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Fotografia: Manuel Abelho

A apresentação do livro Livre-Arbítrio aconteceu ontem na ZDB.

Há outra vida para as palavras de Allen Halloween

Fotografia: Manuel Abelho

Há certos momentos que ditam o tom de todo um evento e ontem não foi diferente na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. Depois de César Adão, director e editor da Lua Eléctrica, fazer uma pequena introdução, Mário Lopes, jornalista do Público, explicou o que torna Halloween tão especial e, entre elogios e histórias — muito do que disse está escrito no prefácio do livro –, equiparou-o aos grandes escritores russos do século 19, uma ambiciosa comparação que estará certamente ancorada na forma como se aborda o “bem” e o “mal”, a capacidade de compreender a complexidade do ser humano e a facilidade na transposição dessa consciência humana para a escrita.

Livre-Arbítrio, o título da antologia poética que reúne letras de Projecto Mary Witch, A Árvore Kriminal, Híbrido e Unplugueto (que sai amanhã), é, nas palavras do próprio autor, “a viagem de um homem mundano até se tornar um homem com alguma sabedoria, um homem de Deus, neste caso” ou, tal como tinha descrito em conversa com o ReB, “um registo da vida de um jovem africano em Lisboa”.

Num registo extremamente pessoal em que desvendava o background de cada canção antes de declamá-la ou cantá-la, Halloween estabeleceu uma ponte directa com cada uma das pessoas que preenchiam a sala, dando a oportunidade de entrar na sua cabeça e entender melhor a sua forma de estar e pensar. Falou de política (“não sou de esquerda nem de direita; sou de cima”), de patamares de percepção (“entendi que o conhecimento é como uma escada”), da (má) relação com as forças da autoridade, dos “manos” que vão para a prisão ou do aproveitamento da liberdade de expressão por parte de alguns humoristas e artistas da nossa praça para atacar minorias.

A importância de se perceber que existe uma diferença entre o homem e a arte foi algo que também mereceu atenção, esclarecendo que aquilo que se diz nas canções tem de ser interpretado enquanto exercício artístico. Depois disso, numa das tiradas mais marcantes da apresentação, o artista reflectiu sobre música que se interpreta como negativa e chorosa: “Quando ouço música triste, eu não fico triste. Sinto-me forte porque sei que não estou sozinho”.

Não faltaram ainda algumas considerações sobre o rap nacional, deixando um apontamento sobre as dificuldades que se sentiram no início e que impediram bons rappers de gravar e fazendo a ponte daí para as novas gerações e para aqueles que “gamam” e se esquecem que, no final, só o “original” é que ficará na história.

Apesar do público ter estado interventivo durante grande parte da conversa, os momentos de maior ligação aconteceram quando Halloween puxou do seu potente aparelho vocal para cantar as letras de “Raportagem”, “SOS Mundo”, “No Love”, “Crazy”, “Debaixo da Ponte”, “Redenção”, “Marmita Boy”, “Rei da Ala”, “Cobradores de Impostos” ou “A Noite da Lisa”, tema em que soltou uma pequena confissão: Rui Reininho era o nome que tinha em mente para o refrão, mas, como não o conhecia, acabou por fazer uma espécie de imitação do estilo do frontman dos GNR.

Quando chegámos a “Bandido Velho”, Halloween já tinha pegado na sua Akai MPD 226 para se juntar a Cyrillo Gonçalves, na guitarra acústica, ocasião para se ouvir a “congregação” (e a Kriminal Família) a cantar a uma só voz um dos temas mais vulneráveis da discografia do rapper e produtor. De veículo das dores interiores para pensador clínico daquilo que o rodeia, a Bruxa evoluiu até a um nível de clarividência e perspicácia que ganha uma nova e importante camada com a impressão das letras nesta antologia de poemas. Afinal de contas, esta poesia funciona de qualquer forma e feitio. E agora? Qual é a vossa desculpa para não ouvir (ou ler) Allen Halloween?


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