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Ilustração: BLK

A apanhar os ventos de mudança.

Interruptor: “Não nadamos à superfície, mergulhamos a fundo”

Ilustração: BLK

Há uma nova revista multimédia independente em Portugal. Ontem, dia 7 de Setembro, o Interruptor instalou-se na World Wide Web e lançou-se com três artigos longos, dois deles parte da série “Estamos a ouvir mais música portuguesa?“.

A proposta deste novo projecto liderado por Rute Correia (que já assinou peças como esta no Rimas e Batidas) está bem explícita no editorial de lançamento e também no Sobre: existirá espaço para textos que exigem tempo e pesquisa, “as vozes que se escondem por trás dos dados” e “inovação e experimentação”. Será, acima de tudo, “um lugar onde se repensa a cultura com calma, mas também com criatividade”.

Quisemos saber mais sobre de onde veio, onde está e para onde vai este Interruptor e encontrámos algumas reflexões importantes que deveriam servir de início de conversa para todo o universo do jornalismo (musical e não só) português.



Pelo editorial de lançamento, dá para perceber que o Interruptor é “fruto de inspiração” vinda de “sítios” como “o Shifter, do Jornal Mapa, do Gerador, do Fumaça e do Divergente”. Indo mais a fundo: quando é que decidiste que ias fundar este projecto e o que é que te levou até essa decisão?

Acho que a ideia do Interruptor surgiu de forma difusa talvez há cerca de um ano e meio ou dois. Começou por ser simplesmente algo como “gostava de fazer artigos mais documentais, com mais dados” e creio que foi evoluindo a partir daí. Os meios de comunicação independentes que cito foram uma inspiração maior pelo pendor comunitário, mas, sobretudo, pela qualidade, relevância e distinção do que publicam. Levaram-me muitas vezes a reflectir sobre o meu próprio trabalho — o que fazia, o que gostava de fazer e o tipo de conteúdos que procurava enquanto consumidora… Foi um processo. No início do ano, saí da Oxigénio para fazer um curso intensivo de análise de dados que envolvia programação. O curso acabou praticamente quando foi decretado o estado de emergência. À medida que se foi tornando claro que iríamos ficar confinados durante algum tempo, comecei a pensar que talvez fosse uma boa altura para lançar mãos à obra. Depois, foi arranjar o apoio necessário (não fiz tudo sozinha, claro), que chegou também dentro de casa. O Interruptor também é fruto do trabalho do Ciaran Edwards, que programou o site, e do Ricardo Correia, na fotografia e sonoplastia. E contámos com a ajuda de dois nomes do hip hop: a Blink desenhou a nossa imagem gráfica e o J-K fez a voz off para os indicativos e separadores do podcast.

No Sobre lê-se que vai existir “a aposta na inovação e experimentação”. Podes desenvolver mais sobre isso? Para já, os artigos e o podcast parecem seguir os formatos já conhecidos que se vêm por cá.

Quando falamos em inovar formatos não queremos dizer que vamos reinventar a roda. É, antes, uma maneira de deixar claro que o que trazemos é um pouco diferente do habitual. Quando nos questionámos se os algoritmos conseguem diferenciar os heterónimos de Fernando Pessoa não fomos só falar com especialistas, nem ler um artigo com coisas genéricas sobre inteligência artificial. Recorremos a literatura técnica e académica (aliás, até fizemos uma bibliografia). Desenvolvemos código, experimentámos um algoritmo com várias configurações, testámos um modelo que ainda não tinha sido usado para esse fim. E temos tudo aberto, para que possa ser analisado e replicado. Tudo isso implicou repensar o próprio processo de produção de um artigo. Não quer dizer que não façamos coisas que, de uma forma ou de outra, são semelhantes a algo que já existe, mas não temos medo de ir mais longe que isso. E iremos sempre que for preciso.

Dos primeiros três artigos, dois são dedicado à música. Achas que o jornalismo de dados (e este tipo de leituras que fazes aqui) estavam em falta no jornalismo musical português? Vens com o propósito de colmatar uma lacuna?

