Havoc: o futuro depois de Mobb Deep passa hoje por Lisboa

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [ILUSTRAÇÃO] Direitos Reservados

Num breve exercício mental que nos leva a percorrer a linha cronológica da história do hip hop, é fácil encontrar exemplos de artistas competentes nas duas vertentes com que este movimento artístico se apresenta musicalmente. Mas são poucos aqueles casos que roçam a genialidade no MCing e no beatmaking, simultaneamente. “Quantos temas fez que se possam considerar de clássicos? Quem o convidou para outros projectos? Produziu só para si ou também para outros?” Estes são alguns dos termos de comparação que rapidamente nos fazem somar os números na hora de decidir quem entraria para a equação. Havoc, que actua hoje no Jameson Urban Routes, em Lisboa, apresenta argumentos para todos os gostos e feitios. É produto refinado de Queensbridge, que transpõe o lado mais sombrio das ruas onde cresceu para as palavras e melodias.

Tal como em qualquer género musical, quem declama, ou quem melhor se sobressai a fazê-lo, ganha sempre a imagem de frontman aos olhos do seu público. A quase eterna ligação de Havoc à dupla de rap que formou nos anos 90 colocou o MC e produtor na sombra de Prodigy, aquele cujas letras nos sobem instantaneamente à cabeça ao proferir o nome dos Mobb Deep. Mas isso não significa que o seu papel apenas tenha servido para dar suporte à perícia do malogrado rapper que vimos partir recentemente. Podia não estar constantemente ao mesmo nível de Prodigy, mas, nessa diferença que existia entre ambos, Havoc colmatava-a com batidas. Batidas essas que foram tão ou mais responsáveis pelo sucesso da dupla mais infame do planeta. O hip hop não seria o mesmo sem os seus instrumentais.

 



Kejuan Muchita nasceu em 1974 e cresceu num dos maiores bairros de Nova Iorque. O sonho de perseguir uma carreira enquanto MC surgiu numa fase prematura da adolescência, e não foi necessário atingir a idade adulta para que tivesse na sua posse todas as condições para tentar vingar na indústria musical. Desde criança que Havoc estava habituado a conviver com artistas, que muitas vezes se deslocavam a sua casa para trabalhar com o seu pai, que na altura era DJ. Os discos em abundância certamente que contribuíram também para o desenvolvimento do seu ouvido e bom gosto, que viria mais tarde a aplicar nos temas através do sampling. Já na altura, Prodigy era um MC que recebia abordagens para se ligar contratualmente às editoras, tendo chegado a desistir de um acordo com a Jive para poder formar a dupla com Havoc. Antes de se apresentarem ao mundo conforme hoje nos recordamos, era como Poetical Prophets que iam dando cartas, levando a The Source a destacá-los na sua Unsigned Hype – uma coluna da revista reservada para os talentos emergentes, que valia quase como um bilhete de ouro para apresentar às editoras na hora de negociar um contrato.

Mas não foi à primeira tentativa: Havoc e Prodigy apresentaram-se a Puff Daddy na fase pré-Bad Boy em que representava a Uptown Records, que lhes negou o acesso à editora por falta de uma identidade própria no grupo. De repente, os Poetical Prophets passavam a Mobb Deep e o hype já conquistado valia-lhes uma oportunidade na 4th & Broadway, o selo discográfico que apostou na edição de Juvenile Hell. Um fracasso comercial inesperado, dado toda a reestruturação no plano da dupla. O disco contava com duas “caras”, temas mais sombrios na primeira metade do CD que contracenavam com a vibe mais festiva da segunda parte. Na ficha técnica, reuniam-se condições capazes de causar logo boa impressão. A amizade que Havoc travou com Nas em Queensbridge fê-lo chegar até DJ Premier e Large Professor, dois dos nomes em destaque na produção do álbum de estreia. Não era suficiente.

 



É nesse momento que a mestria de Havoc passa a equilibrar os pesos da balança. Diz-se que a vida dá voltas e, por vezes, damos de caras com o sucesso até nas situações mais drásticas. O nome dos Mobb Deep ainda não fazia estremecer o chão e a queda anterior tinha sido aparatosa: a 4th & Broadway rescindia-lhes o contrato e o dinheiro, usado para pagar as sessões de estúdio e os videoclipes estava a escassear. Dois anos após a estreia do grupo, a Loud oferecia aos Mobb Deep uma nova oportunidade. Depois de assistirem ao sucesso dos Wu-Tang Clan, do outro lado do Rio Hudson, na editora de Nova Iorque, Havoc e Prodigy sabiam que tinham de fazer história para poderem acompanhar o movimento renascentista do hip hop na “Big Apple”. Enter the Wu-Tang (36 Chambers) e Illmatic colocavam os radares a apontar para a cidade que nunca dorme. Jay Z ou Notorious B.I.G. estavam já a delinear os primeiros planos.

Os Mobb Deep precisavam de entrar na carruagem e ainda lhes faltava um ingrediente para a receita ficar completa. Havoc decidiu dedicar algum tempo para arquitectar aquele que viria a ser o som clássico do grupo e revelou-se um dos mais prodigiosos cirurgiões na arte do corte às heranças musicais dos artistas do passado. O talento ajudou na hora de enfrentar largas horas de trabalho. Sem grandes truques, Kejuan Muchita confiou em pleno no seu ouvido para poder abdicar do lado mais técnico da construção dos instrumentais. A experimentação era a única base para esse trabalho e fez com que Havoc voasse para terrenos nunca antes explorados. Os terrenos da sua própria mente. A produção para The Infamous ficou marcada por esse mesmo motivo. Um novo mundo de texturas sónicas completamente diferentes de tudo o resto que era utilizado pelos outros MCs. Ambientes bastante melódicos, mas pesados e negros. A banda sonora perfeita para relatar aquilo que só acontece nas ruas. “There’s a war goin’ on outside no man is safe from“.

O duo lançou uma nova dose de combustível para a chama que mantinha o gangsta rap aceso, elevando-o para novos patamares. Uma fórmula que viria a dar frutos por mais dois álbuns, até chegarem as primeiras críticas negativas em Infamy, altura em que Mobb Deep apresentaram o single “Hey Luv”. No entanto, a história já estava escrita para sempre nos corredores da fama do hip hop. A dupla teve uma vida duradoura, mesmo que com muitos solavancos pelo caminho, tudo isto provocados pelos atritos entre os dois rappers, que só conheceu um final devido ao desaparecimento de Prodigy.

 



Havoc foi o membro menos activo dos dois, no que à carreira a solo diz respeito. Contam-se apenas cinco projectos editados em nome próprio, num trajecto que apenas começou a ser trilhado em 2007. Em 2016, criou um álbum a meias com o icónico Alchemist. Nos Mobb Deep somam-se duas mãos cheia de LPs, que demonstram um longo caminho de sucesso traçado pelas duas mentes de Nova Iorque. Destaca-se também uma passagem pela G-Unit, com 50 Cent a aproveitar o pico da sua fama para ajudar a colocar a dupla novamente numa posição de estrelato.

Fora do grupo, Havoc poderá nunca chegar aos impressionantes números de Prodigy no que toca à quantidade de rimas editadas. Mas a sua aptidão para a manipulação dos samples ainda hoje é tida em conta no mercado musical. “Famous” ou “Real Friends”, de The Life Of Pablo, têm o seu cunho. Eminem, 50 Cent, Vinnie Paz, Nas ou Papoose são apenas mais alguns exemplos de uma lista de centenas de instrumentais que Havoc cedeu a outros rappers, ao longo de mais de vinte anos de carreira.

Kejuan Muchita vai destruindo a indústria com rimas e batidas que fazem parte da herança que o hip hop pode e deve ofercer. E continua a mostrar sinais de que os sons do futuro podem também passar pelos tubos de ensaio do seu laboratório.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

Latest posts by Gonçalo Oliveira (see all)