Holuzam: “Vamos editar discos excitantes e relevantes para o presente”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Etiqueta criada no seio da Flur, à semelhança de várias outras editoras internacionais que nascem do know how específico de quem todos os dias, atrás de balcões, percebe o que procuram as pessoas que continuam a não dispensar as lojas de discos, a Holuzam prepara um arranque de catálogo em grande com a reedição de Belzebu, trabalho originalmente lançado em 1983 pelos Telectu de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua, e o lançamento de um EP, Taipei Disco, com material inédito dos Dwart, projecto do músico e também jornalista António Duarte, autor do fundamental tomo clássico A Arte Eléctrica de ser Português – 25 Anos de Rock Em Portugal, livro lançado pela Bertrand em 1984 e que é, ainda hoje, um portal fundamental para se entender a génese de uma cultura musical específica no nosso país.

 


Telectu homenageados pelo Maria Matos em Junho


Como por aqui noticiámos, esta reedição de Belzebu inspira inclusivamente o regresso ao activo dos Telectu, com Vítor Rua, membro sobrevivente do duo original, e também António Duarte. Numa entrevista que o Rimas e Batidas por aqui publicará antes do concerto agendado para dia 15 de Junho no Teatro Maria Matos, Rua explica que fazia todo o sentido regressar ao lado de Duarte, músico que acompanhou de perto o percurso dos Telectu e que, inclusivamente, funcionou como uma espécie de guardião do acervo tecnológico do duo, tendo adquirido ao longo dos anos as principais peças de equipamento usadas em discos como BelzebuOff Off ou Telefone Rosa Cruz, tudo registos que o duo Rua/Barreto lançou durante os anos 80.

Ao Rimas e Batidas, José Moura — da equipa da Flur responsável pela Holuzam e que também inclui Márcio Matos, que assina a capa de Taipei Disco, e André Santos — explica um pouco da filosofia de funcionamento desta nova aventura editorial e levanta o véu sobre o que poderá ser o futuro imediato deste nascente catálogo.

 



Há um programa/manifesto para a Holuzam? É um novo selo que nasce com algum conceito principal associado?

A editora nasce de uma natural e gigante vontade (antiga) em editar discos significativos, que em primeiro lugar nos excitem e que sejam relevantes num contexto contemporâneo.

Entre os vossos primeiros lançamentos está Taipei Disco dos Dwart de António Duarte: trata-se de um inédito, certo? Descobriram um novo filão, há mais material dessa estirpe?

O primeiro disco (ZAM001) é o Belzebu de Telectu! O Taipei Disco é o segundo no catálogo (ZAM002), mas ambos estão associados de igual forma à génese da editora. É um EP com três inéditos gravados entre 1989 e 1993. Não descobrimos um filão, por assim dizer, o que aconteceu foi que resolvemos colocar no terreno algumas paixões antigas e tentar que dessem frutos. Aí estão.

A Holuzam começou por ser noticiada como estando associada à reedição de Belzebu, dos Telectu. Segundo julgo saber há todo um programa pensado em torno do catálogo dos Telectu. Querem adiantar os próximos passos e falar na abordagem a este catálogo?

De repente olhámos para o lado e tornou-se tão óbvio que não entendemos como ninguém, por cá, tinha ainda reeditado discos de Telectu. Produziu-se uma faísca. Queremos fazer isso! Não é complicado arranjar 1001 razões para que essa operação seja feita em Portugal e não em qualquer outro país. A música foi concebida e gravada cá. Se o Jorge Lima Barreto já não está, infelizmente, entre nós, o Rua é bem vivo e activo e, se não o tínhamos percebido antes,  a pica de trabalhar com ele neste projecto selou definitivamente a nossa vontade em concretizá-lo. Começamos pelo Belzebu porque é o primeiro álbum de Telectu enquanto duo, já que o Ctu Telectu foi gravado com o Toli e o Dr. Puto numa espécie de fase de transição que ainda suscita alguma polémica. Não vamos seguir a ordem cronológica da discografia, não nos pareceu ser fundamental para validar o trabalho. O conceito, no que toca à reedição de álbuns dos Telectu, é meramente recolocar no mercado música que achamos incrível, hoje e sempre. No caso particular do Belzebu, a reedição tem a vantagem, com a distância dos anos, de repor — digamos assim — alguma verdade: a capa é a preto-e-branco, que era a intenção original do Jorge e do Rua, frustrados com aquele tom cinza-rosa que acabou por sair em 1983. Inclui, também, a trilha de fundo que acompanha todo o LP, por baixo das cinco faixas creditadas na capa. Essa trilha era para ter sido, originalmente, o álbum, e vai ser incluída nesta reedição como bónus em CD. Temos alguns outros extras pensados para futuras edições do catálogo dos Telectu, também.

Na Flur estão bem a par da vaga de fundo que atravessa a indústria de reedições internacional. Pegando no nome de uma editora que conhecem bem, parece que há todo um grande interesse na “música da memória” neste momento. Faltava, nesse âmbito, recuperar para o presente o muito valorizado catálogo dos Telectu, certo?

Temos uma relação completamente de amor-ódio com o mercado de reedições, principalmente no que toca a muitas manobras abjectas, desnecessárias, em torno do Record Store Day. Há demasiados discos novos inúteis no mercado, não é de todo necessário inundá-lo com mais discos inúteis, antigos, até porque em muitos casos basta olhar para o mercado de segunda mão para encontrar alguns deles até mais baratos do que as próprias reedições de luxo. Mas é o luxo que as pessoas parecem desejar, nesses casos, infelizmente, e o mercado percebe obviamente isso. Algumas editoras, no entanto, fazem um trabalho dedicado, muito pertinente, de descoberta e redescoberta de música absolutamente válida nos nossos dias. Tem sido uma constante, nos últimos vários anos, aqui na Flur, considerarmos que a maioria dos melhores discos de cada ano, quando pensamos em listas, são reedições ou material inédito de arquivo. Não distinguimos música nova de música antiga, em termos de pertinência, qualidade ou gosto. O que se passa actualmente com a “música de memória” é resultado, cremos, da acumulação de música, multiplicação de géneros, estabelecimento de fórmulas e geral falta de originalidade, até porque parece praticamente tudo inventado, como é comum dizer-se. É natural que, se se gosta MESMO de música, se comece a dar mais atenção ao passado, onde está o factor de excitação que falta na maioria da música produzida hoje em dia. Por outro lado — e talvez em consequência dessa falta de originalidade ou revisionismo — o sistema capitalista que nos rege a quase todos exige mais e diferente. Se a diferença e o “único” não se encontram na actualidade, estarão algures num passado de que já ninguém se lembra ou nunca sequer conheceu, porque não o viveu. Concluindo, reeditar os álbuns de Telectu significa trabalhar perto de música importante para nós, no contexto de Portugal, mas também num contexto internacional em que esta música pode existir livremente sem os autocolantes que a definem como “portuguesa”, ou tipicamente de Portugal.

Holuzam vai manter-se exclusivamente nesse terreno das recuperações de arquivo ou poderá lançar também novo material?

Para além de Telectu, o horizonte está 100% aberto para música que nos entusiasme, sem balizas de época.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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