In3gah: de freestyle em freestyle até ao álbum

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS E CAPTAÇÃO DE VÍDEO] Sebastião Santana [EDIÇÃO DE VÍDEO] Luis Almeida

Bambino e Sanryse formam a dupla In3gah. O projecto é a mais recente aposta da RAIA Records, que lhes editou o disco de estreia homónimo no final de Fevereiro.

A fusão entre os dois pioneiros da cena hip hop nacional não é novidade para os OGs da Margem Sul. Madwilson Pina e Sandro Rodrigues há muito que convivem e trabalham juntos no conceito de In3gah, que chegou a ver nascer várias maquetes que rodavam entre os amigos mais próximos mas sem nunca se concretizar em algo mais palpável. O mais próximo disso que o público em geral tinha conseguido chegar foi em V.I.D.A., álbum de estreia de Sanryse pela extinta Footmovin’ no qual Bambino surge creditado em várias das faixas do alinhamento, casos de “M.O.D.O.S.” ou da posse cut “Conselho de Ministros”.

À sua primeira edição de sempre, os In3gah chegaram já amadurecidos graças ao longo percurso que, a solo ou em conjunto, construíram desde a implementação do movimento hip hop em Portugal, quando a palavra circulava apenas nas ruas, longe dos microfones, pré-Rapública portanto. A dirtyness que compunha a base do ADN da dupla ainda se sente em alguns dos momentos deste LP de apresentação — “Spotlight” ou “Escrever no Céu” — mas há agora também espaço para sonhar com o que ainda está em falta (“Sonho”) ou celebrar com o que já se conquistou (“High On Life”).

Em entrevista com o Rimas e Batidas, Bambino e Sanryse falaram sobre a evolução da cultura hip hop em Almada, do processo de escrita e produção de In3gah e deixaram ainda no ar a ideia de um sucessor — “mais intrigante” — ainda para este ano.



Já lá vão mais de 20 anos desde que o hip hop começou a ganhar forma em Portugal e vocês estiveram na génese desse movimento, que teve lugar aqui na Margem Sul.

[Bambino] Ainda noutro dia estava a ter essa conversa com um amigo meu, a discutir sobre o tempo que tem o rap tuga. Isso se calhar não é assim tão certo. Ele estava a dizer que o tempo que tem o rap começa quando entras em estúdio e tens um registo gravado.

[Sanryse] Não…

[B] Claro! Aí está! Há um caminho. Há o trabalho que se faz antes, não é?

Sim. O que eu estava a falar era desse tempo pré-estúdio. Havia todo um convívio, os freestyles nas ruas…

[B] Isto chega a ser assustador para mim, man. Se o Rapública é em ’94, eu antes já “tinha” uma carreira. Já andava nas streets, no beatbox, nas discotecas a raspar, a rappar de alguma maneira, pelo menos, sem estar a exagerar muito, há quatro anos. Ou seja… É fazeres as contas, man. Por isso é que eu te digo que é mais do que 25 [anos].

[S] Mas ninguém quer fazer contas.

Como é que andam as coisas por cá? Ainda se respira hip hop em Almada?

[S] Eu não ando aí em Nova Iorque, mas aqui Almada está fixe. Não se pode exigir muito mas há pessoal a fazer bom hip hop por aí.

[B] Estão a começar a acontecer cenas de novo. Tivemos há pouco tempo, como toda a gente sabe, ORTEUM, Tom e Cambodja [no Cine Incrível] e correu mega bem. RAIA Sesh. Não vou estar a dar spoiler mas vai haver outra, fiquem atentos. Mas isto para te dizer que em Almada está a haver um comeback a nível de concertos, aquela cultura, o viver e respirar hip hop.

[S] Há sempre.

[B] Almada não é só hip hop. Almada respira música. E estamos a tentar arranjar uma botija de gás para o hip hop. Voltarmos a buscar a botija de gás que nós já tivemos. É uma metáfora.

