HALLOWEEN // Híbrido

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Allen Halloween, Verão quente de 2015: estamos num país sem rumo, à beira de eleições que todos sentem pouco ou nada ir decidir, integrados numa Europa que perdeu o sul, num mundo que se derrete lentamente, num universo de que todos continuamos a desconhecer o sentido. Mas tal como se pode ver todo um cosmos num grão de areia, também Allen concentra o seu olhar sobre o bairro – “o meu bairro, o teu bairro, ou um bairro por aí”.

O bairro, Verão quente de 2015: uma invenção de um país que não soube lidar com a história, criação de políticos que acharam que varrer para debaixo do tapete equivale a limpar a casa, criando ecossistemas de ódio e de opressão, de crime e de falta de caminhos porque todos os caminhos podem conduzir a Roma, mas nenhum leva para fora do bairro. Os muros são demasiado altos, ainda que invisíveis. E Allen é o velho sábio, encostado na esquina do bairro, de cabeça curvada, mas olhar ainda assim aguçado: um all-seeing eye a quem nada escapa – nem as pequenas tramas, nem os grandes dramas, nem os inocentes, nem os pecadores. Ele vê-os a todos. E depois abre a boca e saem clássicos. Híbrido é o terceiro na sua conta pessoal.

A melhor chave para descodificar Híbrido está mesmo aqui ao lado: a conversa franca e aberta que Allen manteve com Bruno Martins, onde fala do temor a Deus, do que significa ser gangster num mundo que nunca ouviu falar de Al Capone, mas que sabe quem é Tony Montana, do que é a verdade, a sua, do seu lugar nesse complexo puzzle que conhecemos por hip hop tuga. Essa é a chave, mas Híbrido uma caixa de Pandora que depois de aberta liberta todos os males que há no bairro. E se o bairro é impenetrável, escondido atrás dos tais muros invisíveis, altos, insuperáveis, então um disco como este é a melhor forma possível que temos de olhar para dentro e tentarmos compreender o que lá se passa.

“Há um trilho no vale que vai dar a dois caminhos/uma estrada larga e um portão pequenino/fui pela estrada e ao chegar à planície/vi um velho com uma grande barba que me disse/’este é o caminho dos malfeitores, está cheio de armadilhas/foi ele que levou a Alice pró País das Maravilhas/país do pó e da pedra cristalina onde o Sol nasce negro e neva todos os dias’”. O bairro pode ser escuro e negro e sujo, mas há uma inegável beleza na forma como Allen o descreve, como acontece nesta introdução a um “Zé Maluco” que parece ser construído sobre música resgatada a um velho carrossel de feira. E essa talvez seja a primeira constatação inesperada a que se chega ao escutar Híbrido: não posso presumir ter lido tudo o que no passado se escreveu sobre Projecto Mary Witch (muito pouco) e A Árvore Kriminal (um pouco mais) e não recordo se alguma vez alguém recorreu à palavra “beleza” para tentar descrever o que se solta da garganta e da alma de Allen Halloween. E a verdade é que há, de facto, uma incrível beleza nas suas palavras, talvez como a tal rosa que crescia do concreto mencionado em tempos por Tupac. Comboios que não andam para trás, estradas largas que vão dar ao Tejo, coisas estranhas no nariz – “aqui não há nada para mim”, canta o “Zé Maluco” criado por Allen Halloween. Reflexo de si mesmo? Talvez, mas reflexo em espelho de feira, que deforma e distorce, revelando o grotesco que há em todos nós.


https://www.youtube.com/watch?v=YolKtj9AWXE

 


Não é apenas nas palavras que Halloween espalha beleza e poesia séria. Nos aparentemente simples beats que o próprio Allen constrói para servirem de cenário às suas parábolas há uma riqueza plástica incomum no hip hop nacional: pianos carregados de melancolia (“Bandido Velho”), caixas de música cinemáticas e assombradas (“Movimento Thug”), pedaços de inocentes memórias pop (“Youth”, “Livre Arbítrio”), sons de feiras imaginárias (“Zé Maluco”), cravos e mais pianos (“Jesus Loves Me”, “Marmita Boy”, “Menina Rica”), ácido analógico em regime minimal (“Fantas”, “Bairro Black”, “Gangsta Junkie”), ecos cinemáticos resgatados às tonalidades do horror (“Bairro Black”, “Mr. Bullying”, posse cut escondida depois de “Livre Arbítrio”), guitarras em derrapagem pela memória do punk reerguida pelo grunge (“O Rei da Ala”). Mas essas são apenas as cores tímbricas com que Allen injecta melodia nas suas bandas sonoras. Igualmente importante é a sua arquitectura rítmica: os kits de bateria usados por Allen são quase sempre inesperados, programados de um ângulo improvável para quem usa o hip hop como linguagem primordial – o ritmo galopante de “Gangsta Junkie” é um caso sintomático, que expõe o nervo rock que sempre existiu na subchave das produções de Halloween, facto nada menor no DNA da sua originalidade.

Palavras singulares, paleta de cores diferenciadas, ritmos invulgares: tudo isto concorre para que se possa dizer que a arte de Allen Halloween não tem real paralelo no nosso país. Há muita gente a pintar quadros nesta exposição colectiva que conhecemos como Hip Hop Tuga, mas no canto da galeria, aquelas miniaturas intrigantes, obscurecidas, mas com rasgos de luz, não se parecem com mais nada. E talvez nenhum dos quadros nessa exposição tenha tanto potencial para valorizar como os que Allen nos oferece. Nada nesta música nos diz que o seu impacto se possa desvanecer nos próximos seis meses e daqui a 10 ou 20 anos estes serão documentos preciosos para se entender um tempo, talvez até para nos entendermos a nós mesmos.


 


“Marmita Boy” – “19 anos na cara, mais uma vela que se apaga/mas nada é suficiente quando a festa acaba/vão-se as histórias do tempo da escola/ficam as memórias de quem foi embora”. Quando Allen expõe o resto da vida deste “jovem africano do bairro social” e pergunta “quais são as tuas chances, jovem, em Portugal?” está a expor uma moral crua, a única disponível para quem vai para o trabalho com uma marmita gelada. E depois Allen canta e desfaz-nos o coração: “eu vejo o gang a rolar e a vontade que a mim me dá é voltar para lá”. Este é o som da desesperança, honesto, cru e sem merdas. Allen não é santo, nem profeta. É o velho e o maluco das suas histórias, o miúdo que sofre às mãos do bully da escola, o jovem que tem ilusões da street life. Allen é todos eles e não é nenhum – “o rei é Cristo e eu não sou ninguém”, canta. Allen é um fantasma. Uma bruxa. Mas só porque nos enreda no feitiço da sua arte, da sua beleza inesperada e improvável. Talvez essa seja outra das explicações para o título: esta palavra, “híbrido”, também se refere a esta mistura estéril de luz e sombra, de beleza e horror, de falta de esperança e ainda assim de teimosia em sobreviver. Allen é um sobrevivente, explica-se na entrevista de Bruno Martins.

Uma última palavra para “O Rei da Ala”: não há nada assim no hip hop português… Correcção: não há nada assim na música portuguesa. “Jesus não deixe demónios me acordar/embala-me até o dia chegar/eu sinto que no ar há algo ruim/que quer entrar dentro de mim/os gangsters não vão para o céu/nem vão ver a face, a glória de Deus/o rei é Cristo e eu não sou ninguém/abram-me a porta e eu porto-me bem”. Coloca a pop evangélica da FlorCaveira numa nova perspectiva, certo? Há um poder avassalador na voz de Allen Halloween, voz carregada de cicatrizes geradas pelo peso da Verdade. A sua verdade, é certo, mas não há como escapar à espantosa honestidade que se desprende da sua garganta. Isto não é arte a imitar a vida, é vida a superar-se pela arte. Este disco pode salvar vidas…

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu