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Fotografia: Vera Marmelo

Moon, Telmon, Beaini e Miranda foram o quarteto de serviço na sala lisboeta.

Híbridos: os espíritos do Brasil na Culturgest: a crença em algo maior

Fotografia: Vera Marmelo

Plantas, animais, água, fogo de artifício, Virgem Maria, cores, ritmos, bongos, chocalhos e pandeiretas, florestas, cidades e montanhas, roupas brancas, corpos cheios de lama, penas, alucinações, rezas, transe, fumo branco, céu, procissões, rituais, cerimónias, nascimento, vida, morte, dor, cura, terapia, danças, comunidades, lágrimas, gotas. Por mais palavras que sejam ditas, e por mais extensa que seja a enumeração, é complicado descrever a experiência que a sala composta da Culturgest teve nesta terça-feira à noite — apesar da nossa longuíssima história enquanto humanidade, ainda há sensações que são difíceis de descrever.

Em Híbridos é-nos retratada a realidade espiritual do Brasil em todas as suas vertentes. Quer seja nos meios urbanos, quer seja dentro da densa selva amazónica, existe uma ligação que é partilhada pelos vários ritos que Vincent Moon e Priscilla Telmon recolheram para nos serem apresentados neste espectáculo, que também é ele mesmo uma espécie de hibridização entre um concerto e um filme: a crença no místico, em algo maior, seja num Deus humano ou nos poderes da Natureza. As cerimónias são acompanhadas pelos ritmos acelerados e complexos que vemos florescer no samba e na música popular brasileira, e, apesar das diferenças de vestuário e de localização, a descontextualização das cenas foi de tal forma eficaz que não nos permitiu por vezes descortinar as origens do que testemunhávamos, ficando a pairar a dúvida se provinham das tribos africanas, europeias ou amazónicas. Enquanto Vincent Moon se preocupava em editar, em tempo real, os vários vídeos da sua biblioteca, coube a Telmon, ao percussionista Tiago Miranda e ao produtor Rabih Beaini encontrarem a paisagem sonora ideal para os vários momentos que iam passando pelo ecrã, sempre no papel de ajudantes e sem nunca se meterem à frente dos protagonistas do filme. Os quatro artistas, no escuro e virados de costas para o público, de forma a conseguirem olhar para a tela, colocação necessária para dar a direcção da obra, criaram uma peça que, além do seu propósito informativo, proporcionou uma viagem sensorial que nos permitiu vaguear sem que saíssemos do mesmo sítio. O Brasil dos dias de hoje tem origens nas diferenças culturais de povos de todo o mundo. Povos esses que encontraram um lar neste território e se habituaram a ele e moldaram os seus costumes. Juntos, construíram aquilo que é a identidade brasileira. Para guardar na memória o que tem desaparecido entre as garras da desflorestação, Híbridos é uma peça audiovisual que nos lembra que a diversidade é natural e precisa de ser respeitada.

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