Jeff Mills, o feiticeiro do techno

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Depois de, em 2018, ter tentado elevar Viana do Castelo a “capital do techno”, o mote para a edição deste ano do NEOPOP prende-se com “manter o techno em segurança”. E preservar a existência do género que nasceu em Detroit só seria possível com a ajuda de um dos seus pilares, numa altura em que este já se encontra longe dos seus primórdios, uma música que move massas e que se descolou quase por completo da angústia social e política que a alimentava no início da década de 80. No próximo sábado, dia 10 de Agosto, Jeff Mills vai colocar em prática as boas maneiras das quais o techno nunca se deve afastar, no NEOPOP, repetindo a dose em Lisboa, no Brunch Electronik, no dia seguinte.

Minimal, pujante e a roçar o industrial: é esta a melhor forma de catalogar a música de Jeff Mills, produto de uma segunda vaga de artistas provenientes da cena electrónica de Detroit, directamente influenciados pelos “pais” do género, com Juan Atkins e Derrick May à cabeça. Mas na prática, Mills faz parte do lote dos pioneiros do techno, impulsionando o movimento apenas como DJ, à data mais conhecido como The Wizard, durante uma década, antes de se estrear nas edições, apresentando o que de melhor se ouvia nas ruas em programas de rádio ou em residências em vários clubes na sua cidade.

Inúmeras vezes esquecido como ponto de partida para o negócio da colossal EDM, que hoje gera largos milhões (se não milhares de milhões) de euros, o techno de Detroit não chegou a viver uma época dourada. No documentário God Said Give ‘Em Drum Machines, Jeff Mills refere mesmo que “não existe uma história” sobre o posicionamento de Detroit no mapa da electrónica, e que o filme apenas “tenta contar a história daquilo que poderia ter havido.” Os terrenos férteis da cidade rapidamente secaram, com a falta de oportunidades para a música de dança naquela época a “empurrar” alguns dos seus maiores símbolos para a Europa em busca de estabilidade financeira.

No caso de Mills, o destino foi a capital alemã, que viu na sua sonoridade uma digna sucessão à proposta musical apresentada por projectos como os Kraftwerk. Depois de ter formado (e abandonado precocemente) a mítica Underground Resistance, juntamente com Mike Banks e Robert Hood, o DJ e produtor apostou numa carreira a solo, estreando-se na Tresor Records, selo discográfico pertencente ao club berlinense que o acolhera enquanto residente, com o seminal Waveform Transmission Volume 1, de 1992. Em 2014, a NME destacou o disco numa lista de “40 Álbuns Que Mudaram a Música de Dança Para Sempre”, pelas “linhas de sintetizador que nos esmagam o crânio”, descrevendo as suas melodias como “bombas de adrenalina sedentas de sangue”.

Jeff Mills não parou de editar música nova desde então, contando com várias dezenas de lançamentos no seu portefólio, a maioria deles selados pela sua Axis Records. E apesar das raízes assentes na música electrónica criada com a ajuda de sintetizadores, drum machines e sequenciadores, os ritmos que lhe saem do pulso já mereceram colaborações com artistas de outros meios completamente distintos, como aconteceu, por exemplo em Blue Potential, um LP gravado ao vivo com a Montpellier Philharmonic Orchestra, em 2005, ou, mais recentemente, Tomorrow Comes The Harvest, um disco a meias com o lendário baterista Tony Allen, que mereceu a atenção da histórica Blue Note Records.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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