Joana Gama, Luís Fernandes e Miquel Bernat do Drumming GP: “A arte é importante em todas as alturas da vida”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Susana Neves

Textures & Lines, trabalho assinado por Joana Gama, Luís Fernandes e por membros do Drumming GP, foi há um par de semanas editado pela Holuzam e mereceu atenção na mais recente edição da Oficina Radiofónica. “O que é óbvio quando nos permitimos o mergulho e optamos por um ‘deep listening’ de absoluta concentração no que nos é proposto neste Textures & Lines é o quão rico é o universo sónico aqui desenhado, um sofisticado e intrincado ecossistema de sons e pulsares, de linhas e texturas, de farrapos melódicos e névoas harmónicas, de passagens de entusiasmante irrequietude e momentos de sublime tranquilidade, um oceano sonoro que umas vezes pode soar denso, profundo e opaco e outras límpido, sereno e carregado de cor, como um idílico mar tropical povoado de corais onde se abriga uma rica e policromática vida’, escrevemos. Foi precisamente sobre esse “oceano sonoro” que nos debruçamos numa conversa mantida à distância, por e-mail, com a pianista Joana Gama, o homem dos sintetizadores modulares Luís Fernandes e o director do Drumming GP, Miquel Bernat.



Esta entrevista já poderia ter acontecido há algum tempo e teria, certamente, sido diferente, mas acontecendo neste momento tão especial, particular e estranho quero começar por vos perguntar se acreditam que a música pode desempenhar um papel decisivo nesta fase em que importa ajudar as pessoas a superarem o isolamento e a lidarem com todas as questões que lhes assaltam o pensamento?

[Joana] Estamos de facto a viver um momento muito particular. A vida é uma incógnita, mas há tempos, como estes, em que a incerteza toma proporções com as quais, nós europeus, se calhar não sonhávamos. Enquanto artistas acreditamos que a arte é importante em todas as alturas da vida, porque no fundo é indissociável da própria vida. Enquanto músicos temos uma faceta social – de partilha com o público, quer seja através dos concertos, quer seja através de discos — e uma faceta íntima — de trabalho individual, de estudo, ensaios, produção… Portanto neste tempo fora do comum, a faceta íntima mantém-se quase inalterada, para os instrumentistas há um trabalho de estudo diário que se mantém, e com o público a partilha é feita de outras formas. Ao longo dos anos fomos editando discos – mais este que lançámos recentemente – que podem agora ser escutados pela primeira vez por algumas pessoas, ou com mais atenção por outras. Trata-se de uma questão de disponibilidade, que pode ser mais ou menos fácil de atingir, consoante as condições em que as pessoas estão a viver a quarentena…

Cuidam de referir nas notas de lançamento que o disco só foi possível graças ao apoio institucional da Câmara Municipal do Porto e do Teatro Campo Alegre. Este tipo de música, digamos, “desafiante” (para não me alongar mais…), depende muito deste tipo de financiamento. Tendo em conta o impacto da pandemia que estamos a atravessar, estes apoios serão ainda mais cruciais no futuro. Que expectativas possuem em relação aos tempos vindouros? Positivas? Mais sombrias?

[Miquel] ​Ainda é difícil avaliar. Fácil, com certeza, não será e poucas vezes tem vindo a ser. Entrando numa crise ou recessão económica, as artes vão ressentir-se imediatamente. Mas também é possível que algum gestor ou político com visão, se aperceba o importante que é para a sociedade, para a educação, para a vida de cada um dos cidadãos, o acesso às experiências artísticas de qualidade. No fundo, a arte e a música podem não só melhorar a percepção do mundo nas pessoas, mas também ajudar no saber, no sentir, na qualidade que é poder ter experiências estéticas que elevem o espírito – isso melhora a sociedade. Não é por acaso que Winston Churchill na II Guerra Mundial aumentou o orçamento de cultura de Inglaterra, a sua visão para vencer passava, também, por aí. Penso que é com estas mudanças de paradigmas, através das artes e iluminismo, que se poderá vencer o impacto da pandemia. Por último só acrescentar que o CD foi possível com a ajuda da Câmara Municipal do Porto e também o Teatro Viriato e a DGArtes do Ministério de Cultura Português.

