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Ilustração: Riça

As novas ferramentas digitais que vão fazer falta em qualquer arsenal musical.

Last Night a Streaming Ruined My Life: quatro tópicos para melhorares o teu directo

Ilustração: Riça

Estranhos tempos estes em que somos obrigados a recorrer ao pequeno ecrã do nosso dispositivo móvel ou do computador para vermos música ao vivo. A pandemia causada pela COVID-19 atirou-nos a todos para um afastamento social que nos impede obviamente de ir a espectáculos, sejam eles em grandes palcos ao ar livre ou dentro das quatro paredes de uma discoteca.

O streaming tem sido uma importante arma para nos mantermos próximos de músicos, produtores, DJs ou até mesmo de simples trocas de ideias entre algumas figuras importantes da indústria. No entanto — tem-se vindo a notar desde as primeiras transmissões — este é um recurso que convém ser utilizado e agilizado de forma sábia e inovadora, não só para que o produto final viaje do emissor até ao receptor com a mais ampla qualidade mas também para que consigamos ganhar o devido destaque no coração de um ruidoso mundo. Este artigo tem como missão desenvolver algumas ideias para que essa transmissão aconteça com a maior qualidade possível, seja através de software e/ou hardware, seja através de abordagens que podem garantir uma frescura singular ao acontecimento. Está mais inclinado para o universo DJ, mas também poderá ser visto como ponto de partida para uma actuação com variados instrumentos. Vamos lá?

[ÁUDIO] Este é um dos campos mais importantes do streaming. Um áudio de fraca qualidade pode comprometer por completo o trabalho e levar inclusive a que os utilizadores fechem a janela e procurem outros destinos. Na “batalha” entre RZA e DJ Premier, que o Rimas e Batidas teve oportunidade de documentar, o produtor dos Wu-Tang Clan enfrentou sérias complicações com a sua ligação áudio, que durante muito tempo chegou ao lado de cá com distorção, atrasos, feedbacks e longos períodos de silêncio. Mas o peso do acontecimento (estávamos perante duas lendas vivas da esfera hip hop, cruciais para o enriquecimento da cultura) veio, felizmente, colmatar essa falha que numa outra situação qualquer se poderia tornar fatal. O truque para conseguir extrair um áudio de boa qualidade passa por utilizar hardware externo para embeber correctamente o sinal. Em nenhuma das situações se aconselha assumir o microfone nativo do computador ou telemóvel. No caso do dispositivo móvel, a alternativa passa pelo recurso aparelhos externos. Os produtos da IK Multimedia são uma boa solução e vão desde o simples iRig 2 ou iRig UA, disponíveis para iOS e Android, até ao iRig Stream ou ao iRig Pro Duo I/O, com preços que variam entre os €39,99 e os €199,99. Existe também o Rode SC6-L, apenas desenhado para iOS, pela módica quantia de €77. Ter em atenção qual o tipo de entrada que precisas (Jack 3.5mm, Jack 6.5mm, RCA ou XLR) para não teres que recorrer a adaptadores. Se usares PC ou Mac para a transmissão, a escolha é mais vasta. O que não faltam nas lojas digitais são placas de som com ligação USB que permitem uma maior versatilidade de inputs e outputs (no caso de ser preciso ligar mais fontes ou fazer uma mistura para os monitores; nesta situação em específico, convém garantir que o interface faça a sua própria mistura e monitorização, pois acabaremos sempre por enviar um sinal stereo para o streaming). Seguem alguns exemplos de interfaces áudio (por ordem crescente de preço):
  • Behringer U-Control UCA222 (2 inputs e 2 outputs, €24,80 – só aceita RCA)
  • Behringer U-Phoria UMC22 (2 inputs e 2 outputs, €41)
  • Presonus AudioBox USB 96 (2 inputs e 2 outputs, €98)
  • M-Audio AIR 192|6 (2 inputs combo e 2 outputs, €135)
  • Focusrite Scarlett 4i4 3rd Gen (4 inputs e 4 outputs, €199)
  • Steinberg UR44C (6 inputs e 4 outputs, €307 – permite ligação para iPad)
Dica: se estiveres a pensar em comprar uma placa de som pela primeira vez, analisa ao detalhe as tuas necessidades e não penses numa utilização isolada. Mesmo que o primeiro destino seja o streaming, prevê outras finalidades, como gravar material em programas como o Cubase ou Pro Tools. Neste caso, a marca e qualidade dos pré-amplificadores são importantes. Fabricantes como a Presonus e a Focusrite não deixam nada a desejar. Mas, claro, havendo dinheiro para investir, o patamar da Motu, Avid ou RME é muito bem-vindo.

