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Fotografia: Pedro Medeiros

O sucessor do álbum homónimo saiu no final de Maio.

Ghost Hunt: “Somos sempre carta fora do baralho”

Fotografia: Pedro Medeiros

Os Pedros Oliveira e Chau chegaram recentemente ao segundo álbum com o projecto Ghost Hunt, um duo de electrónica vintage que sabe olhar para o passado que não tirava os olhos do futuro sem quaisquer tiques de revisionismo retro para cafeterias gourmet. A música que criam tem nervo, é honesta e está carregada do mesmo mistério que nos fascina desde os alvores da electrónica por apontar para mundos paralelos ou distantes que ninguém conhece de facto.

II saiu na Lovers & Lollypops, editora em que se sentem bem enquadrados ainda que, mesmo quando pressionados, nem Oliveira nem Chau sejam capazes de encontrar grandes afinidades com o restante panorama da música portuguesa. Mas apenas em termos da sonoridade que criam à custa de sintetizadores vintage e de uma colecção de discos carregada de krautrock, pós-punk e muita guitarra abrasiva, já que no resto não escondem a nacionalidade que consta nos seus cartões de cidadania.

No próximo dia 19 de Julho, os Ghost Hunt, e ainda Violeta Azevedo, integram o Takeover # 1 do Musicbox ao Teatro de São Luiz para um concerto que marca a estreia do novo trabalho nos palcos da capital. Altamente recomendado, pois claro.



É uma pergunta ultra-original, mas suponho que se justifique: alguma história por trás do vosso nome?

[Pedro Oliveira] Isto fazia parte de uma lista de nomes, e vários desses nomes estavam relacionados com o imaginário dos filmes de terror, cinema de fantástico… Escolhemos este porque gostávamos do efeito e da sonoridade do nome. Foi só por isso.

E quanto ao nível seguinte: vocês sentem agora que há memórias mais acentuadas, fantasmagóricas talvez…, que vos vão perseguindo neste projecto? E falo, claro, de memórias musicais.

[PO] Sim, claro. Sem dúvida. Aliás, a nossa ideia, desde o início, foi sempre ir buscar as coisas que nós ouvimos, muitas delas mais na fase da juventude, e usá-las de forma a criar algo que soasse mais a nós, ao nosso som. Foi esse o objectivo.

E que memórias são essas? Consegues traçar-me um mapa sonoro do universo de Ghost Hunt? Ou melhor: se as vossas referências estivessem num mapa, que cidades mais próximas de Ghost Hunt encontraria eu?

[Pedro Chau] Boa. Curto dessa cena das cidades. Dusseldorf, Manchester, Nova Iorque… Não sei [risos].

Isso levando à letra essa cena geográfica. E agora em termos de grupos e referencias musicais mais directas?

[PC] Hum…

Dusseldorf aponta claramente para Kraftwerk.

[PO] Claro. Sem dúvida. Acho que essa influência da cena alemã está lá. Mas [o nosso espectro] é muito mais alargado do que isso, acho eu. Nós vamos buscar coisas que musicalmente não serão uma influência directa na nossa música em termos sonoros. Vamos buscar ideias a coisas que não têm necessariamente assim tanto a ver com a nossa música. É mais uma questão de procurar uma identidade actual para aquilo que nós somos desde sempre.

Dá-me exemplos práticos disso.

[PO] Uma grande influência que eu tenho, e que não tem nada a ver com a nossa música, mas à qual eu regresso constantemente, são os Big Star, por exemplo. Ao mesmo tempo posso referir, claro, os My Bloody Valentine. São uma referência fortíssima para mim.

E tu, Chau?

[PC] De influências… Se calhar sou mais directo nessas coisas. Posso ir buscá-las ao pós-punk, ao krautrock… Mas às vezes deixo-me também levar pelo Pedro e pelas músicas que ele me envia e tento situar as coisas nesse sentido. É mais ou menos isso.

É curioso, tendo em conta os nomes que o Oliveira estava a citar. Porque os próprios Kraftwerk mencionavam os Beach Boys ou os Stooges como referências. E ouvindo não parece, não é?

[PC] Por exemplo, até os Stooges [são nossas referências], porque têm aquele lado minimal. E do lado do Oliveira já chegámos até a conversar sobre bandas do início do heavy metal.

[PO] Sem dúvida. E olha, nesta fase em que já estávamos mais focados neste álbum, eu ouvi muito metal dos anos 80. Acho que foi uma era curiosa.

Interessante. Têm de ouvir o novo álbum dos Zombi, um duo de bateria e sintetizador, não sei se conhecem. São de Cleveland e fazem música música muito inspirada em filmes de terror. Mas vamos falar sobre o vosso disco novo. Quando é que o material que se ouve neste alinhamento começa a ser trabalhado?

[PO] Acho que o disco foi começando a ser trabalhado em 2018, com mais cabeça. Mas quase tudo o que fizemos em 2018 acabou por ficar para trás. O que está aqui é de 2019. São temas mais recentes. Porque nós gravámos um primeiro corpo de temas mas achámos que não estava muito coerente nem trazia assim tanto de novo em relação ao que tínhamos feito anteriormente. Então decidimos refazer algumas coisas para aquilo soar mais diferente do que tínhamos feito no outro disco.

Gravaram onde, em Coimbra?

[PO] Em Coimbra, no Blue House Studio, dos Jigsaw.

O vosso primeiro disco tinha saído com a etiqueta da Lux Records. Como foi a transição de Coimbra para Barcelos e para a Lovers & Lollypops?

[PC] Eu posso contar. Não teve nada que ver com algum tipo de descontentamento em relação à Lux. Antes pelo contrário. Sempre estivemos muito bem e fomos super bem tratados por eles. Foi porque nós, a dada altura, deixámos de ser nós a marcar os nossos próprios concertos, fartámo-nos, e andávamos à procura de um agente. Lembrámo-nos do Márcio, da Lovers, e abordámo-lo. Depois de começar a trabalhar com ele, como agente, acho que foi mais propício… Como é que hei-de dizer? Acho que foi uma evolução natural. Fez mais sentido estarmos todos na mesma label. Nada de mais. Foi só por isso.

E o que é que acham da vizinhança? Sentem que Ghost Hunt na Lovers é uma carta fora do baralho ou acham que a coisa até faz sentido?

[PC] A mim já me disseram que a Lovers é uma boa label para nós. Mas pronto, isso é relativo.

[PO] Eu gosto de pensar que, onde quer que nós estejamos, somos um bocadinho a carta fora do baralho [risos]. Mas acho que na Lovers, pelos projectos que conheço, há alguma variedade. Acaba por fazer sentido.

Sentem que a música que estão a fazer faria o mesmo sentido noutra época qualquer? Ou sentem que esta é uma música que está presa ao presente?

[PO] Eu quero pensar que sim. Eu acho que era perfeitamente possível alguém ter feito esta música, sei lá, nos anos 70. Mas ao mesmo tempo se calhar também não porque tem uma bagagem musical que abarca estas últimas décadas e que nessa altura não existiria. Acho que acabam por existir aqui alguns cruzamentos que são um bocado desta época.

São o resultado de uma colecção de discos muito bonita, é isso?

[PO] Não tão bonita como eu gostaria [risos]. Mas sim, dentro das nossas possibilidades.

Na imprensa tem-se falado da boa saúde que a música portuguesa atravessa nestes últimos anos. Como é que vocês se vêem neste contexto particular da grande música portuguesa? Sentem-se parte de uma cena nacional ou sentem-se desligados e estão noutra dimensão ou galáxia paralela e que não tem necessariamente ligação àquilo que se poderá definir como música portuguesa em 2020?

[PO] Falando mais pessoalmente, não me sinto parte de cena nenhuma. Mas também por causa da minha própria maneira de ser. Eu saio pouco, passo muito tempo em casa, as coisas que faço são muito aqui e não comunico assim tanto com outros músicos. Às vezes até gostaria de comunicar mais, mas pronto.

Imagina que vocês agora eram convidados para uma digressão de 20 datas e tinham de convidar algum projecto para tocar nas primeiras partes. Há assim algum nome que vos salta à cabeça para essa tarefa?

[PC] Assim de repente, não sei. Mas ainda há pouco tempo fomos desafiados para fazer uma lista só de bandas portuguesa que achávamos que nos inspiravam ou gostávamos. Eu lembro-me de mencionar os 10000 Russos. Também estou curioso com este projecto novo da Lovers que são os Conferência Inferno. Ainda não ouvi muito bem mas estou curioso, sem dúvida. Se calhar estou a esquecer-me de alguém. Acredito que hajam mais projecto interessantes, eu agora é que não me lembro.

Ontem eu registava com muito agrado a sintonia da vossa faixa de abertura. Aquilo remete-nos para uma época de mistérios, de quando rodávamos o botão da rádio à noite e descobríamos coisas assim muito estranhas. Vocês acham que vivemos num mundo em que ainda há lugar para esse mistério ou o facto de estarmos ligados através de todas estas plataformas tornou o mundo uma coisa pequenina que já não tem segredos?

[PO] Eu acho que realmente as coisas estão todas muito mais massificadas. É realmente mais difícil hoje em dia ter individualidade ou haver aquilo que havia antigamente, daquelas cenas mais locais. Cada cidade em Inglaterra tinha a sua cena, por exemplo. Era completamente o feeling de Bristol comparativamente ao de Manchester. Isso hoje é muito mais difícil de encontrar, acho eu. As pessoas acabam por estar todas a consumir a mesma coisa. Portanto sim, acho que este mundo é menos misterioso e pessoal. Mas se calhar é só aparente e as coisas vão acontecendo na mesma mas de uma outra forma qualquer.

[PC] Eu acho que a Internet mudou muito e o público agora tem acesso à intimidade dos artistas de uma forma que antigamente não era possível. O David Bowie, por exemplo, ninguém sabia o que é que ele fazia depois dos concertos. Agora temos acesso à vida — e até aos quartos — dos artistas. Principalmente nesta era de pandemia [risos].

