Keso: “A minha carreira é também ajudar os outros. A música, naquilo que eu sou e quero representar, vai ser só 20%”

[TEXTO] Gonçalo Tavares [FOTO] Pedro Mkk

Mesmo num momento de pausa do projecto, Marco Ferreira (aka Keso) não pára. O seu icónico segundo álbum, O Revólver Entre as Flores, celebrou o seu décimo aniversário com a concretização de um sonho, a reedição em vinil, ao mesmo tempo que a Paga-lhe o Quarto, a sua rede de artistas e plataforma de lançamentos no Porto, dá sinais de vida palpitantes.

Estes foram os motivos para uma conversa que se queria longa. Acabámos por perceber como o rapper/produtor lida com a influência dos seus álbuns (junta-se o obrigatório KSX2016) e porque não escreve “canções de amor”. Partilhou um pouco da reflexão que pratica sozinho e que alimenta a sua carreira, também ponderada aqui. No dia 23 de Novembro, vão poder vê-lo ao vivo no showcase da Paga-lhe o Quarto no Super Bock em Stock.



A Paga-lhe o Quarto, apesar de ter aparecido em 2012, multiplicou as suas iniciativas e produções mais recentemente, principalmente neste ano. O que provocou este ressurgimento?

Pela primeira vez em três anos não estou a dedicar o meu tempo a um trabalho que não esteja relacionado com música. Isso permite-me, ao mesmo tempo, passar algum tempo a trabalhar com os outros e ajudá-los.

Desde o KSX2016 que a minha vida mudou um bocado. Fui obrigado a estar constantemente em contacto com Lisboa por causa do meu programa na SBSR.fm. Conheci centenas de pessoas, de todos os espectros da indústria, e decidi começar a partilhar esses contactos gratuitamente com outros artistas daqui, que não tinham conhecimento e acesso e que passaram a ter através de mim.

Isto acontece numa fase em que sinto que o Porto, a vários níveis de criação musical, está um pouco desamparado em relação a Lisboa, por exemplo, onde vês bandas com agências, empresas de distribuição, jornalismo, tudo e mais alguma coisa.

Com uma rede?

Essa rede existe em Lisboa e não existe cá. E é o que queremos criar com a Paga-lhe o Quarto. Ela surge como uma plataforma básica de apoio a novos lançamentos, assegurando a comunicação, marketing, componente visual e áudio e que estes são de qualidade. Não queremos direitos sobre nenhuma obra, simplesmente aconselhamos e ajudamos.

Então o que une esses artistas, como o Bug, Riça, Myka, M’Cirilo, Pibxis, é uma expressão livre de vontade da tua parte?

Não há interesses. Não queremos tornar os projectos rentáveis. Aliás, uma das premissas básicas para qualquer artista que se tenha sentado à minha frente para entrar na Paga-lhe o Quarto é “não azeita”, a cena tem que ser artística. Se o músico não tem um objectivo artístico ou de reivindicação social não tem interesse. E consegues muito facilmente encontrar artistas interessados em desenvolver a sua obra, que estão se mais que a cagar se têm muitos likes ou se estão em função com o mercado. É esse tipo de pessoas que queremos na Paga-lhe.

Falaste em mercado, mas é como se a Paga-lhe tivesse uma vida própria em relação ao mercado.

A Paga-lhe não está no mercado. Se estivéssemos iam-nos obrigar a ter outra atitude. Se entrássemos no mercado do booking, por exemplo, íamos ter que olhar para os artistas de outra forma e se calhar nenhum deles estaria aqui. Essas editoras vão surgir, com essas intenções. E isso é bom, mas nós não temos nada a haver com isso.

Soa sonhador, mas fazível.

Já está feito. Como o Natal do Marginal, um festival de três dias com Minus, Activa som, Enigmacru, filmes, pintura e apresentação de novos trabalhos.

Mais algum evento da Paga-lhe que mereça destaque?

Vamos sempre fazer eventos, como a Matiné da Paga-lhe, que serve para apresentar novos trabalhos de 3 em 3 meses.

10 anos após a concepção d’O Revólver Entre as Flores, ele ganhou um estatuto brutal no rap nacional. Como é constatar isso, que fizeste algo que tem esta vida depois de ti?