[VÍDEO E TRANSMISSÃO] Agora que estás equipado com as ferramentas certas para o transporte do áudio, resta escolher como é que essa transmissão vai ser feita. No caso do dispositivo móvel, não existe grande volta a dar: estamos limitados às especificações da câmara do aparelho que temos em mãos (nos smartphones mais avançados essa qualidade pode inclusive superar a do PC portátil). Aconselha-se o uso de um tripé para estabilizar a imagem e garantir uma maior definição e percepção da captação (a Amazon tem óptimas soluções a partir dos €13,66). O computador será novamente o veículo mais versátil para a transmissão, permitindo receber câmaras externas (caso o PC não possua webcam ou caso seja necessário ligar outras fontes vídeo para apanhar diferentes ângulos da actuação). Segue uma lista de webcams (por ordem crescente de preço):
  • Trust Exis (640 x 480 p e 30 fps, €49,99)
  • Logitech C525 (1280 x 720 p e 30 fps, €63,64)
  • Logitech C930e (1920 x 1080 p e 30 fps, €127,29)
  • Chuango IP116 (1280 x 720 p e 30 fps, €171,80)
  • SJCAM M10 (1920 x 1080 p e 60 fps, €212,43)
A câmara incorporada será obviamente uma boa base, não havendo na maior parte dos casos a necessidade de procurar recursos externos. Para tratar da gestão de sinais e transmissão de informação, aconselha-se o uso do OBS (Open Broadcaster Software), que além de ser gratuito tem a particularidade de ser deveras intuitivo (o Wirecast é também uma boa escolha). Basta descarregar a aplicação (existe para Windows e Mac), instalar e abrir. O setup base é fácil. No início, caso seja escolhida a configuração automática, o programa questiona se a prioridade é transmissão ou gravação. Escolhe-se a primeira. De seguida, são pedidas as preferências do vídeo capturado. Encabeça a lista a definição por defeito, que poderá ser trocada para outras resoluções (1920 x 1080 ou 1280 x 720, caso seja Full HD e HD Ready, respectivamente). Depois, chega a etapa de escolher a plataforma de streaming. Na lista, surgem as mais populares como o Facebook, Twitch e Youtube, ao lado de outras (por apenas permitir transmissão em serviço móvel, o Instagram não aparece nas hipóteses; contudo, o software Yellow Duck permite criar uma chave de streaming e um RTMP URL para inserir no programa e tornar essa hipótese viável). Qual a melhor plataforma? Na teoria, será aquela onde assenta o maior número de fãs e seguidores, sendo que será sempre possível criar links de uns serviços para os outros. Na prática, os diferentes serviços apresentam diferenças na transmissão. Para ajudar, um pequeno apanhado das taxas de bits e resoluções dos codificadores: Facebook
  • Velocidade máxima de transmissão: 4000 Kbps
  • Resolução máxima: 1080p (1920×1080) a 60 fps
Twitch
  • Velocidade máxima de transmissão: 6000 Kbps
  • Resolução máxima: 1080p (1920×1080) a 60 fps
YouTube
  • Velocidade máxima de transmissão: entre 20 000 a 51 000 Kbps
  • Resolução: 4K (3840 x 2160) a 60 fps (terá que ser utilizada uma câmara que grave a 4K)
Existem vários prós e contras no uso destes serviços. Tanto o Facebook como o Youtube adoptam políticas muito rígidas no que diz respeito ao direitos de autor. No caso do primeiro, a ligação será cortada assim que a inteligência artificial se deparar com problemas de copyright, obrigando à abertura de um novo stream para a actuação prosseguir (e assim consecutivamente se a situação se repetir). No caso do segundo, o utilizador será bloqueado ao terceiro problema com direitos de autor. Isto tudo no caso de se tratar de um DJ set e de tocarmos música que não é nossa, claro. Ainda no caso do Youtube, o smartphone só poderá ser utilizado se ultrapassarmos os mil subscritores na página, caso contrário só estará acessível a versão laptop. O Instagram, como foi dito ali atrás, só permite que a transmissão aconteça através do dispositivo móvel (contornável com o software igualmente