Foi recentemente editada uma das mais inesperadas e fascinantes edições de arquivo da música experimental portuguesa dos últimos anos: Dou Dou Doudo: Ao Vivo na Cooperativa Árvore, um disco em edição limitada de 300 cópias em vinil 12″, lançado pela editora Holuzam e comercializado, entre outras plataformas, pela loja portuguesa Flur Discos. O álbum documenta a actuação ao vivo de Anar Band com E.M. de Melo e Castro — um encontro artístico único captado em Novembro de 1978, na Cooperativa Árvore no Porto e à época filmado pela equipa da RTP Porto.
Apesar de ter sido exibido no programa experimental Obrigatório Não Ver, apresentado por Ana Hatherly no então Segundo Canal da RTP em Fevereiro de 1979, este registo viveu décadas no limbo dos arquivos, praticamente esquecido e sem documentação datada ou completa nos acervos oficiais.
A reedição surge, portanto, como um achado raríssimo: uma performance em que improvisação, sintéticos, guitarra e palavra se combinam num discurso sonoro e poético que hoje se lê quase como um manifesto de liberdade criativa, cultural e política no coração de um país ainda em ebulição pós-Revolução dos Cravos.
Este lançamento não é apenas mais uma recuperação de um documento esquecido em arquivo, é também uma descoberta editorial que traz para uma nova geração uma peça vívida da experimentação portuguesa, reunindo pela primeira vez em vinil o material sonoro (e a sua contextualização visual e textual), com design, masterização e produção pensados especificamente para este formato físico.
Como surgiu a ideia de reeditar este concerto histórico da Anar Band com E.M. de Melo e Castro, gravado em Novembro de 1978 na Cooperativa Árvore? O que vos atraiu neste registo em particular e como se deu o processo de descoberta e escolha desta actuação para edição em vinil?
A ideia para a reedição surge no decurso de um trabalho de investigação mais aprofundado sobre Telectu, que já leva mais de 2 anos e inevitavelmente abarca também outros projectos, ideias e escritos de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua. Na recolha de informação e fontes aparece um excerto ao vivo de Anar Band com Melo e Castro, utilizado pelo João Carlos Callixto no segmento Gramofone, RTP Memória. Ficou em pausa até uma ideia amadurecer. E o resto da actuação, existiria? Contacto com o arquivo da RTP, descobre-se que sim, tem-se acesso ao visionamento e o resto é mais ou menos evidente, para nós: como poderíamos não agir perante este material? O espírito e tom de improvisação dos músicos e de Melo e Castro, a música na vizinhança do LP de Anar Band (1977), um favorito, foram elementos que não quisemos desperdiçar. Este tipo de operações faz-se muito quase por inevitabilidade. Queremos estar ligados a isto. E então faz-se por concretizar.
A música que se ouve representa algo único no contexto musical português da época, de toda a década de 1970 e mesmo mais além. Por um lado, a estranheza e talvez inacessibilidade da música, extremamente sintética (sobretudo por via do ARP Odyssey de Lima Barreto); por outro lado, um sentimento quase punk no som e nos meios. As duas coisas não se excluem, completam-se. Dificilmente se encontra algo comparável, em Portugal, uma zona limítrofe onde mais ninguém parecia aventurar-se.
Quais foram os principais desafios na recuperação, pesquisa e preparação do material sonoro e visual para esta edição?
O único grande desafio seria sempre a restauração do som de forma satisfatória. Rapidamente percebemos que não seria possível limpá-lo a um ponto que mascarasse a fonte. Então, porque também acreditamos que faz parte do ADN desta música, assume-se a baixa fidelidade, o zumbido da gravação original, trabalha-se só no sentido de encorpar os graves e controlar o melhor possível a estridência própria do som original, que é ao vivo. Por exemplo, a voz de Melo e Castro varia de qualidade consoante a proximidade da boca ao microfone e se tem efeito (neste caso, flanger) ou não. Desafio menor foi isolar 4 faixas, separá-las de forma suave.
Infelizmente, nenhuma informação extra existe nos arquivos, quer da RTP quer da Cooperativa Árvore, que possa ajudar a determinar a data exacta da actuação. Nenhuma documentação. Por isso, outros detalhes (e muito preciosos) foram mais uma vez encontrados online, beneficiando do trabalho de alguém que procurou mapear toda a série de programas Obrigatório Não Ver, de Ana Hatherly, transmitidos no então segundo canal da RTP. Assim, encontrou-se o texto lido por Hatherly no programa em que se exibiu esta actuação, em Fevereiro de 1979, tal como o texto enviado por Jorge Lima Barreto. Quanto à parte visual, foi proposto à designer Marta Ramos inspirar-se, de alguma forma, em trabalhos de poesia visual de E.M. de Melo e Castro. O tom azul na capa interior pretende replicar o azul da capa do já referido LP de Anar Band, uma vez que a música é sensivelmente da mesma fase estética do grupo.
Por fim, a identificação dos poemas lidos por Melo e Castro. Dois deles foram fáceis, os dois restantes não conseguimos identificar, mesmo com a ajuda da Eugénia Melo e Castro, que andou em consultas da obra do seu pai. Foram dados títulos de acordo com frases lidas. E transcrevemos o texto dos poemas (em encarte junto com o disco) a partir da oralidade.
Anar Band tem um lugar singular na história da música portuguesa experimental e pós-25 de Abril. Como vocês percebem o papel da banda na cena musical alternativa da década de 1970? E em que medida este concerto captura esse espírito de “agitação cultural” e improvisação que muitas vezes é mencionado?
