabalho. Porque faz muito sentido hoje. Ou seja, tu estás completamente exposto a várias culturas e isso faz a tua identidade. Mas ainda assim, também um bocadinho influenciados pelos tropicalistas, queremos perceber o que é que é isto da nossa raiz musical. Já que nascemos em Portugal, o que é que é isto de ser músico português? Que características é que nós inatamente possuímos de entender um ritmo, uma chula, um malhão, sei lá… E depois pegar num cordofone qualquer e perceber aquela harmonia de uma maneira espiritual. Não sei se espiritual será a palavra certa…

Talvez a palavra seja “cultural”?…

[RA] Sim, é algo que entendemos culturalmente, que faz parte da nossa cultura.

[PR] E ao mesmo tempo estamos a tentar levar este disco ao Brasil. A ver vamos.


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