Hope Tala: a alma sensível do r&b que toca a bossa nova

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTO] Ruby Rose Gleeson

O último EP da londrina Hope Tala quase se adivinhava sem se ouvir. Pelo título, que se traduz para “alma sensível”, deveria vir aí mais r&b de quarto, mistela morna dos subúrbios do Spotify…

Felizmente, a capa é um atractivo. Uma bricolage imaginária de quintal, em que Tala penetra a câmara sem entusiasmo, sobre um estendal com um tecido pontilhado de estrelas, enquanto a folhagem verde-escura de fundo é interrompida por uma bola de espelhos. “Uma alma sensível à procura de um groove cru”, lê-se na descrição do seu perfil de SoundCloud. Estamos mais perto.

É uma chamada interessante aos prazeres subtis da música de Tala, jovem que se estreou em 2018 com o EP Starry Ache. Pequenas mágoas superadas, embaladas numa pop caseira, lunar, de estalidos e bateria, guitarra e piano. Nada de fascinante na descrição, porque carece dos laivos poéticos da sua linguagem, do veículo da voz. O timbre de Tala é o vizinho mais próximo de Lily Allen, embora sem o humor sardónico nem a efervescência, mas com a transparência emocional intacta.

Ao contrário do final do disco anterior, Sensitive Soul abre-se em gradação. Nas suas dores de crescimento, Tala descobre uma paleta de emoções com que pintar manhãs e condensar paixões. As palavras são imediatas, enganosamente despachadas com a leveza das aguarelas, de génese íntima. Estes sentimentos — amor nascente, ciumento, ferido, danificado, de volta à esperança — costumam criar um frenesim, e não o processo sensato e aparentemente curativo a que nos dá as boas-vindas. Tala convence-nos, pelas palavras e pelo som.



Mais Gilberto do que Jobim, o violão anima todas as canções, com acrescentos consoante o estado de espírito. Tímido o piano que atravessa “Jealous”; insistentes os estalos de dedos que invadem “D.T.M.”, única faixa em que se demite a vassoura na tarola. O violino ao longe e o reverb na voz abrem uma portinhola para que Tala encontre mais cenários no futuro. Mas, para já, fica-lhe bem o tom diáfano desta bossa nova em edição moderna — a publicação brasileira Reverb designa-a “RnBossa”. As melhores faixas carrilam numa batida r&b dos anos 2000: a lenta quimera de “Anywhere” é como um prólogo ao pedido mais urgente de “Lovestained”. 

A quinta faixa do EP, que aborda uma relação lésbica, é o coração do (para já) curto repertório de Tala, uma mulher queer de 22 anos, ascendência indiana, para quem o amor é à flor da pele, traduzido em linguagem universal. Permite que cresça e toma-o pelo todo de êxtase e desilusão. Como nos conta antes do refrão: a fruta madura é o amor, um coro de anjos exalta a primeira mordida, mas não lhe basta. Tala procura a intensidade ainda por vir e incita a oponente a avançar, sem medo de ficar manchada.

Sobra-nos a marca dessa aura original de Tala. Melodias frescas e intonações translúcidas desfilam em construções de soul leve, perfumadas com suspiros do Brasil. O excelente curta-duração está, de resto, alinhado com o afecto de Lucid, disco da colega Raveena — outra mulher queer de raiz indiana — em que Tala é convidada, e a intimidade terapêutica (com o passarinho no ar) de Tirzah, KAINA, ou Helado Negro.

Tomem isso como quiserem: as comparações são sempre ingratas e Hope Tala só consegue ser igual a si mesma. Afinal de contas, mesmo sendo condição endémica ao mundo e portanto banalizada, o amor é sempre um portento da sensibilidade — e cada um com a sua.


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