Kidonov sobre “Lame”: “Este single caminha no sentido de aceitar as coisas como elas são”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Daniela K. Monteiro

A espera terminou: Kidonov acaba de lançar “Lame”, tema que sucede a “Shudda“, single de estreia que saiu em 2017. No ano seguinte, mixou e masterizou LISTA DE REPRODUÇÃO, projecto do colectivo COLÓNIA CALÚNIA.

Depois de entrar com alguma pujança na órbita nacional, a sua escassez de lançamentos não se traduziu em menos actividade, trabalhando com nomes como 11 LIT3S, Caronte, FRNKLN ou L-ALI em canções que ainda não viram a luz do dia.

De volta a Portugal depois de uma estadia (que durou dois anos) em Londres, Ricardo Moreira abre caminho para uma nova temporada com um tema que foge àquilo que já tínhamos ouvido. Daniel Caesar e River Tiber são as coordenadas musicais dadas pelo próprio autor para entender esta sua faceta de cantor que, para sermos honestos, é tão boa quanto a de rapper.

 



Passaram quase dois anos desde o lançamento do teu single de estreia. O que levou a esta demora para mostrar algo novo? Tendo em conta o buzz que ganhaste na altura, foi estranho teres “desaparecido”.

Em tom de confissão, sinto que houve uma série de factores pessoais que justificam o facto de ter “desaparecido” aos olhos de quem me ficou a conhecer na altura. Começando pelo facto de ser extremamente perfeccionista em relação ao meu trabalho (o que não é saudável), passando pela expectativa daquilo que daria seguimento ao single e acabando no receio de não corresponder a essa mesma expectativa. Sinto que estes foram os principais motivos.

Contudo, nunca parei de trabalhar “behind the scenes” e, passados estes quase dois anos, tive a sorte de me cruzar e colaborar com alguns artistas e profissionais que admiro, sentido que esse processo também me fez ganhar uma visão diferente sobre o meu trabalho. Cada vez menos preso à expectativa e guiando-me cada vez mais pela minha expressão enquanto artista.

Dizias-me que “Lame” é uma canção extremamente pessoal e que era muito fora daquilo que irás fazer por norma. Ser tão pessoal foi o que te puxou para criares neste registo mais cantado? E existem referências para este teu lado menos rap ou foi tudo bastante orgânico?

Sim, foi. Apesar de não ser de todo o meu forte, gosto bastante de cantar e sempre foi algo que quis incluir na minha música. Aliando isso ao contexto pessoal da canção, achei que faria sentido este registo. Acrescentando que o timing também foi relevante neste lançamento. É algo que sinto que se não lançasse nesta altura, também não iria lançar mais tarde. De certa forma, este single caminha no sentido de aceitar as coisas como elas são, e esse conceito é aplicável a tudo aquilo que mencionei e que me levou a não lançar música até hoje. Foi tudo self-made e sem grandes recursos, e apreciar o produto final com todas as suas imperfeições é algo que talvez não seria capaz de fazer há dois anos.

Quanto ao processo, apesar de sentir que foi todo bastante orgânico, há que mencionar Daniel Caesar e River Tiber como referências inegáveis, ainda que tenha sido inconsciente. São dos artistas que mais oiço e em que mais me revejo.

Actuaste recentemente ao vivo. Como é que correu? Sentiste-te à vontade em cima do palco?

Foi estranho, no melhor dos sentidos. Correu melhor do que poderia alguma vez imaginar. Quando se tem as expectativas sempre baixas, uma sala esgotada que ainda trocou energia da forma que o fez, sabe sempre muito bem. E como tal, não falharam em fazer-me sentir à vontade. Foi das experiências mais gratificantes de que me lembro, e a melhor forma de fechar o ano.

Não posso deixar de dar um shout-out ao meu amigo e artista FRNKLN, que marcou e marcará presença comigo, e ao Gonçalo Afonso e ao Pedro Dórdio da ONE STEP FORWARD por puxarem por mim desde sempre e por finalmente levarem-me a pisar um palco.

Em 2017 vivias em Londres, mas agora estás de volta a Portugal. Podemos esperar mais novidades tuas a solo e com outros artistas nacionais nos próximos meses? 

É verdade, estou de volta definitivamente. E sim, podem-se esperar novidades, tanto a solo como com outros artistas. Não quero estipular datas, mas posso ressalvar que não estou preocupado com qualquer tipo de coerência musical. Estou essencialmente a explorar-me enquanto artista e a expor o processo. A resposta que isso tiver poderá ou não influenciar o futuro. Acima de tudo mantenho-me grato por toda a gente que de alguma forma apoia o meu trabalho.