Super Bock em Stock’19 – Dia 2: o triunfo íntimo de Helado Negro

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTOS] Catarina Esteves & Rafael Florêncio/World Academy

“E este Lisboa bounce, este SpaceBanana bounce?” Era a vez de Pibxis, rapper portuense, conquistar o público, com a mais descontraída das vibrações daquele final de tarde. Quem vinha ao palco nos bastidores do Capitólio para um concerto de Keso, inscrito na rubrica Ciência Rítmica Avançada, não o teve: esta era a mostra de talentos da Paga-lhe o Quarto Records, a firma do autor d’O Revólver Entre as Flores.

No preâmbulo, Marco Ferreira pede uma recepção calorosa a uma trupe “sem grande maturidade”‌ de palco: o primeiro na fila, Myka, serve de ilustração. Debita barras com destreza, sem imaginar ainda empatizar com o público; a colocação de voz, à semelhança de Bug, que lhe segue. Dolorosamente tímido, o rapper de Paços de Ferreira traz na bagagem o sólido EP Tripolar, com o trauteio cançonetista de “Borboletas”‌ e a gravidade zero de “Vida”, em que o seu flow sóbrio ganha alguma soltura. Em vez de se dirigir à plateia, que reclama do baixo volume, fala baixinho para a sua “família”; “Diz lá isso que disseste para eles”‌, pede Keso, como a uma criança promissora, mas tímida, a insuflar-se de coragem.

Da mesma questão não padece o bem-disposto Pibxis, nem o carismático M’Cirilo (o Snoop Dogg portuense, diz Keso), muito menos o autoritário Riça, com “DRAGÃO IV”‌ a dar dividendos junto de um público. O mesmo que, durante 45 minutos, revibra o grito do “Porto!” O showcase começa e termina com Keso, do “Underground” aos “Rooftops”, e a Paga-lhe o Quarto só pode esperar evolução semelhante para os seus artistas.



Ontem, dava Nilüfer Yanya as suas últimas badaladas, quando atentávamos nos cartazes ao lado do palco. Mirando a soul cáustica que tomava o Cinema São Jorge, o fantasma da “música autêntica” nunca tinha sido tão indesejado. Ainda assim, ganhava corpo numa imagem promocional: um tronco vestido de cabedal, segurando uma guitarra;‌ decepado, limpo de identidade artística. Porque é isso que traz essa premissa: o artifício — de que toda a música, sem excepção, é feita — mascarado, sem ambição para lá do cliché. O marketing é sagaz, porque esta correspondência guitarra/genuinidade eriça os pêlos de muitas carteiras.

Se é à imagem disto que se planeou o Super Bock em Stock, não foi esse o festival que vimos este fim-de-semana na Avenida da Liberdade; é essa a prerrogativa de ter um festival à la carte. A uma hora que permitia sorver a dream pop de Ghostly Kisses, fomos impelidos para a soul tórrida de Curtis Harding (“autêntico”‌ o suficiente, presumimos). Um Coliseu dos Recreios lotadíssimo para ver o autor de Face Your Fear: menos quimérico face ao disco, mais performer sedutor e arquetípico. Encontramo-lo agarrado ao clássico dos Bee Gees “To Love Somebody”‌, suave e caprichoso, a propagar carisma em tons de grená. Executa a aura de Mayfield, para gáudio de todos na sala, se não para verdadeira inovação.



A tríade Harding, Sinkane e Kiwanuka, os nomes proeminentes do ex-Mexefest, direccionaram o certame para o groove negro; diferente era o panorama entre e fora das paredes do Capitólio. A sensação de terminar lá a noite, na companhia de Col3trane, foi de um ovni caído no recinto. Sobre o estudioso de D’Angelo e sucedâneo dum Xavier Omär ou dum Sango, nem tanto à terra nem tanto ao mar. O trap-r&b franzino do britânico é tão melódico, para nos aquecer, quanto algorítmico, para se dissolver numa qualquer playlist de Spotify. A ponto de, entre cada cançoneta que não ousa passar os três minutos, esperarmos a interrupção clássica:‌‌ “Queres ouvir música sem anúncios?”

E a sala adere. Acede a Col3trane quando lhe pede barulho, apesar da linguagem corporal denunciar a apatia geral; é difícil aventar outro retorno para este easy listening moderno, com um pico na recente “Rendezvous”. A culpa não é da prestação do cantor (“This is about having a good time, Lisbon, let’s go!”) que investe todas as suas forças para dar vida ao material — uma vida que não pode ter. Na verdade, ainda estamos demasiado presos à encantação que nos capturou, há pouco, no Cinema São Jorge.



Primeira vez a procuramos um lugar na plateia inferior da Sala Manoel de Oliveira: eis um assento desconfortavelmente perto do palco. Não que nos aflija. É adequado à arte de Helado Negro, a sugestão de um simples gelado, e um simultâneo piscar de olho ao lado mais obscuro do humano;‌ a nébula de vulnerabilidade que insiste debaixo da compostura. Se ele não tem medo de se expor, aniquilando todas as quartas paredes de permeio, devemos ser nós a tê-lo?

O disco que motiva a estreia em Portugal do equatoriano-americano Roberto Carlos Lange (nome real de Helado Negro) é This Is How You Smile. Vem na ressaca da trilha experimental que tem cultivado nos EPs Island Universe Story e da eletrónica vaporosa, com poesia cósmica e absorta — a sua marca registada, de Awe Owe (2009) à mexida meditação de Private Energy (2017). É desse segundo registo que retira “We Don’t Have Time for That”,‌ somando-lhe “Come Be Me”, para fechar a noite num registo mais extrovertido. “Podem levantar-se, se quiserem”, encoraja tacitamente, esboçando um sorriso. “Podem fazer o que quiserem com os vossos corpos. Mas sejam respeitosos.”

O prato de substância é This Is How You Smile, interpretado de início ao fim — um prazer indescritível para quem carrega consigo, e também para quem os vai descobrir, estes sons de terapia, de pés plantados num espaço seguro para germinar, ou boiar à deriva. Desvelar uma aura própria, tendo uma companhia íntima como bússola, conta-nos a ritmada “Seen My Aura”, uma ténue pop para cortar as histórias mais autóctones de Lange. Todas estas expedições iremos partilhar com ele, que primeiro nos cumprimenta em espanhol, depois em inglês, como um quebra-gelo redundante: não é preciso mediação quando o contacto é imediato.

Qualquer fosso entre palco e plateia já foi suprimido com o abraço sónico de “Please Won’t Please”. Lange diz que a pele castanha não tem outro fado senão brilhar; ginga invisivelmente com a sua guitarra, enquanto a colega Angela Morris trata do sintetizador, ao lado de Nathaniel Morgan no saxofone. O duo que faz de banda troca de lides ao longo do concerto, coloca-se face a face, coopera para suster um halo que é encantatório, inocente, sem imaginar o pueril. Tenham essa tentação e arrisquem-se a um coração delicadamente despedaçado.

“Imagining What to Do” fala do amor que rebate o Inverno. Podemos regozijar-nos brevemente neste calor, continuado pela dança íntima de “Todo lo que me falta”, a nostalgia de “Two Lucky”, o tremor romântico de “Running”‌ (e todo o cinema canta o refrão). Só que, agora que os assentos já eram almofadas para a lareira do palco, os violinos invertem a estória: pequenas melancolias e calafrios, o sentimento de abrir a janela e ver a chuva. Com o violino, Morris expressa e modula este abalo, atira-nos ao chão com a piedade característica da empatia.

E que tal adiar esse confronto? Refugiemo-nos em lençóis, sejamos suplantados pela felicidade, encontremos a nossa “Sabana de luz”. Lange, o Sr. Helado, guia-nos por este caminho senciente:‌ anda da esquerda para a direita, tenta ver-nos a todos, os mais próximos e os mais distantes. Fita-nos fixamente, sorrindo, de um jeito telepático, de gratidão, alguma preocupação, com que todos aqui se sintam bem e encontrem a necessidade de passar mais tempo consigo mesmos. Esse olhar levamos connosco.

Helado Negro deu o raro concerto que suscita pavor. Quão rápido poderemos chegar a casa para fazer disto palavra? Nada disto se pode esquecer. Cansados, a adormecer:‌ quanto tempo podemos dormir para não se desvanecer tudo, como a poesia que nos preencheu? Só a memória fotográfica poderia conservar estes 60 minutos em âmbar: um músico e companheiros a darem infinitude à sua obra-prima, sem asas de condor, a imprimirem sentido a esta vida de concertos em catadupa.

Importa ser solidário, importa ser sensível. E assim se ganha um festival — talvez o ano. Vemo-nos em 2020.


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