Vocês estiveram os dois presentes naquela celebração d’A História do Hip-Hop Tuga, o grande evento que aconteceu no ano passado no Altice Arena. Fazendo a ponte entre a velha e a nova escola, sentiram uma comunhão entre todos? Que quem veio depois vos reconhece e mostra apreço pelo caminho que ajudaram a desbravar?

[S] Acho que sim. Está a haver uma mudança, uma passagem de testemunho. O pessoal não é assim tão distante uns dos outros. Há respect de parte a parte. O pessoal mais velho consegue reconhecer e rever-se em alguns dos projectos novos e acho que o pessoal mais novo também o consegue fazer.

[B] Nos últimos 5 ou 10 anos para cá, ou whatever, realmente a verdade é que… O San sabe do que eu vou falar. Houve um altura em que era complicado. O pessoal tem estado realmente a reconhecer, a saber de onde vieram para saberem onde vão. O pessoal tem estado a dar bué props. Eu vi isso no que tu falaste, d’A História do Hip-Hop Tuga. O feedback nas ruas… Está a haver um grande respeito e isso está a fazer com que um gajo se sinta mais velho ou whatever. Tem estado a haver mais respeito do que houve há 10 ou 15 anos. 

[S] Nem é só uma questão de respeito. Eventos como esse deixam um certo sabor amargo na boca. Eventos como esse já deviam ter existido muitos mais. Tu vês aquele e parece que assim de um dia para o outro “isto dá para fazer em Portugal?” Vês uma casa daquelas, composta como estava e com todo aquele pessoal da organização, tudo bem feito, dizes, “epá, porque é que não aconteceu [antes]?” Havia condições. Em Portugal houve sempre aquela coisa de “nah, Portugal não está preparado”. Está. Sempre esteve. É preciso é que as pessoas que estão por trás também tenham o interesse. Quando vêem que há um retorno financeiro, que dá para fazer estas cenas, aí ya, querem todos aparecer e fazer. Já há festivais aí com fartura. É esse gap, de para trás não ter havido merdas desse calibre, que deixa o amargo na boca.

Além de terem estado na génese dessa primeira investida na Margem Sul, estão agora também associados a uma nova iniciativa que é a RAIA. Como é que se deu a ligação à editora fundada pelos ORTEUM no ano passado?

[S] Como é que deu raia? [Risos]

[B] O Tilt apresentou o projecto a um gajo, da RAIA. Nós vamos responder a essa pergunta mil vezes. É a mesma coisa que me virem perguntar se eu já sei nadar… Eu sempre soube nadar. É um projecto que já está a ser feito há muito tempo. Eu e o San já trabalhamos há bueda tempo. É aquilo que eu digo nas entrevistas todas. Agora foi só o concretizar da situação. E quando eu digo concretizar falo de ter o CD físico na mão, ter o fuckin’ merch — peguem o vosso! A RAIA foi a label que mostrou interesse em pôr os “fósseis” cá fora.

Tu por acaso já me tinhas dito que o projecto In3gah é uma cena antiga.

[B] No álbum V.I.D.A. já há alusões a In3gah.

[S] In3gah somos nós dois.

Sim, mas nunca saiu nada assinado com esse nome. Como é que fizeram a ponte?

[B] Inconscientemente sempre o fizemos. Nós trabalhamos e, inconscientemente, era In3gah.

Neste álbum há assim alguma faixa mais antiga que remonte à génese da vossa dupla?

[S] Antes do V.I.D.A. éramos para fazer um álbum de In3gah. Há people nosso aí que, de vez em quando, um gajo vê no carro a ouvir o “Despertar”, o “Cada Falso”… Tínhamos aí sons mesmo marados. Mas aquilo é que era mesmo In3gah, dirtyness total. Até há sócios nossos que agora ouviram o álbum e dizem “mas isto aqui não é In3gah”. Porque In3gah era uma cena mais dirty. Temos bué maquetes… O meu irmão tem isso tudo guardado.

[B] Mas isso é uma boa pergunta. Qual é o som que nós…

[S] O primeiro som de In3gah foi o “Cada Falso”.

[B] Mas e neste álbum?

Sim, neste álbum. Reaproveitaram algumas dessas maquetes?

[S] Não. Nada disso. O primeiro som gravado do álbum foi o “Escrever no Céu”.

Mas se traçarmos aqui uma linha cronológica das coisas, em que altura é que foram criadas as faixas deste disco?

[S] Nos últimos dois/três anos, para aí.



Os anos que levam de hip hop já vos permite ter um estilo bastante próprio, mas assim como vocês influenciaram muitos dos artistas que apareceram depois também se sentem influenciados por alguma das correntes que existem agora no hip hop?

[B] Sinceramente não tenho dúvidas nenhumas disso. Há muitos chavalos aí da nova escola que um gajo ouve e curte, man. Eu vejo isso, pelo menos na parte musical, se eu posso chamar-me produtor, que às vezes faço beats e “hey, esta cena está a fazer-me lembrar não sei quê”. E no rap a mesma coisa. Um gajo ouve o som e está a usar um tipo de métrica ou um tipo de letra que, inconscientemente, foi buscado de alguém que surgiu depois. Isso acontece, não tens hipótese. O teu inconsciente é fucked up.

[S] Somos esponjas.

[B] Somos influenciados por muita gente nova. Claro que sou. Eu tenho o meu estilo, como é óbvio. É um estilo whatever mas há sempre influências. Tu não podes lutar contra isso.

Na primeira música do álbum o Sanryse faz até alusão de que existe “bom trap”.

[S] Eu só dou a dica do “também há bom trap” para não ficarem com a ideia de que um gajo está a cascar nos trappers.

Mas ao dizeres isso dá-nos logo a ideia de que até tu, uma das vozes que cá anda há mais anos, ouves trap. Ou seja: mesmo continuando a fazer boom bap, consegues ouvir outras sonoridades novas dentro do hip hop, se calhar mais electrónicas, e quem sabe até inspirar-se nisso.

[S] Claro que sim. Um gajo curte de tudo o que esteja associado ao movimento. Não quer dizer é que seja a cena que eu ouço sempre. Mas somos esponjas. Qualquer cena que tu ouças vai-te influenciar, consciente ou inconscientemente. Vais sempre usar alguma coisa…

[B] Os sentidos são lixados. Tu vais ser sempre influenciado de qualquer maneira.

[S] E sendo hip hop, isso é mais do que evidente.

Apesar de ser mais novo que vocês, com os anos lembro-me de ir ouvindo histórias de que o Sanryse tinha o hábito de gravar todas as faixas em freestyle. Isso é verdade ou é um mito? Ainda aconteceu para este álbum?

[S] Quando um gajo começou tinha uma cena que era: um gajo escrevia bué mas também fazia bué freestyle. A cena é um gajo conseguir fazer o equilíbrio entre as duas coisas. Freestyle é a espontaneidade total da cena. Liricismo é outra cena.

[B] Já aconteceu em freestyle, estarmos no estúdios sem letra…

[S] Neste álbum temos bué cenas que são freestyle. Até o Bambz surpreendeu bué o people, porque o Bambz é um freestyler. Liricamente, nunca tem rima. É o único rapper que eu já conheci em vinte e tal anos e que não tem um rhyme book. Eu dei-lhe um notebook para apontar as dicas e não sei quê. Mas o gajo, nem sei se perdeu aquela merda… No estúdio estamos a fazer uma track e o gajo sobre pressão é bué rápido a freestylar uma letra. Basicamente o esqueleto deste álbum foi assim feito, em freestyle.

[B] Eu tenho de dar uma dica mas não levem a cena destrutivamente. Eu venho de uma altura em que o MC chega ao estúdio, tu estás com ele a beber ou whatever, e a letra tem de surgir. Na altura. Ali. Porque há uma química. Eu não posso chamar um MC a estúdio e ele dizer-me, “cool mas manda-me o beat que eu daqui a um mês tenho a letra feita para ti”. Nigga, stop playing with it. É o molde que nós temos. Eu não quero ser destrutivo. Anda, ‘bora vibar e do your thang.

[S] Freestyle é a cena de In3gah.

[B] Freestyle ajuda muito nessa situação. Não estares ali em casa a remoer, “ah, porque tenho de fazer esta letra.”

Agora mais para ti, Bambino: os beats neste álbum são straight from the MPC ou andas a usar algum outro hardware ou até software de produção?

[B] Foi tudo MPC, especificamente a 5000. Eu não trabalho com outras coisas. O que não quer dizer que eu não goste. Gosto do Fruity Loops, por exemplo, que pode parecer básico. Mas isto foi tudo MPC. Houve Guzbambs, que foi live, mas é MPC… Nunca fiz nenhum beat cá para fora que não fosse MPC.

[S] Não sejas mentiroso. Já fizeste no Fruity Loops.

[B] Fiz na Y10. Com o Fruity Loops fiz qual? Ah! Fiz um som para o Karlon na Maschine.

[S] Não sei se ouviste o “Ekoológiko”, que foi feito na Maschine, live. Nem sei se demorou mais de dois minutos a ser feito.

[B] Ah, sim. Fácil.

Como é que tu fazes o teu diggin’? Já é uma tarefa que fazes há muito tempo. Ainda te cruzas com coisas antigas que não tinhas descoberto na altura em que começaste ou tens alguns nomes decorados e já sabes mais ou menos por onde ir?

[B] Eu tenho o meu arquivo mas não vou dizer, como é lógico.

Nem te quero estar a pedir nomes, falo mais acerca do processo em si. Até porque começaste nos discos e hoje provavelmente já o fazes na Internet.

[B] O pessoal vai ficar naquela “like, what?” Eu faço o meu dig no YouTube. Mas é óbvio que eu também tenho o meu pratinho, é óbvio que tenho os meus vinis e também samplo de vinil. Mas o meu dig abrange tudo. Eu posso fazê-lo com a rádio. Eu estou a ouvir uma cena na rádio e boom, gravo com o telemóvel, e boom, estou a samplar. Qualquer que seja o formato que eu possa ouvir, se der para samplar eu samplo. Discos, YouTube, tudo. Desde que eu goste, samplo de tudo.



Quanto aos convidados que recrutaram para o disco, há alguns nomes que são mais óbvios do que outros. A mim surpreendeu-me mais o Berg e quem está mais distraído pode também ter estranhado o Beware Jack, por exemplo.

[B] O Gutto é óbvio. That’s my nigga. O Berg… Eu já tinha feito trabalhos com o Berg e conheci-o através do AC. Toda a gente sabe que ele fez o “Princesa”, né? Globo de Ouro, nigga! Fui buscar o Berg. O Sanryse foi buscar o Beware…

[S] Foi tudo malta que encaixou nas tracks. A única pessoa que entrou no álbum e que fez o som de origem connosco — estivemos no estúdio, a ouvir o beat, e inclusive foi quem sugeriu o título para a track — foi o Gutto. Ah não. A “Ouro”, com o Kulpado, o Mistah Cee e o Choko também foi feita em conjunto no estúdio. De resto foi pessoal que cabia bem ali e achámos que devíamos convidar. Mais ou menos assim.

No último vídeo que lançaram, mais conceptual do que o “High On Life”, surge um “continua” no final. Vão dar continuação à narrativa desse videoclipe ou há por aí mais qualquer coisa nova a surgir vinda de vocês?

[S] Continua, não obrigatoriamente a história a partir dali. Mas vai haver sequência.

[B] O meu man Sebas já está aí a conjugar as luas e quê. Não quero dar spoil mas ainda vão levar com os fósseis aí [risos].

É para uma das faixas do disco ou algo inédito?

[B] É para uma faixa do disco.

[S] Mas nós já temos outro disco aí.

[B] Isso já é muito spoil [risos].

Para este ano ainda?

[S] O ano só começou agora… Claro [risos]! Só faltam alguns features, basicamente. Está quase.

Seguem mais ou menos a mesma receita que seguiram neste álbum?

[S] Epá, sim. É aquele style. Não vamos fugir muito à cena.

[B] Mais vai estar mais dark

[S] Ah, sim. Não vai estar… Está mais intrigante!


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira