IVVVO // doG

[TEXTO] Vasco Completo

Em 2013, quando passou pelo na altura ainda denominado Optimus Alive, Amanda Ribeiro, numa pequena entrevista para o Público, perguntava a Ivo Pacheco: “Em todas as tuas identidades, musical e visualmente, parece haver uma linha sombria e misteriosa. É uma procura?”. Num tom frontal que adoptou ao longo da entrevista, o produtor respondeu: “Não penso muito nisso, sou assim, podia acordar amanhã, escrever temas pop e estar a tocar em todos os clubes do mundo, mas preciso questionar a motivação por detrás disso”. Esta é uma das evidências de que a produção do músico português é natural, fruto do que lhe vai na alma. Ou, pelo menos, seria assim há seis anos.

Nesse sentido, a capa do mais recente álbum de IVVVO pode também ser um reflexo do que se passa musical e emocionalmente em doG, uma série de canções que partem de um lugar muito íntimo, de uma motivação que o artista precisa de expressar sobre um mundo feito de várias nuances: da acutilância à catarse e do abismo ao poder, passando pela contemplação e pela beleza.

O sample “animalesco” da voz de Jonathan Davis, vocalista dos Korn, na primeira faixa define logo o tom do disco. Mostra uma agressividade quase dissonante que surge sobre o tema melódico, algo que é recorrente no álbum – volta a aparecer a melodia com uma desenvoltura tímbrica aproximada em “Punk” e “Pearl”. E é aqui que apreendemos a direcção experimental escolhida por IVVVO.

À volta dos sintetizadores, o álbum proporciona uma viagem ímpar, que nos leva para diferentes referências, aproximando-se de alguma música que se faz “lá fora”, mas não só: a estética de “Face” relembra, em certos momentos, Matrafona, EP de Odete, muito por culpa do uso da voz sintetizada. O tema apresenta um dos grooves mais dançáveis do disco, e uma das melodias mais memoráveis. Também há algo de Moderat nos sintetizadores abrasivos e, mais concretamente, no desenvolvimento harmónico de “Last Days”, uma das duas músicas em que surge o único convidado do disco, Maxwell Sterling.



Os coros sintetizados, presentes ao longo do alinhamento, carregam muito da componente humana de doG. Timbricamente ainda convém referir Oneohtrix Point Never ou Ben Frost como produtores com quem Ivo Pacheco pode ombrear ao nível de design sonoro, tendo em conta este longa-duração. “Blade”, por outro lado, podia ter sido uma criação de Nils Frahm ou Steve Hauschildt e representa um dos momentos em que se afasta mais do cômputo geral. Porém, a coesão não se perde e acabamos por assistir a uma expansão bem-sucedida das ambições de doG.

Enquanto trabalhos anteriores como Theories of Anxiety ou Prince Of Grunge foram apostas mais tradicionais no techno ou na electrónica ambient mais downtempo e mais dedicada ao espaço que às batidas destrutivas, doG é composto por diversos elementos da electrónica contemporânea – “hipermoderna”, tal como foi descrita pela editora no Bandcamp –, numa junção sem limites definidos ou definitivos. É um trabalho mais ambicioso, quase sobre-humano, digno de vários replays.

O maximalismo que compõe toda a sonoridade do disco vai de encontro ao título, um doG que também pode ser God. Uma reflexão sobre o que há para lá da cortina e uma procura pelos extremos sónicos e humanos.


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