O Tom Waits costumava dizer que nasceu na época errada. Vocês — e foncando-nos apenas em Ghost Hunt, porque ambos têm outros projectos — diriam que estão na época certa ou errada?

[PO] Eu acho que não…

Deixa-me colocar a pergunta de outra maneira: gostariam de ter apresentado a maquete do vosso disco ao Daniel Miller em 1980, por exemplo?

[PO] Isso era uma grande oportunidade [risos]. Em 1980 isso tinha sido incrível. Acho que nós quando estamos a fazer a nossa música não queremos que seja datada.

O mais engraçado é que eu quando estou a ouvir a vossa música consigo pensar não no passado, mas sim no futuro.

[PO] Sim, porque nós temos sempre o imaginário da ficção científica presente. É a nossa inspiração. Mais concretamente aquela ficção científica clássica, dos anos 50 ou 60. Aquele imaginário futurista muito idealizado, vá lá, do futuro. Umas vezes utópico, outras vezes distópico…

Há algum filme que vos tenha marcado mais?

[PO] Epá, muitos. Sei lá. Posso dizer-te um, que como filme não é assim nenhuma obra-prima, mas eu também gosto muito de filmes maus. O Logan’s Run, por exemplo, é um filme que eu adoro.

Tem uma grande banda sonora.

[PO] Tem uma banda sonora incrível. É uma grande referência para mim, tanto visualmente como musicalmente. Eu penso na nossa música como música futurista. Não no sentido de estarmos a fazer o som do futuro, não é isso. É aquele tal futuro…

Uma ideia de futuro.

[PO] Uma ideia de futuro. Exacto. É uma coisa que na actualidade… Eu cresci com isso, com esse sonho do futuro da ficção científica. Acho que hoje em dia é mais difícil idealizar isso dessa maneira, até porque já estamos todos no futuro, a falar por videoconferência [risos].

Mas é uma desilusão termos chegado a 2020 e os nossos carros ainda não voarem…

[PO] É verdade. Isso é verdade. Ainda não chegámos a essa fase. Podemos sonhar com isso [risos].

[PC] Se calhar essa fase nem nunca vai chegar [risos].

Vamos falar de ferramentas e da parte técnica do disco. Em termos de teclados, quais é que vocês diriam ter sido os protagonistas deste trabalho?

[PO] É o material que nós vamos conseguindo arranjar, basicamente. Eu não tenho rios de dinheiro para andar a comprar sintetizadores. Como tal, estou numa fase de usar aquilo de que me vou lembrando. Tenho umas quantas ferramentas em casa e vou pegando nelas até elas servirem o seu propósito.

Alguma que tu aches mais determinante para o carácter sonoro do vosso álbum?

[PO] Continuo a gostar muito do meu MS20. Para fazer melodias. No outro disco eu só usava o MS20 para fazer melodias, agora uso para fazer linhas de graves. Tornou-se importante para isso.

E o que é que vocês estão a usar para construir a parte rítmica?

[PO] A parte rítmica é construída com uma caixa de ritmos da Roland e com sons de bateria também, de um teclado da Elektron que eu tenho.

Temos de falar disto: o vosso disco está a sair numa altura muito estranha para todos nós. Aliás, o facto de estarmos a fazer esta entrevista desta maneira já é um reflexo dessa estranheza. Como é que vocês estão a lidar com este período?

[PC] Em relação aos Ghost Hunt, mantemos mais ou menos a mesma dinâmica de trabalho. Trabalhamos à distância. Portanto não mudou muito. A única diferença é que, se calhar, agora estamos mais tempo sem ensaiar. É um período sem concertos, cheio de dúvida e incerteza. Mas pronto. Acho que é isso. A nível pessoal afecta sempre um pouco, esse facto de ter ficado sem concertos. Tentamos também, a nível de saúde, seguir as recomendações todas para nos protegermos a nós e aos outros. Há coisas positivas, deixei de fumar [risos].

Parabéns.

[PC] Já lá vão dois meses. Mas há mais. Também tive uma filha.

Mas vocês imaginam-se a tocar de novo nos pequenos clubes em que tocavam, com as pessoas muito juntas? Isso agora parece-vos uma perspectiva estranha ou é algo porque anseiam?

[PO] Eu anseio por isso porque é sinal de que a situação estaria melhor. Ou resolvida até. Infelizmente, para já, é pouco provável que isso aconteça. Mas gostava de voltar a essa situação. Acho complicado a realização de espectáculos, pelo menos em espaços mais pequenos, num futuro próximo. Não sei.

[PC] Mas acho que precisamos muito disso. Têm de voltar os concertos e as pistas de dança. O ser humano precisa desse escape nocturno, não é? Os espaços colectivos, de partilha. Isso é tudo muito importante. Podemos viver muito assim mas isto não chega e eu acho que a parte física tem de voltar a acontecer. Tem de aparecer uma vacina para que as pessoas deixem de viver neste estado de medo e insegurança. Pode ser que o ser humano consiga ultrapassar. Agora não sei é se vai ter de conviver com o vírus ou se vai eliminar o vírus.


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