Bom, eu tenho dificuldade em identificar qualquer “cena alternativa” na música portuguesa dessa década, de acordo com o que já conhecia e tanto quanto consegui investigar até ao momento. Com raiz no jazz, houve dois grupos, digamos, mais subversivos: um deles Plexus; o outro Anar Band (também Anar Jazz Group ou Anar Jazz Trio). Mesmo assim, e apesar de certa sintonia de valores, cada grupo seguiu caminho muito próprio. Talvez Plexus tenham estado mais próximos de uma cena, ao tocarem muito frequentemente e mais integrados num circuito jazz. Mas não se pode falar em alternativo ou alternativa.
Plexus tornaram-se residentes na Comuna, por um período, não me recordo se ainda em ’74, mas certamente em ’75, e aí é inegável poder falar-se em agitação cultural, até por via política, ou politizada, muito difícil de evitar nesse tempo. Anar Band, este concerto em Novembro de 1978, já está distante desse rebuliço, mas em encarnações prévias, Jorge Lima Barreto (mentor e único elemento constante) tudo fez para agitar: o público, os críticos, a ideia de jazz. Distribuição de manifestos nos concertos, artigos na imprensa, entrevistas que deu. Extremamente político, controverso, iconoclasta. Se a palavra “agitador” se aplicava, era com certeza a ele. Abrindo um pouco o foco, JLB integrava-se na socialização anarquista que mexia com o Porto, bem como na socialização artística (várias vertentes). Conheceu muita gente das artes, e com alguma dela veio a trabalhar e a conspirar.
Também o Rui Reininho era agitador, já antes de Anar Band e nem tanto por via da música — apesar de, consta, ter sido num evento em que tocava integrado no grupo Ténia que conheceu Jorge Lima Barreto. Mais por via da sua disposição pessoal, do seu carácter e maneira de estar na vida. A sua veia de performer é muito precoce, manifesta-se pelo menos no Liceu. Andava com os anarcas e com os revolucionários e os intelectuais (às vezes tudo isso junto nas mesmas pessoas), traduziu livros de pendor revolucionário, andava por aqui e por ali de cabelo pelos ombros (também consta que era um dois dois rapazes no liceu com o cabelo assim comprido) e roupa extravagante, divertido, embora também desconsolado, a chocar os transeuntes e a moral vigente, mesmo após o 25 de Abril (porque esse tipo de moral não mudou assim tanto). Quase se diria inevitável, o encontro criativo de duas pessoas assim, JLB e RR.
A improvisação em Anar Band era o statement, especialmente nos inícios. Por convicção e por falta de treino musical, obviamente. Também o modo como as coisas se combinavam. Conhecendo muita gente, parecia relativamente fácil combinar colaborações e actuações. Não quer dizer que acontecessem frequentemente. No caso de Anar Band, não foram tantas assim as apresentações ao vivo. Mas a influência de JLB fazia-se sentir em privado, em sua casa, junto das pessoas que lá juntava, e através dos seus textos na imprensa e livros publicados. Toda essa actividade com certeza retiraria tempo a uma dedicação mais plena à música ao vivo.
A presença de E.M. de Melo e Castro neste registo acrescenta um elemento poético e performativo que vai além da música. Como avaliam a contribuição dele para este espectáculo e para o diálogo entre música, poesia e performance artística em Portugal?
Muito estabelecida, em Portugal, a edição de discos de poesia. Mas voz apenas. Ao vivo, desconheço exemplos de interacção música/poesia a este nível. Em 1965 e ’67 aconteceram dois eventos interdisciplinares que talvez mais se aproximassem dessa interacção a um nível que se pode dizer experimental, arrojado, distante de saraus de poesia ou mesmo poesia musicada. Melo e Castro foi nome activo em ambos: um deles o Concerto e Audição Pictórica, outro a Conferência Objecto. Pessoa interessada no avanço, progresso, na modernidade, Melo e Castro foi também um agitador, um agregador, compilador, autor, ideólogo, proporcionador de ligações livres entre artes. Uma constante pesquisa no sentido de libertar a poesia da folha escrita, após ter contribuído para a sua libertação de formalismos antigos. No entanto, era numa certa antiguidade (período Barroco) que se inspirava para romper amarras, sendo que o Barroco é visto por algumas pessoas dedicadas ao seu estudo como, na verdade, um impulso de modernidade aplicável não só ao período que tem essa denominação de Barroco como a qualquer outro período em que se dão rupturas (falando das artes). Para cada Modernismo, um Pós-Modernismo. Algo assim. Melo e Castro foi pivot na agitação inter-artes em Portugal (e de outra forma no Brasil).
No contexto de reedições recentes de música experimental e histórica portuguesa, como posicionam este lançamento comparativamente com outros projectos do género?
Exemplo único, diria… A este nível, e com este sentido de missão, sem almofada ou uma família institucional por detrás (zero apoios, nada de GDA ou SPA ou outros afins), não me ocorre nada. Também por outro ângulo: o disco não se destina a um público erudito, ou intelectual, ou somente “das artes”. Nem o disco será apenas vendido em museus e galerias. O propósito é entrar no fluxo habitual de mercado, onde estará (em princípio) acessível a qualquer pessoa que o queira.
Finalmente, olhando para o futuro, que outros projectos ou títulos históricos gostariam de explorar ou trazer para uma nova geração de ouvintes?
Vários estão a ser pensados e trabalhados. Já trabalhámos em torno de discos de “ídolos” nossos: Nuno Rebelo, Tózé Ferreira, Telectu e Vítor Rua, para falar em nomes portugueses. No futuro, Portugal continuará na mira, mas não só Portugal. E depois, esse projecto de investigação sobre Telectu dará mais que um livro. Muito para fazer, felizmente.