Jessie Ware no EDP Cool Jazz: primeiro o flirt, depois conquistou-nos o coração

[TEXTO] Vera Brito [FOTOS] Hélder White

Muitas coisas aconteceram na vida de Jessie Ware desde a sua última visita a Portugal. Dois discos, um casamento e uma filha, foi a própria quem nos deu conta destes factos ontem, em mais um dia do EDP Cool Jazz. Talvez por isso não tivesse existido escolha mais acertada para abrir o concerto que “Sam”, do seu último disco Glasshouse, música que condensa todos estes três acontecimentos. Uma declaração de amor ao seu marido e uma porta entreaberta para algumas inseguranças e feridas do passado, algo que raramente encontramos nas suas letras com esta franqueza. Um início de concerto intimista e emocional que nos apanhou um pouco de surpresa.

A sorridente “Your Domino” chegou logo de seguida para suavizar o momento. Esta é a Jessie Ware que conhecemos melhor, aquela capaz de tornar ligeiras as mais diversas dores de coração. “Running”, na sequência e com compasso mais lento e voluptuoso, trouxe ainda uma outra forma de sarar corações abandonados, com aquele deleite perverso de quem encontra prazer na dor, “I’m ready to run, ready to fall, Think I’m ready to loose it all”.

Três músicas apenas e já vimos três Jessies diferentes. Mantendo poses elegantes, por vezes com trejeitos de diva, no final de algumas músicas solta-se-lhe muitas vezes o riso, de quem afinal não se está a levar assim tanto a sério. É esta sua espontaneidade, confessamos, que mais nos cativa. Afinal isto é um flirt que diz estar a fazer connosco, para nos soltar e pôr a cantar, até aqueles que estão confortavelmente sentados na plateia.

Mas ainda vamos sensivelmente a meio do concerto e parece-nos que é Jessie Ware quem aos poucos se vai soltando cada vez mais. Demora-se num pedido de desculpas pelo concerto que cancelou no final do ano passado e não consegue conter uma pequena gargalhada (nem nós) quando começa a cantar “I guess you wonder where I’ve been” na sua versão para “What You Won’t Do for Love”, de Bobby Caldwell. Se foi uma piada estudada ou um acaso espirituoso pouco importa, não lhe dissemos ainda mas a verdade é que lhe perdoámos a ausência no momento em que subiu ao palco.

Depois do belíssimo concerto em que Jordan Rakei nos deslumbrou com a sua voz segura e quente de soul, parecia-nos difícil que alguém fosse capaz de lhe roubar a noite. Mas por esta altura Jessie Ware já conquistou definitivamente o nosso coração com a sua naturalidade em palco, maravilhando-nos também com várias interpretações irrepreensíveis, carregadas de sentimento. Aqueles agudos de “Midnight”, ridiculamente difíceis de alcançar, pareceram-nos descaradamente fáceis para a britânica.

Ao terminar com a muito esperada “Wildest Moments”, convidou todos a aproximarem-se do palco. As crianças, que ainda não conhecem o pudores da idade, foram as primeiras a correr para si. Ficou a vontade de ver um encore, mas Jessie Ware pede a nossa compreensão: esta seria mesmo a última da noite porque agora é ela quem vai correr para a sua criança, a maior responsável por esta Jessie Ware cada vez mais humana e mais próxima de nós.

 


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