Eu adoro o Revólver, estou feliz por ter sido eu a fazê-lo e consigo partilhar alguma admiração pelo Revólver em si, mas não mantenho essa relação com ele e sou mau em constatar essas coisas. Não tenho uma noção real do que sou ou não sou, não sei se significo muito, pouco, o que seja.

Às vezes isso torna-se constrangedor, quando digo alguma coisa de forma mesmo relaxada e as pessoas levam a sério. Tenho que viver com a noção de ter cuidado com o que digo, quando não assumi nenhuma postura tipo “follow the leader”. Sou um gajo normal, faço o meu dia-a-dia normal e não tenho isso em conta.

Lembro-me do hook da Underground: “Doutor levo uma vida de merda mas não abdico”. Tem um poder monumental. É curioso ouvir-te dizer que é constrangedor sentir que esse poder é real de alguma forma.

É a realidade [risos]. Se a malta acha que a determinada altura vou mudar o meu caminho, percebam que isso não faz parte da minha personalidade. Eu podia estar a jogar no campo do comercial e do rentável há muito tempo. Tenho 32 anos, vivo em casa dos meus pais porque não consigo sair de casa  sozinho nem tenho condições familiares e laborais para comprar a casa. A minha vida continua fixe, mas super simples, e não me vejo a tomar atitudes no sentido contrário só para ter mais ou levar uma vida luxuosa. Não faz parte de mim.

És completamente coerente com a Paga-lhe o Quarto.

A Paga-lhe o Quarto é isso! E às vezes choca. Já existiram dois managers a quem mostrei o cartaz do Natal do Marginal e que me disseram”, não tem mal nenhum estares a fazer dinheiro com isto”. Eu mesmo orgulhoso de ter uma festa de hip hop de três dias como deve ser e a primeira coisa que me dizem é se estou a fazer dinheiro ou não.

É a forma de eles estarem, não? É o ganha-pão deles.

Mas isso para mim é desrespeitoso. Eu ponho este cartaz à frente como se estivesse a dar um presente, não estou à espera que me digam, “quanto é que te devo”?

Voltando ao Revólver. Passados 10 anos, como achas que o álbum maturou? 

Com o passar dos anos, o disco mostrou-me um aspecto muito simples da vida que é a liberdade total, a altura do experimentalismo, e que fez sentido na altura em que foi feito, entre os 18 e os 22 [anos]. Naquela altura fazia as cenas e estava-me a cagar, hoje em dia sou muito mais tecnicista e menos aberto. O Revólver para mim é isso, é a minha juventude, a minha infância enquanto artista. É uma recordação muito feliz. O disco foi feito num ambiente espectacular, uma espécie de república onde eu vivia com mais cinco pessoas, em Lisboa.

Quando estudavas cinema?

Sim. E o pessoal estava sempre em nossa casa, músicos como os irmãos Morelli, o Sir Scratch, o Nerve, o convívio era constante. Foi espectacular e é algo que não consegues replicar muitas vezes. Isso é mesmo bonito.

O Revólver para ti é um álbum de memórias?

Ya.

Alguns dos temas do “Revólver” parecem ainda mais actuais, como a consciencialização ambiental do “Fumo que eu Fumava” ou a precariedade artística em “Eternamente em Cena”. Como olhas para eles após uma década?

Continua tudo igual. Na altura o assunto era mais ou menos falado, mas não era tão importante como é hoje em dia. O que é uma pena, porque passados 10 anos não se fez praticamente nada. A questão do “Eternamente em Cena” continua exactamente igual, os ordenados mínimos estão ao mesmo nível do que há 15 anos. A luta continua a mesma. Isto está a melhorar, mas não está a melhorar muito.

Numa entrevista que deste ao Rimas e Batidas há três anos, chamaste ao KSX2016 um “gatafunho”. Como está neste momento o teu lado criativo? Das tuas valências, quais te impelem mais a criar: música, grafitti, vídeos, eventos ou de tudo um pouco?

Tenho o disco com o Luca [Argel], que estou a fazer e que sai para o ano. Tenho também outro disco, que vai sair em Janeiro, uma compilação com 20 MCs do Porto onde produzi tudo. Vai ser apresentado no Natal do Marginal, no dia 29.

