“Já Passa” é o novo vídeo dos Wet Bed Gang

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Direitos Reservados

Os Wet Bed Gang acabam de lançar o vídeo para “Já Passa”, uma das faixas que faz parte do EP de estreia Filhos do Rossi.

Depois do documentário Pôr a minha vida no teu ouvido, André C. Santos volta a colaborar com o grupo composto por Gson, Zizzy, Kroa e Zara G num sério candidato a vídeo do ano em território português.

Estivemos à conversa com o realizador e dissecámos o mais recente trabalho audiovisual:

 



[A consciência social em “Já Passa”] 

“Nos tempos que correm há espaço para festa e consciência. O que eu assisto a maior parte das vezes é alusivo a festa, entretenimento barato ou algo visualmente atractivo e pouco mais. Contudo, os Wet Bed Gang provaram nesta faixa que, apesar da tenra idade, demonstram já uma forte experiência social real, à qual eu tentei dar imagem, reforçando mensagens subliminares ou mais evidentes da letra do ‘Já Passa’. ‘Lembra-te os tugas dançam melhor do que pensam, por isso é que as rádios só passam sons de amor e festa, por isso é que temos mais discotecas que bibliotecas’. Esta é uma das frases que mais marcou a minha adolescência no que toca a reportório de sons de hip hop tuga e, claramente, influenciou e influencia a maneira como abordo quase todos os videoclipes que faço e a forma em que tento apelar a alguma consciência social. Esta música tem cerca de 6 minutos que transformei, juntamente com uma equipa fantástica, em quase 8 minutos de vídeo justamente nesse sentido de desbloquear e de certa forma chamar a atenção para alguns dos muitos problemas que ainda existem e que não podem ser ignorados.”

 


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[Kendrick Lamar, Flying Lotus e a importância da conceptualização]

“Sou fã dos conceitos e da estética que o Kendrick Lamar impõe nos videoclipes! Chego a fazer download dos vídeos e abri-los no Premiere para poder perceber quase frame a frame a técnica, a construção, a narrativa, o ritmo, etc… E o Kendrick, principalmente neste último álbum DAMN., quase escolhe a dedo os realizadores para cada faixa, e se formos posteriormente pesquisar o trabalho desses realizadores percebemos o porquê. Como na ‘Element’, realizado pelo Jonas Lindstroem, ao vermos o trabalho dele percebemos o porquê da escolha para essa faixa. Com isto quero dizer que sim, é uma inspiração e continuará a ser, e como consumidor do trabalho musical e visual dele, é quase óbvio encontrar algumas referências em vídeos que desenvolvo, sejam eles videoclipes ou não. Essa cena específica [o miúdo a atirar nos WBG] foi inspirada num outro videoclipe do Flying Lotus, ‘Until The Quiet Comes’, realizado pelo Kahlill Joseph, em que logo no primeiro minuto vemos uma criança a disparar sem arma e a bala faz ricochete e abate-o. Na ‘Alright’ é um policia que dispara contra o Kendrick. São duas cenas visualmente chocantes e que criam um mal-estar interior, e foi com base nessa sensação que criei essa cena do miúdo, o Mô, a disparar contra os quatro membros da Wet.”

 


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[O processo criativo do vídeo] 

“A criação deste vídeo não foi nada fácil. Eles quando me pediram para realizar o vídeo desta faixa disseram-me prontamente que não tinham ideias e a única coisa que queriam era que não fosse mais um, que tivesse algo de diferente, e assim me foi deixado o desafio, Após algumas semanas a ouvir a música repetidamente, a imaginar e a escrever algumas histórias, cheguei ao conceito que está presente no vídeo e a forma como o iria contar em termos estéticos. Desenvolvi um argumento que debati com algumas pessoas da minha confiança para o aprimorar, até que o apresentei ao Gson e ao Zizzy e juntos fechámos o argumento a 100%. A seguir, apresentei as personagens e começámos a encaixar pessoal do bairro nas mesmas. A minha única certeza era que não queria ‘actores’ mas sim pessoas reais, que, de alguma forma, se identificavam ou até mesmo experienciaram as histórias, que fossem de Vialonga e próximos da Wet. Sempre me fascinou a facilidade com que a maioria das pessoas que conheço em Vialonga (e de outros bairros sociais) interpretam uma determinada personagem! Fazem-no sem medo e às vezes com melhor performance do que alguém já experiente e com vícios de interpretação. Eles não sabem, mas quase todos têm que interpretar por obrigação um papel no dia a dia.”

 

 


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[Como contar uma história]

“A forma como está montado o videoclipe é justamente para causar algum déjà vu nas histórias que estão a ser contadas. Há um corte na acção, mas não no tempo em que decorre essa acção. O facto de andarmos constantemente para trás e para a frente funciona como uma crítica ao constante recuar e avançar nas questões que são abordadas no videoclipe, como o racismo, educação, aborto e poder/dinheiro. Há uma réstia de esperança algures no vídeo, mas se são essas as questões que teimamos em ignorar, a debater com ignorância, a tomar decisões com base em interesses, vai ser sempre isso que as crianças vão consumir e crescer com esses ideais. E é claro que vai sempre influenciar o seu desenvolvimento e isso tem as suas consequências que, no caso neste videoclipe, a criança acaba por reproduzir o que viu e registou.”

 


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