Falemos de música. Os créditos atribuem as composições a todos os músicos envolvidos: isso pode indicar que este trabalho resulta de composição espontânea, de improviso colectivo. Foi assim? Ou havia já ideias concretas antes de se terem juntado para a gravação final?

[Luís] O processo de composição que eu e a Joana utilizamos usualmente parte, precisamente, de sessões de improvisação nas quais exploramos ideias concretas, que definimos de antemão. Quando sentimos que o resultado musical nos parece interessante, focamo-nos nessas mesmas ideias para as aprimorar e esculpir composições de uma forma mais cerebral. Para este projecto com o Drumming GP, o processo iniciou também dessa forma, embora tivéssemos à priori acordado numa abordagem musical e de instrumentação a utilizar pelo Drumming GP, baseada fundamentalmente em instrumentos de lâminas que pudessem ser explorados a partir de técnicas expandidas. Como se quiséssemos tentar trazer o Drumming GP para o nosso universo.

Apresentámos um conjunto de ideias musicais que debatemos com o Drumming GP antes de nos juntarmos efectivamente para finalizar as composições, de forma conjunta, no Teatro do Campo Alegre e, posteriormente, no Rivoli.

A conjugação de instrumentos acústicos e electrónica tem uma longa história e recua, pelo menos, ao John Cage. Que referências podem apontar para este vosso trabalho na história das músicas de vanguarda? Podemos falar de certos momentos das obras de Harry Partch, Steve Reich, Terry Riley como eventuais marcos num percurso que possa ter conduzido até este Textures & Lines?

[Miquel] Não só esses grande nomes das músicas de vanguarda, mas também fomos contagiados de alguma forma por K.H. Stockhausen, Raphael Cendo, Wolfgang Mitterer, Fausto Romitelli, Fernando Villanueva, Octavi Rumbau ou Riccardo Nova.

[Luís] No campo da música electrónica também nos inspiramos nas ideias de música generativa de Brian Eno e na exploração da microtonalidade originada pela instabilidade dos circuitos analógicos. Nesse campo, nomes como James Tenney, Phill Niblock ou Catherine Christer Hennix são referências fundamentais para nós.

E quanto ao título? Texturas e linhas podem ser ideias basilares da música aqui apresentada, não? Qual o seu significado?

[Joana] Este título surgiu logo como premissa para a nossa colaboração e decidimos mantê-lo pois espelha o resultado final. Interessava-nos explorar as diferentes texturas que podem surgir através da manipulação no interior do piano (que é importante no nosso trabalho, desde o Quest), acrescentando texturas criadas por diversos objectos que os percussionistas trouxeram para a sala de ensaio, assim como o contraste entre texturas densas e texturas mais cristalinas… Ambientes saturados que, chegando a um limite, deixam surgir pequenas linhas melódicas no piano… Texturas lançadas pela electrónica que são mimetizadas pelos instrumentos, ostinatos no piano que dão origem a linhas melódicas na percussão… Enfim, há uma interligação entre os vários elementos, mas há esta ideia de coexistência entre texturas/ambientes/conjunto e linhas/melodias/solos.



Miquel, o vibrafone e a marimba e os gongos são parte do vosso arsenal, todos eles instrumentos muito usados por vários dos minimalistas americanos, como o Reich ou o Philip Glass, por exemplo. Podes falar, por favor, no carácter destes instrumentos, porque é que têm uma tradição tão rica no campo da música contempor​ânea?

[Miquel] A percussão, sendo ancestral, é contemporânea. Porque estes instrumentos têm-se infiltrado na cultura ocidental metamorfoseando-se na reencarnação do “som” da actualidade. Poderíamos talvez dizer que sintetizam o “som” da nossa sociedade, da nossa globalização; uma marimba, um gongo, leva-nos a África, à Ásia, integrando assim o étnico, o exótico no nosso quotidiano. Hoje em dia com a tecnologia estamos aqui e estamos em todo o lado e estes instrumentos expressam essa sonoridade de estarmos presentes em vários lugares, estando aqui.

No teu caso, Joana, imagino que estejamos a falar de um piano de cauda, certo? Nas múltiplas salas do país que tens visitado, desenvolveste alguma relação especial com algum piano em particular?

