“Tua alma o um que são dois quando dois são um.”
— Álvaro de CamposDa “Saudação a Walt Whitman”, poema musicado em 2012 pelos Lavoisier.
Duas telas brancas paralelas suspensas formam um ângulo obtuso. Vistas de frente para o palco, a da direita apresenta uma imagem fixa de cinzentos salpicada de tons mais escuros. A da esquerda vai reflectindo cenas em movimento. Sombras e palavras no tempo. Pouco passa das vinte e uma horas do dia 12 de Março de 2026. Auditório Emílio Rui Vilar, da Culturgest, em Lisboa. A cenografia é de João Ferro Rodrigues. O som de Cid Saldanha. A luz de Luís Moreira. Estamos sentados na fila E, para a primeira apresentação lisboeta de era com h, de Lavoisier. A hora daquela noite intersecta uma história de quase vinte anos.
No final da primeira década deste século, atrás de uma tela branca víamos as sombras de um conjunto de músicos que prestava tributo a Nina Simone. “Desde então, nunca passando pela cabeça que nos poderíamos tornar profissionais, a experiência revelou-se avassaladora e por isso saberíamos que num futuro, onde quer que estivéssemos, continuaríamos a fazer música”, revelava Patrícia Relvas há alguns anos numa entrevista sobre a origem de Lavoisier, o duo que formou em Berlim em 2010 com Roberto Afonso.
Longe das raízes, viram-se subitamente atraídos pela música tradicional portuguesa das recolhas de Michel Giacometti, que cruzaram com a antropofagia multiculturalista do tropicalismo brasileiro e de algumas correntes psicadélicas anglo-saxónicas. Pegaram na Lei de Lavoisier, e com duas vozes e uma guitarra eléctrica edificaram uma das obras mais consistentes da música popular portuguesa contemporânea. Depois de algumas gravações caseiras realizadas a partir de 2011, o encontro em 2014 com o histórico técnico de som José Fortes, para a gravação de Projeto 675, seria determinante no futuro desenvolvimento das técnicas de gravação e produção de Lavoisier. “Para eles, o som/música é um devir contínuo, em transformação, para que nada se perca e possa perpetuar-se, ainda que sob diferentes formas”, tive então oportunidade de escrever nas notas de capa desse disco. Seguiram-se mais quatro álbuns antes de era com h, entre 2017 e 2023, ano em que lançaram Polifonias singulares vol. I, no âmbito de uma residência artística que os levou até ao canto polifónico das Cantadeiras do Campo do Gerês.
Uma certa surpresa, na apresentação ao vivo de era com h, antes da entrada dos músicos em palco, ouvir-se precisamente “A Moda das Malhadas”, uma das polifonias transformada electronicamente pelos Lavoisier em 2023. De alguma forma, regressávamos a Março de 2022 e à apresentação ao vivo do álbum Aí, onde a cantiga tradicional do Gerês havia sido primeiramente incluída. Esse evento mágico, ocorrido em Lisboa no Teatro da Trindade, com a presença das próprias Cantadeiras em palco, teve um final épico, quase ritualista, com dezenas de músicos e um bebé ao colo de uma jovem mãe cantadeira. Encontro raro que não voltaria, infelizmente, a repetir-se. Tal como acontecera anos antes com o extraordinário concerto em Vila Real para estreia ao vivo de Viagem a um Reino Maravilhoso, trabalho conceptual dedicado à poesia de Miguel Torga. Neste álbum, os Lavoisier contavam com a participação da Orquestra Fantástica do Futuro de Vila Real, um colectivo de jovens músicos do conservatório desta cidade, e com a sonoplastia de João Bento. Sons recolhidos nas pedras, nos rios e no ar das paisagens agrestes de Torga, a que chamaram retrato sonoro.
É um facto evidente que a exploração poética tem sido uma das facetas mais marcantes da arte do projecto Lavoisier, concedendo à palavra escrita em português a mesma importância que é atribuída à música. Desde “Pessoa”, composta em 2011 a partir da “Saudação a Walt Whitman”, de Álvaro de Campos, passando, em 2017, por “Estátua”, da poetisa viseense Judith Teixeira, canção presente no magnífico álbum É Teu. “Todas as palavras têm um peso e uma medida, e nós queremos mesmo atribuir-lhes um contexto musical honesto. Não estamos a usar o poema apenas como pretexto: queremos realmente servir as palavras”, referia Patrícia Relvas na recente entrevista ao Rimas e Batidas, que antecedeu a apresentação de era com h na Culturgest. “Eu tive um sonho quando andávamos a pensar no nome do disco. Lembro-me de acordar e de ter escrito ‘era com h’. E aquilo ficou a ecoar. (…) Na nossa ortografia têm existido várias reformas, mas o H continua ali, firme”, confidenciava Roberto Afonso a Rui Miguel Abreu na mesma entrevista.
Para este trabalho discográfico, editado no último dia de Outubro de 2025, os Lavoisier convidaram alguns poetas contemporâneos, nos quais identificaram não apenas afinidades estilísticas: “Sobretudo pelo seu alto grau de actividade e compromisso com a dinamização da poesia contemporânea, (…) indo ao encontro de um contexto actual que espelhe a experiência e visão consagrada de uns, com a vontade intransigente e distópica de um novo olhar atento de outros”, lê-se nas notas que acompanham a edição do álbum. Ouvindo o resultado, parece ter-se juntado a fome com a vontade de comer, pela perfeita simbiose entre música-palavra/palavra-música. São dez poemas: “Ponte”, de José Luís Peixoto; “Banquete ácido”, de Maria Giulia Pinheiro; “O Mundo bem monstro”, de Raquel Nobre Guerra; “Pé de vento”, de Alice Neto de Sousa; “Portugal não me respeita”, de Nástio Mosquito; “Mais uma canção de amor e luta”, de Nuno Miguel Guedes; “Quiçá o mar”, de Vinicius Terra; “Era uma menina”, de Maria do Rosário Pedreira; “É pena que os peixes não saibam cantar”, de José Anjos; e “Melúria”, da autoria de Filipe Homem Fonseca. Intersectam-se temáticas do mundo contemporâneo, das doenças à morte dos sistemas de valores tradicionais, à herança de uma certa portugalidade ou à crise dos relacionamentos. “Tu e eu, nem sabemos acordar e morrer juntos. A promessa não nasce assim, de uma sombra vaga, diluída”, escuta-se no poema de Filipe Homem Fonseca.
Cinco músicos em palco. É a formação base que gravou o álbum. Patrícia Relvas (voz e percussão), Roberto Afonso (voz e guitarra eléctrica), Pedro Branco (guitarra eléctrica), Ricardo Dias Gomes (baixo eléctrico) e Diogo Sousa (bateria). Abertura com a interpretação de “Segadinha”, ainda das polifonias minhotas. Depois a entrada em era com h, através de “Ponte”, seguida de “Mundo bem monstro.” “Banquete ácido” serve uma sonoridade que nos recorda o grupo Secos e Molhados, de Ney Matogrosso, ou a canção “Carpet of the sun”, dos Renaissance. Sabemos que não vamos, infelizmente, ouvir os sons pastorais da flauta transversal de Helena Liberato (uma das jovens da Orquestra do Futuro de Vila Real, que participou em Viagem a um Reino Maravilhoso e agora na gravação de era com h).
Ao vivo, as canções apresentam-se mais cruas ou despidas de arranjos, ainda assim com a mesma força e convicção que Lavoisier sempre colocam na interpretação. Por vezes sentimos a falta de mais vozes dobradas, de mais coros, como no álbum, e fazemos um acto de contricção por não termos assistido à primeira apresentação do disco dias antes, no Auditório de Espinho, com o coro feminino Ensemble Vocal da Escola Profissional de Música de Espinho. Tal como nas apresentações em duo, os Lavoisier em quinteto continuam intimistas e sem concessões de ordem estética. Sempre intensos, como se cada concerto ou cada nota fosse a última. O folk progressivo que sempre os caracterizou assume agora, contudo, contornos expressionistas cada vez mais filiados na estética do rock progressivo. Não pela exploração de arranjos longos ao vivo — o tempo das canções originais nunca é dilatado — mas principalmente pela sua sofisticação, pela complexidade da métrica dos compassos e das diversificadas componentes estilísticas que se vão sucedendo em cada peça, de forma natural, mas difíceis de explicar. É um apelo que já tínhamos sentido em Viagem a um Reino Maravilhoso e depois de forma ainda mais vincada em Aí.
O tempo passa sem darmos por ele e as canções sucedem-se, vertiginosas. Vivem no fio da navalha. Essencialmente de uma energia contagiante e da interpretação sublime de todos os músicos em palco. Pontos de inflexão moldam a estrutura das composições: momentos de uma calma aparente são, de repente, interrompidos por uma tensão incandescente. Pensamos na energia de Van Der Graaf Generator ou de Gentle Giant. Três peças de Aí são recuperadas para o contexto de era com h: “Operaletária”, “Passeata” e “Aí”, a canção que dá título a um disco inclassificável. Porque são feitas da mesma matéria-prima das canções do último álbum, com base numa poética intensamente crítica, escrita pelos próprios Lavoisier, e composições muito inspiradas e com influências dos Beatles mais complexos. As palavras, cantadas ou declamadas, respiram e ecoam no espaço, na maravilhosa interpretação de Patrícia Relvas, que nos últimos anos tem sido uma das convidadas do colectivo de músicos e poetas Lisbon Poetry Orchestra. Os Lavoisier são eles próprios. Roberto Afonso assume uma pose e uma técnica na guitarra próxima da de um Richard Thompson. Em “Passeata”, é de assinalar a ligação estudada da sua voz com os sofisticados acordes que Pedro Branco vai desenvolvendo. A voz grave e teatral de Roberto Afonso funciona em contraponto com a expressividade quer da voz quer da presença coreográfica de Patrícia Relvas.
De regresso a era com h para escutar o resto do álbum, a começar com a abordagem tipicamente prog de “Quiçá o mar”. Segue-se a crítica social de “Portugal não me respeita” e o dramatismo de “Era uma menina” (com um assobio que parece saído da banda sonora de um western de Sergio Leone e vozes cantadas e declamadas). Pensamos na Banda do Casaco. “É pena que os peixes não saibam cantar” tem corte Lavoisier vintage. “Melúria”, uma das melhores canções do álbum, é um ponto de encontro feliz entre a terra de mel de Eugénia Melo e Castro e o Clube da Esquina. Os ritmos tradicionais (Portugal, Brasil, Angola) fundem-se com o rock. “Mais uma canção de amor e luta”, em formato mais soft, com os Lavoisier a explorarem pela primeira vez o rhythm & blues. A guitarra de Pedro Branco é sempre sublime e dá ao projecto Lavoisier uma faceta impossível de ter ao vivo em duo, servindo ainda como uma extensão ilimitada das vozes. O baixo de Ricardo Dias Gomes tem tanto de discreto como de competente e inspirado. A bateria de Diogo Sousa é o elemento unificador — entre a tradição das cantigas e a modernidade do rock. Juntos são mais do que a soma das partes. “Pé de Vento” fecha a apresentação do disco em tom de festa, com apontamentos de forró, ainda assim nostálgico, e com um refrão que repete “nem chegamos ao Verão”.
No fim, apenas os dois, regressam ao que eram no princípio, com “Senhora de Almurtão”, canção de assinatura que ao longo dos anos tem servido de encore aos recitais de Lavoisier. Um ciclo que se repete, sem nunca romper com o passado, antes pegando no tempo que passou e introduzindo-o de novo na equação. É sempre de alma lavada que nos despedimos, a pensar como tudo passou num instante, à espera de um novo encontro. Lavoisier são síntese e depuração. Moram na filosofia. E continuam a ser um grupo de culto ou, quem sabe, o segredo mais bem guardado da música popular portuguesa, e isto apesar de terem uma presença internacional continental significativa (Europa, Canadá, Argentina, Brasil, Senegal). A possibilidade de repetirem em palco o formato deste espectáculo com o presente quinteto abre agora um conjunto de expectativas que nas apresentações dos discos anteriores seria impossível de alcançar em duo ou com convidados pontuais.