Uma das coisas que sentia quando estava na rádio e fazia peças diárias sobre a actualidade musical é que, muitas vezes, faltavam pontos de referência. Às vezes queria confirmar certos detalhes e não conseguia, porque a informação ou já não estava acessível ou simplesmente nunca tinha sido pública. Com o desaparecimento da Blitz e o emagrecimento das secções de cultura pelas redacções do país fora, de certa forma, deixou de existir essa matriz orientadora; uma espécie de comité central generalista que consegue ancorar as várias cenas. Paradoxalmente, hoje edita-se muito mais música do que há 10 anos e talvez até se escreva mais sobre isso (embora com menos proeminência), mas a emergência da cobertura da actualidade é inimiga da reflexão. Por um lado, é impossível dar vazão a tudo, por outro lado, se só olhamos para o nosso cantinho perdemos a noção da realidade. Em Portugal, o jornalismo musical não só é profundamente entrincheirado (cada tribo fala quase somente para si própria), como ganhou poucas novas vozes na última década. Isto tem um impacto profundo na construção da nossa memória colectiva. A memória da música portuguesa não deve ser reduzida à memória de meia dúzia de pessoas que ouve as mesmas coisas, tem as mesmas referências e vem da mesma geração. Sítios como o Rimas e Batidas vieram agitar as águas, é certo, mas precisamos de perspectivas mais abrangentes. Como disse no editorial de lançamento, o Interruptor não tem a preocupação de noticiar. Essa tarefa já está entregue. Não nadamos à superfície, mergulhamos a fundo. Isto é puxar a brasa à minha sardinha, mas acredito que os dois artigos que já publicámos sobre música provam onde está a lacuna — faltam retratos alargados da música nacional sem elitismos, em que não haja pudores de falar do clã Carreira ou do Panda e Os Caricas, enquanto se reflecte sobre o sucesso do Plutónio. Ou contextualizações sobre como a música portuguesa foi ganhando espaço nos nossos dias, desdobrando-se numa multiplicidade de cenas e géneros bem mais fortes do que há uma década — um cenário que inclui programas como o Curto Circuito, mas também o Big Show SIC.

Um dos grandes problemas do jornalismo moderno é a falta de tempo, dinheiro e attention span do público para os formatos mais longos e que necessitam de maior pesquisa. Quais são as soluções que tu vês para estas problemáticas? E de que maneira é que vais tentar resolvê-las (ou contorná-las) com o Interruptor?

No nosso caso, apostamos num espaçamento de publicações e num ângulo próprio. O facto de não fazermos actualidade dá-nos alguma margem para levarmos mais tempo a produzir um único artigo. Acreditamos que o que nos diferencia é a nossa visão sobre a cultura e a profundidade com que tratamos cada tema. Por exemplo, “Estamos a ouvir mais música portuguesa?” podia ser só um artigo, mas é uma série — com dois artigos já publicados e, provavelmente, terá mais um ou dois. Para terem uma ideia, o que já está publicado equivale a quase 20 páginas A4. Talvez seja uma postura optimista, mas… Se nós temos curiosidade em saber mais e a fundo, acreditamos que outros também a tenham. A questão do financiamento não tem uma única resposta. No mês passado, estive no Shifter a debater esse assunto com o Tiago Sigorelho e a Catarina Carvalho. É muito diferente falarmos no financiamento de um jornal como o Público ou num projecto de nicho como o Interruptor. Um ponto que, para mim, é crucial é a noção de jornalismo enquanto bem público. Acredito que o direito à cultura e à informação são fundamentais para exercermos a nossa cidadania e que deve ser garantido o seu acesso universal. Em Portugal, os salários médio e mediano são muito baixos; um quinto da população trabalhadora ganha o salário mínimo. Devemos excluir as pessoas da informação e cultura porque não podem pagar uma assinatura de jornal? Eu acho que não. Isto não significa que os jornalistas trabalhem de borla. Não passa pela cabeça de ninguém achar que professores ou médicos não devem ser pagos porque o acesso à saúde e à educação são gratuitos. Mas foi a própria mercantilização do jornalismo que fez dos jornalistas profissionais altamente precários, não foram os leitores. E questões como notícias falsas, desinformação, teorias da conspiração ou a ameaça crescente da extrema-direita só podem ser combatidas se todos tivermos acesso a informação plural, regular e de qualidade. É por isso que o Interruptor é de acesso aberto.


Jogar à tabela para chegar mais longe

Analisámos dezasseis anos de contagens oficiais para perceber se este milénio nos pôs a ouvir mais música portuguesa. Por Rute Correia | @RuteRadio| Em Junho deste ano, Plutónio conseguiu alcançar a platina com “Sacrifício: Sangue, Lágrimas, Suor”. Foi o primeiro álbum sem edição física a conseguir a cobiçada certificação em Portugal.

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