Kojey Radical sobre o próximo álbum: “Será a melhor coisa que já ouviste na vida”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Kojey Radical é Kwadwo Amponsah, um multifacetado artista londrino que se descreve enquanto músico, poeta e director criativo, membro fundador do colectivo PUSHCRAYONS. A sua pegada na esfera digital começa na primeira metade da presente década, com Dear Daisy: Opium, o EP de estreia, a surgir ainda numa fase prematura da carreira. Em 2016 lançou 23Winters, um longa-duração que lhe valeu um alcance mais modesto, mas foi no ano seguinte que a sua consagração foi plena: após a edição de In Gods Body, o seu trabalho mais extenso até à data, publicações como The Guardian, Noisey, The FADER ou FACT dedicaram-lhe os devidos elogios, perante um disco que vem munido de momentos trap avassaladores mas também de fases mais coloridas e profundas com tonalidades soul e jazz.

Dois anos passaram e as novidades em nome próprio escassearam. Mas Kojey não esteve parado: colaborou com Collard, MJ Cole, Shabaka Hutchings, Ghetts, KZ e também com Swindle e Mahalia, estes últimos por mais de uma ocasião, tendo até assumido o formato de trio para o poderoso “Water”, uma das faixas em destaque na banda sonora de FIFA 19, um grande marco na carreira dada a dimensão global que o popular jogo de consola aufere.

Nesses mesmo dois anos, Kojey esteve também a trabalhar no seu progresso enquanto artista, montou uma equipa e prepara agora o lançamento do seu próximo disco, que até já conta com dois avanços a rodar nas plataformas digitais — são eles “Can’t Go Back” e “2020”.

Já este sábado, o artista britânico sobre ao palco do festival Sou Quarteira, dois meses após uma boa estreia no nosso país, algo que motivou a equipa do Rimas e Batidas a fazer-lhe uma chamada telefónica para perceber um pouco mais do seu trabalho e do que podemos esperar neste “segundo round”.



Como tem sido o Verão?

Tem sido bom. Tenho estado ocupado a tentar ter o meu próximo projecto terminado e na rua.

Estás também em digressão neste momento?

De momento não. Voltamos a entrar em digressão na semana que vem [a entrevista aconteceu no dia 8 de Agosto]. Agora estou a promover o meu último single.

Estiveste em Portugal há pouco tempo, em Julho, no NOS Alive. Como correu a experiência?

Foi muito bom na verdade. Foi uma sensação boa ver aquela multidão. Não pensei que fosse estar tanta gente, até porque a Jorja Smith estava a tocar mesmo ao meu lado. Foi uma cena fixe para mim. Gostei muito e estou ansioso por regressar a Portugal.

Tinha sido a tua primeira vez em Portugal, certo?

Sim.

Agora deslocas-te ao Algarve, uma zona que nesta altura do ano se enche de turistas estrangeiros, muitos deles vindos do Reino Unido. Já tinhas ouvido falar?

Sim. A minha irmã já esteve aí e diz que é um sitio lindo.

Passaram dois anos desde o In Gods Body. A ideia com que fiquei na altura foi que tiveste logo bastante feedback positivo. O que significou para ti esse projecto?

Significou muito. Foi mesmo muito muito bem recebido. Bem melhor do que aquilo que eu estava à espera. Foi duro, porque nessa altura era eu quem estava a tratar de toda a promoção — não tinha sequer um agente, como tenho hoje. Fiz tudo sozinho. O álbum ajudou-me a perceber quem são os meus fãs, os meus amigos e a minha família, e trouxe-os para muito mais perto de mim. Fico grato por ter conseguido isso com esse projecto.

Desde esse disco que tens estado bastante calmo nas edições em nome próprio, mas não nos podemos queixar de falta de novidades tuas, porque tens sido muito activo nas colaborações — lembro-me de Swindle, Mahalia, Shabaka Hutchings…

É tudo família. Música é amor e isso une as pessoas. Na altura isso nem me soou a colaborações. Era mais um grupo de amigos que se juntava para criar música. Fico apenas feliz por as coisas terem resultado bem.

Portanto, não se tratam apenas de parcerias pontuais. Criaste laços de amizade com todos eles, é isso?

Sim, são pessoas que eu vejo com regularidade. Eu conheci-os através da música mas depois tornou-se maior do que isso. Tipo o Swindle, ele tem estado comigo e até produziu boa parte do meu próximo projecto. Também vejo muito a Mahalia. Recentemente dei um espectáculo com o Shabaka. É isso. Foi muito mais do que música aquilo que nós criámos.

E mesmo a música que criaram foi importante. Vejo o caso da “Water”, que entrou num videojogo com as dimensões do FIFA 19.

Isso foi lindo. Foi de loucos. Até porque eu nunca joguei o jogo mas lembro-me de todos os meus amigos jogarem. Lembro-me de estar em casa deles a vê-los jogar durante horas a fio. Eu ficava apenas a observar e dava para me ir afeiçoando à banda sonora. Cheguei a pensar que, talvez um dia, fosse possível vir a ter a minha música no jogo. Quando me ligaram a falar dessa possibilidade eu fiquei super entusiasmado. Sem dúvida que me abriu algumas portas, especialmente fora do Reino Unido, porque o jogo é conhecido no mundo inteiro. Mesmo que tu não saibas quem eu sou podes sempre cruzar-te com aquela música. E isso pode ser um ponto de partida.

Recentemente começaste a abrir o jogo relativamente ao teu próximo disco. Começaste com o “Can’t Go Back”, um tema que nos fala sobre depressão. Foi algo que te afectou durante este período entre o In Gods Body e o novo projecto?

Sim. Muita coisa aconteceu. Tive alguns percalços com a minha carreira, o meu melhor amigo foi assassinado… Estava a passar por algumas coisas menos boas e a música foi o meu escape. Foi através dela que eu consegui lidar com as minhas frustrações.

Musicalmente, faz lembrar um ensemble de soul. Parece que quiseste deixar de lado toda a produção digital na qual nos afogamos nos dias que correm.

Sim, sem dúvida. Tentámos retirar o máximo de produção digital neste próximo projecto.

Seguiu-se o “2020”, que mostra exactamente o outro lado da moeda — um banger trap, agressivo e com a mensagem muito clara de que estás no teu caminho para chegar a um patamar superior.

É essa a minha energia. Os meus espectáculos são muito versáteis e que quero tentar eglobar o máximo de registos possíveis para que as pessoas se sintam incluídas, se divirtam e sintam que não estão ali apenas a ouvir um único género musical.

Nesse espaço entre um tema claramente introspectivo e outro mais agressivo, que mais vai caber dentro do teu próximo álbum?

A única coisa que te posso dizer é que será a melhor coisa que já ouviste na vida. Se não gostares, facilmente passas para outra coisa e nunca mais o ouves. Mas se gostares vai ser a melhor coisa que já ouviste na vida. É assim que eu me sinto em relação ao disco.

Falaste-me há pouco que contas com produções do Swindle nesse LP. Quem mais colabora contigo?

O Swindle, o KZ e o Kyu. Tudo família.

Podemos, por isso, esperar um projecto com muitas nuances de jazz?

Sim. Foi por isso que quisemos chamar o Swindle. Experimentámos muitos sons ao vivo, com pouco recurso a computadores.

Levas alguns desses temas para o Sou Quarteira? O que podemos esperar da actuação?

Vai ser de doidos. Toda a energia… Se perderem a actuação vão ficar lixados com vocês mesmos o resto da vossa vida, porque perderam o melhor espectáculo de sempre. É o tudo ou nada. Quanto aos temas, só descobres se fores lá ouvir-me.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira