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Ikopongo no Musicbox: a noite da liberdade para Luaty Beirão e MCK

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTOS] Sebastião Santana

A história de Luaty Beirão podia ter sido escrita por um argumentista de topo de Hollywood. Mas não, o “filho do regime” que se tornou um “kamikaze angolano”, de forma profética, tendo sido preso com outros activistas por ler um livro e feito uma greve de fome que durou 36 dias — um por cada ano de José Eduardo dos Santos no poder — é bem real.

Apesar do ano infernal que teve, Luaty está mais determinado do que nunca na sua luta, sempre optimista e genuinamente feliz. “Olá, povo!” foram as primeiras palavras que disse, debaixo de uma chuva de palmas, quando subiu no sábado, 3 de Dezembro, ao palco do Musicbox e olhou pela primeira vez para a plateia, acompanhado pelo seu amigo de longa data e um dos maiores rappers da “banda”, MCK; além do irrepreensível Nel’Assassin, que ficou atrás dos pratos.

 


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A ocasião não era para menos: o momento a que estávamos prestes a assistir era histórico. Tratou-se da estreia ao vivo dos Ikopongo — projecto que une Ikonoklasta, nome de rapper de Luaty Beirão, ao MC Katrogipolongopongo —, depois de dois concertos em Angola cancelados por (re)pressão política. Já tinham mostrado como actuavam juntos ao vivo, quando, depois do segundo concerto cancelado, decidiram organizar um terceiro num local secreto em exclusivo para a Internet, onde tiveram uma audiência que ultrapassou a lotação total das salas de espectáculos onde pretendiam actuar.

Mas a apresentação ao vivo, com o calor do público, era diferente, e especial. Nas comemorações dos dez anos do Musicbox, a sala do Cais do Sodré encheu-se de entusiastas de rap, mas também de activistas ou de simples curiosos, fascinados pela força e história de Luaty Beirão — muitos certamente compareceram pela oportunidade de assistirem a um concerto que tinha sido reprimido duas vezes pelo regime angolano. E muitos provavelmente tinham estado meses antes a ocupar a Praça do Rossio, na mesma Lisboa, e a exigir “Liberdade Já!” para os presos políticos em Angola. No Musicbox, Capicua ou Sir Scratch foram algumas das caras conhecidas que se vislumbraram entre a plateia.

A dupla de MCs — a celebrar 20 anos de amizade — tinha ensaiado durante dois meses para os concertos de Ikopongo, para que cada um decorasse as rimas do outro, ou para cortar e coser as pontas soltas de cada faixa interpretada. Ikopongo é um nome novo, mas as canções são clássicas: “Guettos na Vertical” ou “O País do Pai Banana”, de MCK, mais dedicado à sua carreira na música; ou os temas soltos e versos de colaborações que Ikonoklasta coleccionou ao longo dos anos.

 


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A noite era de homenagem a esse legado de duas décadas de hip hop, a uma certa nostalgia do passado — com tantos instrumentais old-school boom-bap a ecoar pela sala, incluindo de uma antiga versão alternativa de “How Many Mics”, dos The Fugees, “os old-school vão-se lembrar desta” — mas, sobretudo, tratou-se de uma celebração, no presente, da arte, da vida (não é uma palavra usada de forma gratuita), da liberdade e da veiculação da mensagem que os move: a necessidade de mudança em Angola — e também no mundo. “A luta é de todos, sempre que houver alguém injustiçado.” Aqui não há problemas com ingerências em países estrangeiros.

“Este não é o país do ‘Pai Banana’, mas o ‘Pai Banana’ lava muito dinheiro aqui. Não são só a kizomba e o kuduro que estão a bater em Portugal. O dinheiro angolano também”, disse MCK. O serão de hip hop foi muito político, como não podia deixar de ser. Luaty tornou-se um ídolo e um símbolo da Amnistia Internacional, que ocupou algum tempo antes do concerto a exibir os seus vídeos, e respectiva mensagem, para um público atento que estava ali para mais do que beber copos.

Visivelmente feliz por estar de regresso a um palco, e enquanto ouvia o público a entoar as suas letras, Luaty Beirão apelou ao voto nas próximas eleições e à tomada de consciência de toda a gente. O público era de todas as cores e de várias nacionalidades, mas o rapper falava especialmente para os emigrantes da sua nação.

O hip hop e a política estiveram sempre de mãos dadas (e com as que sobram provavelmente de punho no ar), e, para rematar, os Ikopongo convocaram MCs ao palco para rimar, numa sessão de open mic: pegaram no microfone um rapper brasileiro, um branco angolano e um negro português. Era impossível caricaturar melhor a união de povos irmãos e raças por uma causa, a da liberdade. No fim, com Rui Miguel Abreu, o director do Rimas e Batidas, de volta aos comandos sónicos da noite, Ikonoklasta e MCK juntaram-se a onde pertencem: ao “povo”, e estiveram longos minutos à conversa com os fãs, admiradores e amigos. Viva a liberdade.

 


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