referido), mas tem a particularidade de ser uma rede com muita audiência e de manter o directo disponível para consulta nas 24h que se seguem à actuação. O Twitch, por sua vez, é um dos veículos de streaming mais populares e consistente, testado por muitos gamers mas ultimamente muito usado pela comunidade musical (das empresas mencionadas é a menos severa com as políticas de copyright). Em caso de dúvida, por que não todas? O Restream é uma aplicação (com versão gratuita e paga, consoante a a utilização que se lhe dê) que permite transmitir para mais de 30 serviços, com o limite de 1 canal por plataforma (ou seja, não podemos expedir ao mesmo tempo para a página pessoal e profissional do Facebook, por exemplo). Regressemos ao OBS. Escolhida a plataforma certa, carregar em “obter chave de stream” e seguir os passos apresentados até à obtenção da chave que vai abrir a porta da transmissão. Se houver alguma dificuldade nestas etapas ou até na configuração de entradas de áudio e vídeo, existem vários tutoriais no Youtube para programar tudo direitinho. Contudo, frisa-me novamente, este é um programa de fácil manuseamento. Por exemplo, para adicionar qualquer que seja a fonte (áudio e vídeo) basta dirigirmo-nos à caixa “fontes” no ecrã principal e carregar em “+”. Isto vai imediatamente abrir uma lista de opções a adicionar, entre elas “dispositivo de captura de vídeo”, onde será escolhida a respectiva câmara (ou as restantes, caso existam), e “captura de entrada de áudio”, onde serão seleccionados os inputs para a transmissão. No caso de um DJ que utilize software para misturar e um controlador USB, será necessário fazer um routing interno – o OBS liga-se facilmente a programas como o Traktor, rekordbox dj e VirtualDJ 2020, contudo, se estiveres a usar um Mac, será necessário instalar um complemento como o iShowU Audio Capture. Dica: no caso de utilizares mais do que uma câmara, podes sempre criar atalhos no teclado para comutar as diferentes fontes vídeo. Mas antes, há que construir scenes para cada situação/plano a cambiar. O melhor será mesmo explorar o programa antes de utilizar e testar os sinais todos, nomeadamente o do áudio, para ver se não distorce (o VU terá que se manter sempre nos limites da zona verde, o mais próximo possível do amarelo e imperativamente afastado dos vermelhos). Se quiseres utilizar uma câmara secundária e não tiveres em tua posse uma webcam externa, não te preocupes. Poderás sempre recorrer ao smartphone e ligá-lo ao OBS como dispositivo extra. Como? Instalando a app Camera For OBS Studio, disponível apenas para iOS (€17,99 na App Store). Depois de comprada e instalada a aplicação, a ligação poderá ser feita de duas formas: por USB (com menos latência) ou por Wi-Fi (com mais latência e coadjuvado pelo plugin NewTek NDI). Se a ideia é poupar dinheiro, então o EpocCam será uma boa solução. Para Android existe o IPWebcam, que servirá o propósito através da configuração de uma câmara via IP.
[ILUMINAÇÃO, CENÁRIO E SEPARADORES DIGITAIS] Analisado de forma superficial, este capítulo poderá parecer descartável ou até fútil. Mas acredita: um bom cenário e uma boa iluminação poderá representar uma importante percentagem do trabalho servido aos fãs e restantes utilizadores das redes sociais. Não tens de ir ao ponto de criar um background em chroma key (ainda que OBS permita essa técnica, explicada em tutoriais no Youtube) mas sim de preparar o cenário que vai ser captado pela câmara para que se torne mais simpático e acolhedor a quem está a ver, quase como se estivesses a arrumar a casa para receber alguém. Um ou outro elemento decorativo, um ângulo que beneficie a captação e onde não surjam obstáculos ou fundos indesejados e, de preferência, uma divisão da casa onde não haja o risco de passar alguém à frente do plano. Se a carteira tiver liquidez para isso, por que não comprar (online, claro) um ou outro