Fora isso, não estou a passar por uma fase calma onde possa desenvolver um trabalho com alto cuidado. Tirando o disco com o Luca, quero muito fazer algo diferente mas não estou a conseguir devido ao imbróglio de merdas técnicas, financeiras, etc. que tenho que fazer. Corresponde à fase inicial da Paga-lhe, que é de trabalho prático, papel e caneta a apontar coisas. É uma fase muito específica. Estou a organizar sozinho um festival de três dias, fazer as POCs (Plano Oficial de Contabilidade), outros projectos futuros, mais o meu trabalho na rádio, mais o meu dia-a-dia. Neste momento não tenho tempo para o trabalho artístico.

Isso não tem problema, porque supostamente só tenho o disco novo em 2022, para manter um novo álbum de seis em seis anos, e não estou preocupado. Eu sinto que quero fazer música nova, há bué merdas de que quero falar. Daqui a um tempo fecho-me outra vez, como fiz com o KSX2016, e faço um disco em dois ou três meses. Para já não sinto isso.

Keso, enquanto projecto musical, está num momento de pausa?

Isso é uma coisa que às vezes me causa um bocado de preocupação. Como não tenho manager, sou que faço managing da minha carreira musical, passo imenso tempo sem olhar para mim como artista. Começo a olhar para mim como um gajo que está a trabalhar para os outros, ou a ajudar os outros. Para mim também, mas nunca como Keso. Parece que está em suspenso e às vezes tenho medo de me esquecer.

Mas regra geral não tem problema, sempre vivi com isso. O tempo entre o Revólver e o KSX2016 foi exactamente assim. Passei-o a fazer merdas e esqueci a cena do Keso. Ou seja, a quantidade de trabalho que estou a criar é tal que o meu nome não vai desaparecer. Vais levar comigo em qualquer lado, e faço com que todos os projectos em que estou metido sejam uma característica do Keso. Não vais ver um videoclip meu com uma música nova porque não tenho interesse nisso, e quando vires vai ser num álbum.

Olhando para a tua carreira parece inconciliável teres um manager a fazer essa gestão.

É impensável ter um manager comigo, e não faltaram propostas, porque eu faço tudo em função do meu carácter. Não faz sentido eu ter alguém a gerir a minha carreira segundo os parâmetros de um mercado qualquer, porque não são os meus. Há dois meses estava na Palestina a fazer um filme. Algum dia um manager ia dizer para eu ir para a Palestina [durante] dois meses fazer um documentário sobre modos de resistência culturais? Eles não têm cabimento para isso, não conseguem. Isso tudo sou eu, a minha carreira é também ajudar os outros. A música, naquilo que eu sou e quero representar, vai ser só 20%.

Assumidamente?

É um objectivo. Tem que haver muito mais.

Quem te ouve a falar fica com a ideia de que a liberdade é das coisas que prezas mais como artista, e até como pessoa.

Nem consigo namorar. Não conseguiria estar presente. Vou estar agora no SXSW, passo os fins-de-semana todos fora, fui à Palestina, fui ao Brasil dois anos seguidos. O trajecto que estou a fazer envolve estar muito tempo fora, pegar de repente em todos os fundos que tenho e investir, envolve-me de manhã à noite.

Não posso ter preocupações com outra pessoa a não ser que seja alguém muito confortável com esta vida e que também diga, “vou contigo na boa”. Mas não vais encontrar ninguém assim.

Na tua música é um tema pouco presente.

Não existe. Existe no meu projecto com o Luca, acaba por ser esse o veículo. Mas não é algo que não venha a fazer, eu sei que um dia vou fazê-lo. É uma cena que sempre me fez confusão. Eu não vejo a vida por fases. Ajo por fases porque tenho que agir, por uma questão de matemática e organização. Mas eu não queria conhecer agora alguém maravilhoso,  desenvolver uma relação maravilhosa com essa pessoa e que ela tivesse que lidar com uma música de amor minha sobre uma tipa qualquer que passou na minha vida. É mórbido. A ser, que seja a mãe dos meus filhos.

Estás-te a guardar?

