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Fotografia: Direitos Reservados

"Tens NAS? Eu também!"

RZA vs. DJ Premier: um choque de titãs em nome da cultura

Fotografia: Direitos Reservados

Antes de começarmos, permitam-me um parênteses rápido. O streaming está a ocupar uma larga percentagem de espaço no quotidiano das pessoas que continuam a querer estar ligadas às prestações ao vivo dos seus artistas predilectos. Por outros meios que existam, o Instagram é, sem qualquer margem para dúvidas, o mais utilizado. Contudo, vai-se percebendo com o tempo, esta é uma plataforma com sérias fragilidades, não só no campo da qualidade do áudio transmitido, que deixa muito a desejar, mas também na quantidade de problemas técnicos que se vão sucedendo, entre cortes de sinal, atrasos entre imagem e som, realimentações e distorções harmónicas.

Foi precisamente o que aconteceu na batalha entre RZA e DJ Premier. Um rol de problemas técnicos maculou uma boa parte dos primeiros minutos da actuação, obrigando o rapper e produtor dos Wu-Tang Clan a desconectar e a reconectar o seu sistema várias vezes, implicando várias saídas e entradas de cena, enquanto Premier, do outro lado da linha, tratou de segurar as pontas. A resolução chegaria com uma mensagem do técnico do homem dos Gang Starr, aconselhando RZA a usar outro tipo de ligação como forma de contornar o obstáculo. Ainda assim, as complicações mantiveram-se até ao final da prestação com algumas músicas e comunicações ao microfone a não chegarem ao destinatário e com alguns dos temas escolhidos a não soarem nas condições consideradas ideais. Já deu para perceber que este será o caminho a percorrer nos próximos meses caso queiramos continuar a ver os nossos artistas ao vivo, contudo, há aqui uma necessidade de polir algumas arestas.

Independentemente disso, o que se presenciou nas quase duas horas e meia de actuação foi um verdadeiro desfile de clássicos e experiências, uma espécie de aula de história do movimento hip hop, leccionada por dois dos seus maiores símbolos. De um lado, DJ Premier, uma das duas metades dos Gang Starr (os restantes 50% são da responsabilidade de Guru, falecido em 2010) e produtor respeitado a nível internacional, detentor de alguns dos instrumentais mais pesados e impressionantes de que há memória. Do outro, separado por um ecrã, RZA, o cérebro dos Wu-Tang Clan, dono de um espólio invejável onde se encaixa um denso imaginário de arte marciais (os vídeos que correm na televisão à sua retaguarda não deixam margens para dúvidas em relação a isso) e uma dimensão espiritual primorosamente aplicada. Ambos de Nova Iorque (apesar de RZA estar a fazer a sua transmissão a partir de Los Angeles, numa casa de onde nos informa não sair há 18 dias), o que acaba por se tornar numa espécie de carta de amor à região dos EUA mais afectada pelo novo coronavírus.

Do ponto vista técnico, esta batalha “arbitrada” por Swizz Beatz e Timbaland (os dois têm vindo a lançar vários desafios semelhantes a outros colegas de profissão, entre músicos, produtores e compositores) daria vantagem a DJ Premier, por este reunir um repertório mais vasto que inclui participações com artistas de diferentes estratos do universo hip hop e pop (a dada altura, socorreu-se a “Ain’t No Other Man” de Christina Aguilera para responder à inclinação mais comercial de “Gravel Pit”), porém, RZA, cujo património recai maioritariamente sobre o seu trabalho com a aguerrida armada de Shaolin, não se deixou abalroar pelos engordados bombos e tarolas disparados do outro lado da câmara. Quem ganhou no meio disto tudo? Os espectadores deste raríssimo e emblemático acontecimento, não obstante as barreiras técnicas que se ergueram pelo caminho.

DJ Premier começa por recordar o dia em que RZA e GZA se dirigiram a sua casa em Brooklyn e lhe mostraram uma cassete com o tema “Pass the Bone”, informando que estaria nos seus planos fundar um colectivo chamado Wu-Tang Clan. E é precisamente por GZA e pelo tema “Liquid Swords” que RZA dá o pontapé-de-saída, seguindo-se “Medley: Intro”, de JAY-Z, pela mão de Premier, “Bring The Pain”, de Method Man, novamente por RZA, e “Breakin’ the Rules”, de M.O.P, de regresso a Premier — e assim sucessivamente até ao final. Os elogios aos artistas evocados não tardariam. Primeiro, JAY-Z, por ter sido um importante pilar na mudança das regras e normativas da cultura; depois, KRS-One, por este ser dotado de uma gestão vocal fora do normal; por fim, Kanye West, não só por ter sido, à imagem de Hova, um motor da transformação da cultura, mas também pelo seu imortal desempenho ao vivo no ano em que encabeçou o Coachella.

Sabemos que estamos perante dois monstros da música quando vemos nomes como Snoop Dogg, LL Cool J, NAS, Shaquille O’Neal, Ludacris, T.I., Killer Mike, Christina Aguilera, elementos dos Beastie Boys e Cypress Hill, e editoras como a Rhymesayers entre as mais de 840 mil almas que marcaram presença na plateia digital do divertido acontecimento. “Tens NAS? Eu também!”, exclama Premier depois de RZA ter sacado da cartola “Verbal Intercourse”, canção de Raekwon onde também surge Ghostface Killah. A resposta acontece com “Nas Is Like”, um clássico ainda hoje capaz de causar arrepios na espinha — o rapper discípulo das ruas voltaria a dar um ar de sua graça em “N.Y. State of Mind”, “Represent”, “Tanasia” e “I Gave You Power”. JAY-Z, o antigo rival com o qual alimentou um dos desentendimentos mais populares da esfera rap, repetir-se-ia também em “D’evils”, “Friend Or Foe” e “So Ghetto”.

Há tempo para vénias recíprocas (Premier parabeniza RZA pela banda de culto que criou; o inverso acontece quando o produtor dos Wu-Tang Clan vibra extasiado com os instrumentais que aterram em catadupa na casa onde se encontra na Califórnia), agradecimentos aos grupos que se mostraram fulcrais no trajecto dos dois (EPMD, por exemplo, por terem sido os primeiros a incluir os Gang Starr nos seus concertos), pormenores históricos importantes (“Mass Appeal” foi o primeiro tema do colectivo de Premier e Guru a entrar em rotação nas rádios) e dedicatórias à cultura hip hop (“Triumph”, dos Wu-Tang Clan, é servida como homenagem às raízes).

Pelo meio ergue-se uma colecção de trunfos imbatíveis: “Shame On a Nigga”, clássico de Ol’ Dirty Bastard; “Devil’s Pie”, maravilhosa canção de Voodoo de D’Angelo; “Method Man”, a melhor combinação de três acordes alguma vez conhecida; “Shimmy Shimmy Ya”, novamente ODB a partilhar um saudoso olá; “Boom”, bomba de Royce Da 5’9” para romper os altifalantes; “I’ll Be There For You / You’re All I Need To Get By”, da diva Mary J. Blige e Method Man; “C.R.E.A.M”, um doloroso mas real acrónimo; “Wu-Tang Clan Aint Nuthing ta F’ Wit”, construído para virar clubes às avessas; “Classic (Better Than I’ve Ever Been)”, onde se reúnem Rakim, NAS, KRS-One e Kanye West; e “A Better Tomorrow”, uma injecção de energia positiva que repesca um original de Harold Melvin & The Blue Notes de 1957 (a canção fora também alvo de releitura por parte de John Legend e The Roots).

Tanta história em tão pouco tempo. Abençoados sejam.


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