Halloween: A Árvore Kriminal

Bú!

A Árvore Kriminal relança a sombra de Allen Halloween e o hip hop soa de novo urgente, cortante e perigoso.

A estreia de Halloween em 2006 com Projecto Mary Witch foi saudada sobretudo nos círculos hip hop como uma importante adição estilística a um género que por cá já podia então proclamar com segurança a chegada a uma idade adulta. Ainda que esse primeiro álbum não tivesse o refinamento técnico que o hip hop nacional já demonstrava ser capaz de alcançar, a voz, o flow e o imaginário de Halloween somavam um resultado de profunda originalidade que chegou e sobrou para o estabelecer como uma das certezas desta (contra) cultura. E cinco anos depois chega a confirmação do que já se sabia: Halloween é um artista superior.

A Árvore Kriminal é um anunciado murro no estômago na recta final de um ano profundamente agitado. E nesse sentido, apesar da sua aura algo lisérgica, acaba por funcionar como um valente alarme de despertar. As ruas que Allen Halloween descreve são como as que Travis Bickle deseja ver lavadas por uma enchurrada. Taxi Driver, aliás, contém algumas úteis tiradas que servem como uma luva ao homem que garante que na cidade “não há heróis, só índios e cowboys”. Como a comparação do memorável personagem interpretado por Robert DeNiro ao anti-herói da canção de Kris KristophersonThe Pilgrim, Chapter 33“: “Ele é um profeta e um passador, parte verdade e parte ficção, uma contradição ambulante.” Halloween também é profeta e dealer de rimas, parte verdade e parte ficção. Mas nada nele grita contradição: “Chamam-me louco porque sonho com um mundo novo”, canta ele no seu retrato de “Um Jardim à Beira Mar”. Olhos abertos para a realidade, violência ecoada com mais violência, semblante virado para um poder superior e o dedo sempre leve sobre um gatilho metafórico. Halloween não faz prisioneiros.



A magia particular de Halloween assenta na sua singular entrega. O swing surreal do seu flow leva-o a encaixar as palavras com a mesma precisão com que Bruce Lee contornava o punho dos seus oponentes, desviando-se no momento exacto em que a tarola anuncia o que se esperaria de qualquer outro MC. E assim Halloween inventa o seu próprio tempo, as suas próprias regras. As 16 barras nunca são quadradas e o seu metrónomo interior parece escorrer como num quadro de Dali. E ainda só falámos do ritmo da sua respiração. Nesta delicada equação, além das palavras e do flow que as carrega há ainda o timbre que as desenha. E aí, uma vez mais, Halloween é altamente original: os seus gritos soam como lamentos, os lamentos não escondem a raiva e por cima de tudo há um véu de inocência, mesmo quando se fala de tiros, de miséria ou de crime. Como se Halloween fosse, afinal, um anjo. Custa a acreditar? Só até chegarem a “Debaixo da Ponte”, lição de entrega e de alma a quem tem mais “instrumento” nas cordas vocais e não sabe o que fazer com tantas oitavas.

Falta falar da música, mas tudo até aqui já é música. As palavras e as respirações, as interjeições e os ruídos. Até os silêncios. A Árvore Kriminal é menos lo-fi do que Projecto Mary Witch, mas a verdade é que Halloween vai sempre soar a Halloween, até num microfone de um telemóvel. Os beats cruzam ecos do dub, samples de Morricone, névoas de graves cobrem tudo, como o vapor que se desprende dos pântanos nos filmes de terror – baixo e pesado, suspenso, misterioso. Há dissonância e espaço nestas batidas, mas tudo nesta arquitectura existe apenas e só para sustentar a abóboda de rimas e flows com que Halloween coroa este edifício. A Árvore Kriminal não é, nem quer ser, um disco perfeito. A perfeição não é para aqui chamada. Mas é um dos discos que marca 2011. E o futuro que se cuide. Bú!…

*Texto originalmente publicado em 33-45.org.

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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