Tenho 32 anos, já é tarde. Se calhar já podia estar resolvido nesse campo, ou devia. Mas ao mesmo tempo acho que não. Se chegar ao fim da minha vida, fizer uma música ou um álbum sobre esse tema e esse álbum for dedicado à pessoa que mais valeu a pena, isso sim. Agora, se tivesse feito músicas de amor, neste momento estava cheio de vergonha delas.

Eu chamo-lhe música dor de corno, e há imensa gente a fazer música dor de corno. E não é um assunto interessante. É sempre a mesma história: vai ficar junta ou não vai ficar junta; vai ceder ou não vai; vai-se sacrificar, vai estar presente, etc.

Podes escrever a coisa da forma mais linda e isso sim, a poesia, o samba, há toda uma série de culturas incrível baseada na receita do amor. Mas, no meu dia-a-dia, isso é das cenas mais desinteressantes que pode haver. Mal começa essa conversa eu fico tipo “a sério?”. Há bué merdas para se resolverem e um gajo anda a falar sobre isso? Não tenho paciência.

Lançaste recentemente um EP de beats baseado na tua viagem à Palestina. “Brucegroove” é Londres. Qual música tua ou o quê da tua música é o Porto?

Acho que nenhuma. O único texto que fiz sobre o Porto a que poderia chamar música minha, porque foi feito na métrica de rap, foi um texto que expus numa Poetry Jam no Hard Club. Foi em 2009/2010, mesmo no embrião da transformação do Porto. A ribeira estava uma decadência, havia só um, dois bares abertos na Baixa. A cidade toda tinha cartazes a dizer “vende-se”. O texto era eu a falar da cidade como se fosse uma prostituta. Entretanto perdi-o. Acho que isso está gravado, que se fizeram cassetes sobre isso. Fora isso, não tenho nenhuma música que seja sobre o Porto, não tenho nenhuma reflexão assim.

Ouvindo a tua música e lendo as tuas entrevistas, percebe-se que és muito consciente e pro-activo em relação ao Porto.

Mas isso é a minha relação com a cidade, que é fortíssima. Eu estou aqui de manhã à noite e vivo para isto. Mas não lhe fiz nada. Tenho a cena de bairro do primeiro disco, tenho o “Escritor de Interiores” que é um comentário claro à cidade, falo do Siza, do Souto de Moura, da abertura da cidade ao turismo, dos tuks tuks, mas tudo de forma muito leviana. Ainda não fiz nada mesmo para a cidade, mas vou gostar de fazê-lo.

Rever o “Revólver” é também rever as suas dicas. “E quem diria que o fumo que eu fumava/ era o fumo que matava tornando-me um criminoso”; “Por muito que eu esfregue não sai; Esta pintura de palhaço da minha face não descai…”. Claramente não reescrevias as tuas motivações, mas se pudesses reescrever alguma dica, fá-lo-ias?

Acho que não. Tudo tem o seu tempo e acho que nunca dei uma pedrada no charco, não que justifique reescrever. No “Eternamente em Cena” por exemplo, às vezes penso que poderia ter dito as coisas de outra forma no refrão e que escusava de dizer que andava com cara de palhaço para o resto da vida, mas ao mesmo tempo é isso, é essa a ideia. A música serve para falar sobre esses momentos e sobre quem está a passar por isso dessa forma. Havia outra forma de dizer, sim, mas também não me arrependo. No primeiro disco eu dizia cada bacurada, mas também tinha 15/16 anos. C’mon, o que é que eu ia dizer? Mas há bué gente que acha que é o meu melhor disco, o que é inacreditável.

Os teus discos, como têm personalidades diferentes, devem atrair pessoas diferentes.

Sim, e também acho que conseguem transmitir que temos que estar em constante mutação. Não totalmente, também para percebermos o que é bom em manter. Mas quando não fazes por melhorar, por te expor, por conhecer mais acabas por ser algo narcisista, frouxo. Só conheces a tua realidade e a tua zona de conforto.

Eu gosto de ter a minha zona de conforto, estou constantemente a procurá-la e acho que os meus discos são um reflexo disso. Todos são etapas diferentes da minha vida, a nível artístico, de pensamento, todos os dias estou a aprender. E espero que seja sempre assim.

Se algum dia lançar um disco igual ao anterior mas com uma roupagem diferente estou só a alimentar uma coisa qualquer. Provavelmente não fará sentido.


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