elemento decorativo para polvilhar o espaço? A iluminação é importantíssima para criar um ambiente especial no cenário que está a servir de palco à performance. Não é obviamente das luzes convencionais de tecto que se fala mas sim de uns projectores ou umas tiras de LED, facilmente adquiridos na Internet por preços bastante razoáveis. A Thomann vende esse tipo de equipamento com valores a partir dos €9,90 (os mais arrojados poderão optar por bolas de espelho, luzes robotizadas, etc). Contudo, há que ter muito cuidado com a iluminação. Luz a mais pode queimar por completo a imagem e dar a sensação que estás a actuar na companhia do astro-rei. Nada como testar antes de lançar a imagem para o ar. Por fim, os separadores digitais. Isto não é nada mais nada menos do que ter à mão um conjunto de divisórias que poderão ser lançadas em momentos-chave da transmissão. No início, um slide de apresentação, com um título ou um texto introdutório. No decorrer, uma transparência ou um logo para ser colocado num dos cantos da imagem. No final, um separador com uma nota de agradecimento, rematado com as datas dos próximos eventos online ou alguns links que te pareçam pertinentes (para outras redes sociais, por exemplo). A ideia é ter qualquer coisa para oferecer além das simples fontes de vídeo, como forma de mostrar algo de diferente para quem está a ver. Esta é uma oportunidade para os mais criativos soltarem a imaginação. O OBS, mais uma vez, permite o recurso a estes separadores, portanto, usa e abusa. Se possível, investe numa indumentária especial, como se estivesses mesmo em palco. A imagem conta muito. E nunca deixes de interagir com o público, as redes sociais servem mesmo para isso.
[VEREDICTO FINAL] Quanto maior for o leque de possibilidades e maior for o trabalho de pré-produção, mais rico tenderá a ser o resultado final. Ou seja, se tivermos a hipótese de conectar mais fontes áudio (no caso de queremos ligar um microfone nem que seja para cumprimentar o público, uma guitarra acústica para um momento específico na música ou até um sampler para disparar umas vozes) e vídeo (poderá ser interessante mais uma câmara para apanhar um plano das mãos em acção no caso dos DJs ou o dedilhar das cordas no caso de um guitarrista) mais enriquecida será a experiência oferecida aos nossos seguidores – lembra-te que podes sempre usar o teu smartphone como câmara secundária. No que toca ao motor de transmissão, será sempre melhor utilizar um computador e uma placa de som (por mais básica que seja, apenas garantindo que a máquina recebe o áudio limpo e com qualidade) ligados ao OBS (existem mais softwares, mas tem a particularidade de ser versátil e gratuito). Como transporte, o Twich é sem dúvida um excelente veículo. O truque será partilhar o link nas redes sociais e canalizar o público para esta plataforma. Nunca é demais sublinhar: a importância de uma boa sessão de testes é meio caminho andado para o bom sucesso do teu streaming. Quer sejam testes a nível de áudio, imagem ou Internet: será necessário efectuar uma prova à velocidade de upload, que poderá ser facilmente alcançada através de bengalas online como o Speedtest. Opta por uma ligação com cabo Ethernet ao invés de Wi-Fi, pois favorece a velocidade e impede as oscilações. Não tenhas medo de exagerar neste campo e esmiuçar todos os pormenores. Uma forma fácil de testar a transmissão é colocares as publicações do Facebook em privado e conectares o OBS à tua página. Inicia o streaming no programa e este não será visto pelos restantes utilizadores. Se alguma coisa não estiver dentro da conformidade, há espaço e tempo que sobre para a resolução (por exemplo, áudio a distorcer ou demasiada luz no espaço). Se tudo estiver ok, basta terminar a transmissão, recolocar as publicações em modo público e avançar para o directo. Bom trabalho!

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