[Joana] Sim, nestes projectos com o Luís tenho usado o meu piano de cauda em todos os processos criativos, ainda que no Quest os primeiros ensaios tenham sido no Theatro Circo. Um piano de cauda é muito mais versátil em termos exploratórios do que um piano vertical. Tenho obviamente uma relação carinhosa com o meu piano, que me acompanha há muitos anos, e que já mudou de casa comigo várias vezes, mas para cada concerto tenho um piano diferente o que é sempre um grande desafio, pois cada piano tem a sua particularidade. Há dois pianos na Fundação Gulbenkian que me são muito queridos: num deles, mais antigo, toquei as Vexations de Erik Satie durante 14 horas em Janeiro de 2018 e o at the still point of the turning world, que apresentámos com a Orquestra Metropolitana no Grande Auditório a 28 de Janeiro de 2019. Nesse mesmo dia, fiz o recital Música Callada, uma peça de Federico Mompou, e nesse recital toquei no piano mais novo da Gulbenkian, um Steinway D que tinha pouco mais de um ano. Nunca tinha tocado num piano tão bom e tão novo… A limpidez do som daquele instrumento foi perfeita para o repertório que toquei nessa noite.

Luís, o sintetizador modular é um instrumento muito particular, certo? Já ouvi músicos que usam diferentes sistemas modulares a expressarem a dúvida “não sei se somos nós que os tocamos se são eles que nos tocam a nós…”. Como é, no teu caso, a relação com essa tecnologia particular e, uma vez mais, que relação tens com a sua história e alguns dos seus mais notáveis utilizadores?

[Luís] Tal como na maioria dos meus projectos musicais dos últimos anos, o instrumento que utilizei para este disco foi um sistema modular eurorack. Decidi dedicar-me aos sistemas modulares em 2011 e tenho desenvolvido uma relação muito próxima e personalizada com o instrumento. Tendo estes sistemas possibilidades quase ilimitadas na abordagem que possibilitam à síntese e processamento de sinal, sinto que é fundamental impor constrangimentos baseados nas nossas ideias musicais e composicionais, caso contrário é fácil dispersar e, assim, o instrumento acabar por não servir o propósito musical que deve ter. Abordo o sistema e defino a sua própria arquitectura a partir das ideias que quero explorar em cada projecto. Neste caso em concreto utilizei processos clássicos de síntese subtrativa, sampling e geração de material harmónico a partir de restrições impostas a geradores aleatórios de sinal.

Ouvindo o resultado final do disco, como é que cada um o entende e o descreve? Que música, afinal de contas, é esta a que resultou neste Textures & Lines?

[Joana] Em termos simples, este disco é o resultado deste encontro, neste preciso momento das nossas vidas. Para mim é suficiente partilhar o resultado final e deixar que cada um experiencie o álbum à sua maneira. Gostava só de referir que, nos concertos, a música é potenciada pelos visuais do Pedro Maia, que esperamos poder continuar a partilhar com o público num futuro não muito longínquo (digo “continuar a partilhar”, pois já fizemos concertos deste projecto no Teatro Rivoli e no Teatro Viriato em 2019).

[Luís] Pessoalmente preciso sempre de (muito) tempo para desenvolver uma perspectiva distante o suficiente para avaliar qualitativamente o que fiz. No entanto, o sentimento é claramente positivo. Acima de tudo foi um privilégio poder criar e dialogar com músicos tão talentosos, sensíveis e abertos a colaborar.

[Miquel] Nos anos 60 e 70, o rock abraçava uma ideia “sinfónica” e artística da música, os primeiros álbuns dos Genesis, King Crimson, Pink Floyd, Yes…. estes grupos procuraram priorizar e deixar-se ir pela imaginação em vez das regras comerciais: uma bateria/ritmo constante, uma duração de 3’30’’…, neste disco, salvando as distâncias e o tempo percorrido, penso que voltámos a pegar nestes ideais e nessa liberdade. Não nos sentimos pressionados pelo “sistema” porque este nos ignora, e por isso podemos assumir estes riscos e liberdades. Espero que aqueles que oiçam estas músicas sintam esta viagem da mesma maneira que nós a sentimos.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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