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Fotografia: Direitos Reservados

O selo nortenho vai buscar inspiração às actualizações "jazzísticas" que vão surgindo entre Melbourne e Londres.

Jazzego: “Queremos matar esse elitismo que existe na cena jazz clássica”

Fotografia: Direitos Reservados

Há dois anos, Hugo Oliveira (Minus & MRDolly) partilhou connosco que tinha vontade de se aproximar de outros estilos de electrónica em torno do jazz, a sua escola. Juntou- se a André Carvalho e a dupla lançou Jazzego, um carimbo que pretende apadrinhar a música que reflecte a “visão abrangente e inclusiva do jazz” de ambos, e que ganha agora um epicentro natural no Porto.

Fomos conhecer a missão e o trabalho de estreia desta editora, e como está a dar os primeiros passos na sombra do isolamento social e das suas repercussões no mercado da musica.



Comecemos pelo nome, que é bem peculiar. Vocês dizem que a Jazzego pretende “enterrar o ego da indústria musical”. Na vossa opinião, que problemas de ego está a indústria a viver neste momento?

[André Carvalho] Tanto eu como o Hugo tivemos projectos anteriores que não correram bem ou que acabaram por algum motivo. O próprio nome é uma brincadeira com isso — enterrámos alguns projectos passados, tirámos as lições que tínhamos a tirar e começámos uma coisa nova. Para além dessa há outra associação, que se relaciona com a nossa visão do que é o jazz. Se calhar o pessoal da escola de jazz do Porto ou da ESMAE vai ouvir [os nossos lançamentos] e não vão achar que é jazz, vão achar que são beats ou [que é] hip hop. O nome é também uma brincadeira com isso. Queremos matar esse elitismo que existe na cena jazz clássica.

[Hugo Oliveira] A revisão do Sérgio Alves (AZAR) do Bitches Brew não é um standard, não vem da escola “normal” em que estudas com um combo e trabalhas com o teu instrumento, mas pode ser considerado jazz. Não há mudanças de tonalidade, mas há mudanças de pitch. É outra maneira de fazer as coisas.

Acham que o próprio género tem problemas de ego?

[Hugo] Acho que é mais a associação ao nome. É como com a música clássica, actualmente há muita gente com uma nova abordagem ao género, como o Nills Frahm.

[André] A nova cena de jazz britânico abriu a cabeça de muitas pessoas. O pessoal da Jazz Re:freshed, por exemplo, estudou jazz mas também faz beats de hip hop. É um novo cruzamento de sonoridades, que antigamente encaixávamos no soulful house. Achámos que havia muita gente no Porto que tinha essa abordagem mais “jazzística” aos samples e ao beatmaking, como o Minus ou o AZAR, e que havia aqui um espaço para explorar e uma marca para fazer.

Falta na cidade alguma entidade que vele pela “nova vaga de jazz”?

[Hugo] Temos um grande carimbo aqui no Porto que faz isso, a Porta-Jazz. Adoro os projectos e os músicos, e até acho que cada vez mais têm feito coisas alternativas ao jazz mais convencional. Mas acho que a Jazzego acaba por ser principalmente uma forma de expressão para músicos que não se assumem como músicos de jazz. O Sérgio, por exemplo, para além de produtor é DJ desde os 11 anos.

[André] Outro exemplo é a Clean Feed. Para mim, é capaz de ser a principal editora de jazz contemporâneo a nível global. Mas não estou à espera que lancem um álbum de hip hop instrumental no futuro. Nós não descuramos isso, porque pode haver jazz no hip hop. E admito que teria alguma dificuldade em investir e lançar algo que sentisse que já tivesse sido feito umas 5000 vezes desde os anos 40.

Deram os vossos primeiros sinais de vida com Miles Davis – AZAR Reworks, quatro “remisturas” de Bitches Brew pelo produtor AZAR. Há alguma história por trás deste lançamento?

