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Fotografia: Direitos Reservados

O artista libanês é um dos responsáveis pela música no filme-concerto de Moon & Telmon.

Rabih Beaini sobre Híbridos: “Serve para partilhar informação, música e formas de encarar e aceitar estes ritos cristãos, afro-brasileiros e indígenas”

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É já hoje que sobe ao palco da Culturgest, em Lisboa, o DJ e produtor Rabih Beaini, que se vai ocupar da “electrónica subtil” de Híbridos: Os Espíritos do Brasil, um projecto de vídeo criado por Vincent Moon e Priscilla Telmon, dupla que durante o espectáculo trata da edição a tempo real do filme. Tiago Miranda dá igualmente o seu contributo a este espectáculo assegurando as percussões. O músico libanês vai ainda dar uma aula aberta na Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa em que irá abordar os seus processos de composição, baseando-se no que a experiência lhe ensinou. Falámos com Beaini sobre o concerto na capital portuguesa, a aula, a sua editora Morphine Records e a suas abordagens em palco e no estúdio.

Como é que esta ligação com o Vincent Moon surgiu? Nós conhecemo-nos há cerca de cinco ou seis anos e mantivemo-nos em contacto. Há cerca de quatro anos a estava a fazer curadoria de um programa no festival CTM e convidei-o para fazer uma apresentação sobre rituais; programámos isso juntos e foi lindo. Ele também fazia parte do projecto Híbridos, que ainda estava a ser preparado. Não sabíamos bem como apresentá-lo, então decidimos abordá-lo de uma forma mais performativa e criar um espectáculo. Fizemos alguns concertos depois, ele a manipular os vídeos e eu estava a samplar o áudio dos filmes, e é algo super divertido de fazer com ele, e tem um resultado lindo. Ocasionalmente, também o faço sozinho, e ele também o faz por vezes, a solo e com a Priscilla Telmon, que também fez parte da criação deste projecto. Quando estás disponível, fazes a parte electrónica nos concertos. Sim, usamos sampling, electrónica e instrumentos eletroacústicos para tentarmos criar uma espécie de banda sonora em cima do vídeo. Tem-se tornado cada vez mais um concerto à volta dos filmes, com uma abordagem sonora mais ritualista. Tiveste de fazer pesquisa sobre música brasileira para fazer este projecto? Tenho um conhecimento curto; conheço principalmente a mais antiga, como a bossa nova e o samba, sei os nomes maiores. Acho que não aprofundámos muito a música brasileira, mas o projecto Híbridos não anda à volta disso, mas sim das cerimónias e rituais que acontecem espalhados pelo Brasil. É uma documentação monumental de como eles se desenvolveram ao longo do tempo no país, e como se começaram, de certa forma, a relacionar entre eles, criando uma espécie de híbrido singular. Serve também para partilhar informação, música e formas de encarar e aceitar estes ritos cristãos, afro-brasileiros e indígenas. E é super interessante ver como o país se relaciona com a sua própria cultura. Sentes que existe uma diferença no teu mindset quando tocas sozinho ou acompanhado ou a tua abordagem é sempre a mesma? A minha ligação à música enquanto performer começou como DJ, por isso a minha abordagem musical passa por pegar em algo que já existe e misturar com outras coisas; ou manipular o som até este se tornar algo diferente e novo. E isto aplica-se a todos os instrumentos que uso em palco, sejam eletroacústicos, sintetizadores, drum machines e CDJs. São todos instrumentos que uso para atingir este tipo de performance, quer esteja sozinho ou com outros, sejam orquestras ou músicos com quem colaboro, como músicos de jazz e malta que tem um passado ligado ao improviso. Para mim é sempre este processo de começar do 0 e criar algo para atingir um fim, independentemente de estar sozinho ou com alguém em palco. É uma experiência diferente trabalhar em vídeo, a solo, e com outras pessoas. Em que formato te sentes mais confortável? Nunca tive uma preferência, são todos tão diferentes, o que me deixa sempre entusiasmado. Às vezes sinto mais pressão quando estou sozinho e não tenho muito material para trabalhar, ou quando tenho apenas um instrumento para criar um espectáculo inteiro. É bastante específico, quando me encontro nessa situação, mas faz parte do processo. Quando sobes a palco, estás totalmente nu e começas a construir a tua própria roupa e a vesti-la de forma a que toda a gente presente comece a ficar confortável com o que estás a fazer. Eu não diria estar mais confortável num formato ou noutro, geralmente tenho uma pressão criativa que acho positiva. O resultado em si pode ser bom ou mau, mas o que me importa é o processo criativo, e isso aplica-se a mim e aos outros artistas que actuam comigo em palco. Às vezes acabas a trabalhar com pessoas consideradas “estrelas”, o que adiciona pressão, mas ao mesmo tempo estas pessoas têm as mesmas abordagens, sentes que elas te apoiam e te ajudam, e tu fazes o mesmo. Pessoas com mais experiências acabam por estar melhor preparadas caso algo de errado aconteça. Sim, esse também é o meu papel neste projecto. Não comprometer os outros, mas sim ajudá-los. Exactamente. É um diálogo e tens de tentar manter sempre a narrativa, não a perder nem fazê-la ir onde não deve. É um processo bastante complicado, mas ao mesmo tempo esse é o propósito daquilo que faço. Tens estado por todo o lado, desde que começaste a tua carreira nos anos 90. Sentes que estas ligações que foste estabelecendo com diferentes partes do mundo influenciaram a tua forma de criar? Absolutamente. Cada sítio que visito é uma peça adicionada ao “monumento”. Estás a construir algo, e precisas de material, que vem geralmente da experiência de viajar e de conhecer e colaborar com pessoas novas. É um processo contínuo de aprendizagem. Até na cena club, eu tenho este hábito de ser uma esponja de absorver coisas. É claro que eu não forço isso, nem tento levar aos seus limites, deixo só que aconteça. E o mundo é diversificado, mas ao mesmo tempo é tão parecido. É possível ver pontos a ligar-se em sítios tão distantes no planeta, o que também é entusiasmante e inspirador. A tua editora, a Morphine Records, tem sido a casa de projectos principalmente de electrónica experimental, techno e house. Porque é que sentiste este interesse de partilhar este material e de criar este projecto? A curiosidade é o principal factor que gerou esta editora e nos fez criar este catálogo. Eu gosto de apresentar coisas que acho interessantes, ou seja, que vão para além das minhas capacidades, pessoas que produzem coisas diferentes das minhas, e que muitas vezes me inspiram. Seja um músico que começou agora ou uma figura lendária, o nome e a história por trás do artista não me interessam. O que procuro mesmo são pessoas que dominam a sua arte e criam material para uma exposição ou um showcase, e é aí que o lançamento aparece. Não tem de ser necessariamente regular ou normal, é o trabalho de uma pessoa, por isso sai quando acontecer naturalmente. Estes são alguns dos artistas que mais me inspiram, e é um privilégio tê-los na editora e de os ajudar a por vezes a produzir os álbuns e trabalhar com eles. Ultimamente tenho-me focado mais na produção do que na minha própria música. Tenho gostado bastante deste papel que se tem perdido no tempo. Era muito importante nos anos 70, mas perdeu-se um pouco graças à tecnologia de hoje em dia e à possibilidade dos músicos poderem tratar das suas próprias produções. O papel de um produtor desapareceu um pouco, e as pessoas têm menos tendência em serem invasivas no processo em si. Eu tento, sempre que posso, fazer parte desse processo também, porque para mim é entusiasmante ser um “verdadeiro” produtor. Também parece ser um alívio não ter a pressão de produzirmos para nós próprios. Sim, esse é um dos aspectos de que também gosto. Posso brincar mais com as coisas: como não é a minha música nem a minha responsabilidade, posso ser criativo de uma forma diferente, mas claro que é preciso sempre ter cuidado. É de certa forma meter a minha experiência nas mãos de pessoas que querem a sua música produzida e uma curadoria do seu álbum desde os primeiros rascunhos. O que tens preparado para a masterclass que vais dar no Porto? Vai ser principalmente sobre o processo de criar e produzir música. Depois, vou falar também do que é uma performance ocasional, seja a natureza do DJing, electrónica, analógica. Umas dicas sobre como comunicar em palco, que já falámos nesta entrevista, aprender a compor instantaneamente, ou seja, o processo de subir a palco com outras pessoas e fazer uma sessão improvisada que constrói uma estrutura sólida. Também vou tentar perceber que público vou ter na universidade, e as suas intenções, para tentar criar uma ligação com eles e perceber os seus propósitos, ensinar-lhes como se promoverem, como apresentarem os seus trabalhos, como colaborar com outros, como tornar os seus sons mais interessantes, e como tornar a música intemporal, no sentido de não ser moldada pelo tempo, que é uma das minhas maiores preocupações enquanto músico e produtor. Estas são as dicas que posso dar com a minha experiência, não sou um professor mas gosto de partilhar o meu conhecimento. E, provavelmente, vamos acabar com um Q&A sobre produção, e como trabalhar o som. Tenho duas horas e meia, portanto também vou improvisar um pouco lá. Para mim, quando actuo em frente a um público, as pessoas são uma parte crucial do que faço em palco. Tento criar uma ligação com eles no palco, e ver o quão longe ela consegue ir com este público em específico, e onde posso levar a minha performance enquanto a mantenho interessante para eles. Tem sempre a ver com interacções? Totalmente. Isto vem do meu passado muito ligado a ser DJ. Até mesmo em clubs maiores, com grandes pistas de dança, tens de manter a atenção do público no que estás a fazer, e é uma cultura em si, apesar de ser mais comercial. Nos anos 90, os dancefloors tinham poucas “realidades” diferentes, e a maioria era comercial, então, para sobreviver nessas realidades, tive de ser diferente, diversificado e, ao mesmo tempo, profissional e concretizar o trabalho de manter as pessoas lá. Para além destes concertos, planeias lançar material novo? Tens trabalhado em algo novo? Estou há já algum tempo a tentar começar o processo de um novo álbum, mas tenho tido pouco tempo e, sinceramente, pouco foco naquilo que quero fazer, mas espero começar muito em breve. Ao mesmo tempo, estou a programar o catálogo da editora, que está muito interessante, e acho que vamos começar a trabalhar num novo álbum de um artista, e noutros músicos que também vou estar a produzir, que ainda não quero revelar, porque não gosto de revelar as coisas enquanto não estiverem completas.

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