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Fotografia: Vera Marmelo

A pianista abre O Livro dos Sons de Hans Otte com um concerto na Culturgest, esta sexta-feira.

Joana Gama: “Esta música faz-me sentir que estou no meu caminho, a tocar aquilo que gosto”

Fotografia: Vera Marmelo

Joana Gama é uma pianista especial, diferente, que investe no seu trabalho uma generosa dose de estudo, de exploração, de experimentação também. Este ano ouvimo-la já, em disco, ao lado de Luís Fernandes e do colectivo Drumming GP no trabalho Textures & Lines, lançado pela Holuzam. Mas, na verdade, para lá do seu já considerável acervo de projectos colaborativos, há um caminho de exploração da linguagem do piano solo que já conta uma década, como a própria nos explica, numa das respostas a um conjunto de perguntas enviado por email.

Depois de já ter abordado a obra e o espírito Erik Satie ou John Cage, dois grandes compositores do século XX que, cada um à sua maneira, souberam acercar-se do silêncio, eis que, a convite da Culturgest, Joana Gama mergulha agora na obra que o compositor Hans Otte escreveu entre 1979 e 1982, O Livro dos Sons (Das Buch der Klänge).

A apresentação de Joana Gama que terá lugar já esta sexta feira, dia 9 de Outubro, pelas 21 horas, integra um programa especial dedicado ao compositor falecido em 2007.

Explica a instituição: “Com esta magnífica obra, inicia-se um programa ambicioso dedicado a Hans Otte que se prolongará no tempo. A Culturgest associa-se a este arranque para, num futuro próximo, outras músicas, objetos artísticos e conversas colocarem o nome e as ideias deste compositor alemão nas páginas dos nossos diários. (…)

A força, a importância e o impacto da música de Hans Otte serão ainda desdobradas numa série de peças a solo encomendadas a um grupo de músicos que fazem de Lisboa a sua casa. Norberto Lobo, Helena Espvall, Bernardo Álvares, Violeta Azevedo, Pedro Melo Alves e Joana da Conceição pegaram n’O Livro dos Sons e adaptaram-no aos seus instrumentos e linguagens, mostrando quão longe pode fazer-nos viajar e sonhar uma obra-prima. A compilação deste tributo de seis peças-concerto a solo será exclusivamente mostrado em formato filme e exibido, unicamente, online.”

Antes disso, já amanhã, dia 8, pelas 19 horas, a pianista estará no Goethe Institut para apresentar uma Palestra ao Piano sobre Hans Otte, oportunidade para Joana Gama discorrer sobre “sobre a vida e obra do compositor alemão, interpretando igualmente alguns excertos ao piano”.



Como é que contactaste pela primeira vez com a obra de Hans Otte (1926 – 2007)?

Em 2010 recebi um email de um amigo com o título Hans Otte. O email continha apenas a frase “Para o caso de não conheceres…” e, como anexo, o primeiro andamento do ciclo para piano O Livro dos Sons / Das Buch der Klänge interpretado pelo próprio compositor. De facto desconhecia o compositor e esta música, pela qual fiquei fascinada desde o primeiro momento e que me levou a ouvir todo o ciclo e a querer saber mais sobre o homem por detrás da música. Nesse processo, foi essencial o livro de Ingo Ahmels Hans Otte – Klang der Klänge / Sound of Sounds (Schott, 2006).

Falando especificamente d’O Livro dos Sons (e estou a escutar agora mesmo uma leitura de Ralph van Raat), o que é que te capturou a imaginação nessa obra?

Antes de responder à pergunta, permite-se sugerir que oiças as interpretações do próprio Hans Otte (Celestial Harmonies, 2006) e de Herbert Henck (ECM, 1999) que aprecio mais.

Assim farei, obrigado. A versão que referi foi apenas a primeira com que me deparei, na verdade…

O interesse por esta obra resulta do facto de me parecer simultaneamente simples e exuberante, em que muito é dito com muito pouco. A estrutura das peças é simples — há peças que são apenas acordes, uma delas que se trata apenas de uma linha melódica tocada com uma mão, outras têm apenas padrões arpejados — e muitas vezes a música termina como começa: há uma ideia de viagem e de regresso ao ponto de partida, uma ideia circular, de equilíbrio. Agradou-me sentir a herança da tradição da música clássica trabalhada de uma forma (discretamente) original.

A música tem esta capacidade única e misteriosa de nos falar sobre os tempos em que vivemos, de nos ajudar a compreender o mundo e de nos apontar o caminho da luz, de nos transmitir paz. Achas que O Livro dos Sons ganha um novo significado neste momento estranho em que todos vivemos imersos agora?

Compreendo quem se sinta impelido a relacionar-se artisticamente com a realidade de uma forma mais agressiva e desafiadora, mas eu procuro sempre a luz, daí que esta obra tenha tido este eco em mim, desde o primeiro momento. E lembro-me de algo que Hans Otte referiu numa entrevista: “Estou grato a John Cage pela chamada de atenção para os sons ‘tal como são’, a sua atitude perante os sons e as coisas do nosso mundo: a arte do deixar ir, do deixar ser, do deixar acontecer”. Há por isso a ideia de aceitar estes tempos, observar o que está acontecer, mas não deixar que isso mate os nossos sonhos. O Livro dos Sons é simultaneamente luminoso e melancólico, que é como sinto a vida.

Este registo de piano solo é, imagino, muito exigente, tecnicamente e emocionalmente. Como é que te preparas para uma interpretação assim?

No fundo estou a preparar-me há 10 anos, muito lentamente. Comecei por ouvir as peças, comprar as partituras, mas só este ano me sentei ao piano para estudar a obra e sinto que este concerto na Culturgest é apenas uma primeira paragem neste caminho de descoberta e partilha da obra. Inicialmente houve um momento moroso de comparação entre o manuscrito original, a partitura editada e as diferentes gravações da obra por Hans Otte — uma fase obsessiva de tentar perceber a forma certa – de um ponto de vista académico — de abordar esta obra. Isto para chegar à conclusão que tinha de encontrar dentro de mim as respostas, pois o compositor deixa uma série de elementos em aberto, para que seja o intérprete a decidir, o que considero um acto de humildade, por oposição aos compositores que têm uma imagem sonora rígida da obra e que, o que não corresponder a essa ideia, está errado. Ao contrário de muitas obras que têm passagens difíceis que demoram meses até se conseguirem deixar dominar, o trabalho nesta obra incide em perceber as subtilezas de cada peça e transportá-las para o piano. Depois há a questão da respiração, um elemento muito importante para Hans Otte. Houve também o processo de memorizar a obra: passei por um momento em que temi que não a conseguisse memorizar, mas aceitei o tempo que demorou a sua  interiorização e agora já a “percebo”, e a memória não é um problema. Depois há o concerto: gosto muito desta duração de c. 75’, como se fosse uma viagem de comboio em que a paisagem que vemos pela janela vai mudando. Por mais que seja estranho de verbalizar, sinto-me também ouvinte, porque procuro distanciar-me do que estou a fazer e deixar que a música aconteça quase sem a minha intervenção.

Falando das tuas apresentações em piano solo, já abordaste no passado a obra de Satie, por exemplo. Há uma ligação entre estes compositores em que vais mergulhando, há uma linha condutora entre estas tuas diferentes aventuras?

Sim. Aliás, só no outro dia me apercebi que foi em 2010 que “descobri” estes dois compositores: no dia 25 de Abril fiz o recital Erik Satie, O Peripatético no CCB (o ponto de partida para o trabalho que vim a desenvolver à volta do compositor), no dia 10 de Maio estava a receber o email do Hugo com a música de Hans Otte e no dia 21 estava a escrever a Ingo Ahmels, com questões sobre Hans Otte. E no meio, claro, há John Cage, o elo de ligação entre ambos. E também Federico Mompou, cuja obra Musica Callada, que toquei na Gulbenkian em 2019, acaba por ter semelhança com O Livro dos Sons. São compositores, pessoas, que admiro, pela sua entrega à descoberta do som. Enquanto Satie, Otte e Mompou foram compositores discretamente evolucionários, Cage foi o revolucionário de gargalhada fácil que a Arte — e o mundo — tanto precisava.

Esta tua interpretação d’O Livro dos Sons resulta de uma encomenda da Culturgest que chega num momento muito particular para a cultura. Será também apresentada de forma diferente. Sentes que, de alguma forma, esta generosa entrega desta peça ao mundo que a ela se quiser ligar digitalmente é também uma espécie de missão humanitária? Pode a música, e sobretudo este tipo de música, ajudar a curar o mundo?

Este evento tripartido — a minha palestra no Goethe no dia 8, o concerto de O Livro dos Sons na Culturgest no dia 9 e o Abrindo o Livro dos Sons (seis peças que resultam do trabalho de Norberto Lobo, Helena Espvall, Bernardo Álvares, Violeta Azevedo, Pedro Melo Alves e Joana da Conceição sobre O Livro dos Sons) que será apresentado em forma de filme, em streaming, no dia 10 — é uma forma muito bonita e simbólica de introduzir a obra de Hans Otte em Portugal (salvaguardando os melónamos sortudos que já conhecem a sua obra há mais tempo que eu). Uma coisa que me ajudou durante a quarentena, enquanto estudava piano, foi pensar em estar a fazer algo de que gostava, e que iria partilhar, quando fosse possível. A determinada altura escrevi à filha de Hans Otte, a fotógrafa Silvia Otte, para lhe dizer o quão bem me estava a fazer estudar aquela música. Aliás, há vários relatos de pessoas que tiveram experiências profundas ao escutarem Hans Otte em concerto, uma sensação especialmente comovente por ser a próprio compositor a interpretar O Livro dos Sons.

Descobriste alguma coisa sobre ti, pessoal ou artisticamente, ao “leres” este Livro dos Sons?

É bom que a oportunidade de estudar a fundo a obra e tocá-la em público venha só agora, acho mesmo que é a altura certa, pela influência do que já vivi e do que já toquei têm na minha interpretação. Esta música faz-me sentir que estou no meu caminho, a tocar aquilo que gosto, e que faz sentido para mim partilhar. Hans Otte foi um homem que se dedicou muito à divulgação da obra de outros — como director da Radio Bremen e programador de festivais — por isso tocar a sua música hoje é também fazer por ele o que fez por outros. Uma forma serena de “pay it forward”.

Finalmente, depois desta apresentação que outras aventuras musicais tens já planeadas que nos possas antecipar?

Vou continuar a trabalhar com Ingo Ahmels — assistente de Hans Otte até à morte do compositor — para um outro projecto que deverá ocorrer em 2021, com o apoio do Goethe Institut; vou estrear no dia 17 de Outubro, na Fundação Lapa do Lobo, um concerto comentado para crianças intitulado As árvores na têm pernas para andar – com música original para toy piano do João Godinho e ilustrações do Francisco Eduardo – que estará em itinerância em 2021; os concertos de lançamento do Textures&Lines foram reagendados e acontecerão nos dias 19 de Novembro na Culturgest e 22 de Novembro no Cine-Teatro Louletano. E, depois do concerto no Bons Sons no ano passado, voltarei ao trabalho com as Sopa de Pedra.


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