[André] O Sérgio é fã do Miles, acho que esse é o principal motivo [para o lançamento]. Pegou no facto de ser o 50º aniversário do Bitches Brew e quis fazer alguma coisa. Nós já tínhamos o single dele pronto, mas quando se meteu o COVID resolvemos adiar este lançamento. Contudo, como queríamos pôr coisas cá fora, desafiamos o Sérgio a lançar os reworks com algum critério.

[Hugo] Foi também um incentivo para o Sérgio, porque ele gosta muito de fazer reworks e experimentar material “jazzístico”. E também senti a pressão do COVID nele. Ele estava parado em casa e queria ser produtivo.

Sei que preparam o seu EP de lançamento, e que este antecede um trabalho de apresentação maior. O que esperar deste EP?

[Hugo] É um disco de originais com temas escritos e produzidos pelo AZAR. Para além dos temas tocados há três remixes, do K15, do Esa Williams e do Minus. Fora estes, o disco é todo composto por temas originais escritos pelo Sérgio. E se tivesse que o pôr numa categoria seria jazz, ainda que hajam samples.

Esses remixes são os temas mais próximos de Miles Davis – AZAR Reworks?

[Hugo] A abordagem foi diferente, porque quem fez os remixes teve as pistas completas das gravações. Todos os instrumentos foram gravados, com o Bruno Macedo no baixo, o Ricardo Danim na bateria, o Manu Idhra nas percussões, o João Samuel no saxofone e flauta, o João Seco no trombone, o João Sousa no trompete e a Helena Neto na voz.

[André] Estava a pensar em algum termo de comparação mas em Portugal não há algo parecido. E esse é um bocado o feedback que temos recebido. O mais perto que conhecem desta abordagem do jazz misturado com electrónica no processo de construção da música são os Cool Hipnoise.

Mas vocês não são revivalistas.

[André] Não. A linguagem da Jazzego é uma evolução da linguagem musical que se tem vindo a sentir desde 2017 na Europa toda e na Austrália.

A quarentena teve um efeito nostálgico no consumo de música. Fechadas em casa, muitas pessoas voltaram a sua atenção para as suas colecções de discos. Como é que uma nova editora, com uma proposta musical fresca, reage a este fenómeno?

[Hugo] Isso também tem a haver com os géneros. Para os que se focam nas edições físicas, pouca coisa saiu. Mas por exemplo o rap tuga, que vive muito de lançamentos digitais, aí continuam a sair cenas novas.

[André] Vivemos um período de alguma incerteza. Há muita gente com medo de gastar dinheiro, consumidores e editores. E em editoras como a nossa, onde o dinheiro sai do nosso bolso, todos os movimentos têm que ser bem pensados. Neste momento, estamos a avaliar formas de usar o domínio digital e outras para dar seguimento ao projecto.

[Hugo] Foi bom para descomplexificar o mercado digital. Eu gosto de música editada fisicamente, mas este contexto foi importante para perceber que há coisas para as quais o digital faz sentido.

[André] As edições físicas estão numa fase de mudança, e a edição de discos então… Está a ter um ano mau. Começou com o incêndio da Apollo Masters em Fevereiro. Para contextualizar, a produção de vinis tradicional é feita através de lacquers, que são chapas metálicas onde são feitas o negativo do disco. Depois são postas numa prensa gigante e são prensados vários discos. No mundo todo, existem duas fábricas que produzem lacquers, uma delas é a Apollo. Seria a fábrica com quem íamos trabalhar para fazer o disco do Sérgio, que já nos avisou que os preços estão a subir mensalmente porque a oferta de produção, que já era curta, ficou muito mais curta.

[Hugo] Para nós é uma cena super angustiante. Para o Sérgio também. Queríamos arrancar com a Jazzego em força e neste momento não o podemos fazer.

[André] As editoras já estão a mudar abordagens. O mercado já está em transformação.


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