Gaika: “O BASIC VOLUME é uma parábola acerca dos imigrantes que correm o mundo em busca de si mesmos”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Wunmi Onibudo

Gaika tem novidades: BASIC VOLUME é o álbum de estreia do rapper e produtor britânico, que esteve à conversa com o Rimas e Batidas a propósito desta nova edição pela Warp Records.

Depois de vários lançamentos — singles e EPs — divididos pelos catálogos da Mixpak e a Warp, o artista apresenta hoje o seu primeiro longa-duração, aquele que confessa ter sido o mais trabalhoso de todos os projectos que assinou até à data.

Com produção do próprio e também de SOPHIE, Aart, Dutch E Germ, Dre Skull, Dadras, Buddy Ross ou Nick Leon, BASIC VOLUME teve dois singles de avanço: “Crown & Key” e “Immigrant Sons (Pesos & Gas)“.

 



[O álbum continua a fazer sentido]

“Não percebo porque dizem as pessoas que o álbum como formato está morto. Quer dizer, não é uma questão de suporte, se está ou não impresso. Os livros morreram? As pessoas podem ter de facto mudado a forma como se relacionam, como interagem com os formatos em diferentes suportes, mas isso não significa que não continuem a ser viáveis e válidos.”

 

[As diferenças de BASIC VOLUME]

“O que faz deste novo projecto, BASIC VOLUME, algo de diferente das mixtapes e EPs que assinei no passado é o facto de ter envolvido mais trabalho, levou dois anos para fazer, implicou uma abordagem mais profunda. O Machine, a minha primeira mixtape, era algo muito cru, tal como o Security, que é o que é, mas não implicou um trabalho tão profundo, uma concentração tão focada. Já o SPAGHETTO era algo de muito diferente, feito em torno de uma ideia mais visual, com um conceito muito vincado. O álbum que edito agora implicou o meu maior investimento criativo, a minha mais dedicada atenção até agora. E é isso que o torna diferente.”

 

[Os aliados]

“Os produtores neste álbum, além de eu mesmo e de SOPHIE, são o Aart, Dutch E Germ, Dre Skull, Dadras, Buddy Ross, Nick Leon… basicamente a minha banda e uma série de pessoas que respeito. Os beats que eu gosto de usar têm que transmitir um certo sentimento, uma sensação de poder, de força. Não me interessam beats mais convencionais. Têm que me permitir dizer o que quero dizer.”

 

[Parábola sobre a imigração]

“O disco é uma parábola acerca dos imigrantes que correm o mundo em busca de si mesmos. É disso que o disco trata porque foi o que aconteceu de facto enquanto eu o fazia. Vai-se para algum lado em busca de uma vida melhor, mas será que é mesmo uma vida melhor, o que se encontra quando se lá chega? Eu fiz este trabalho enquanto viajava muito e isso obrigou-me a pensar no que tinha acontecido à minha vida e fez-me lidar com questões muito pessoais. Tematicamente também aborda muitas das coisas que aconteceram antes desse período de viagens, coisas em que acredito, de onde vêm essas crenças, coisas relacionadas com o meu pai, com a sua procura interior que depois se tornou a minha. E em cada lugar onde eu fui em vez de encontrar coisas novas, penso que me ia encontrando a mim mesmo, um bocadinho de cada vez.”

 

[O Brexit]

“Pode ver-se toda esta procura como um acto de resistência, nesta era de Brexit, uma coisa basicamente estúpida. É algo cujo objectivo eu não consigo compreender. É imperialismo enviesado, sem sentido, algo que nos atirou para este ambiente hostil em que parecemos estar agora mergulhados. Mete nojo. Há ali uma saudade de uma era colonial qualquer. O país enriqueceu enquanto foi um império e agora espera ir ter com os países em África, por exemplo, estabelecer os mesmos acordos que tinha antes? ‘Lembram-se como correu da primeira vez, não foi fixe para nós’. Mas aqui tivemos nós que lidar com políticos a dizer ‘vamos embora’ sem que nos soubessem dizer para onde íamos. E agora temos uma classe que já percebeu que fez porcaria. Porque na base do pensamento que apelou ao abandono da União Europeia estava uma mentalidade imperialista, de supremacia branca. E isso é tão estúpido. E eu tenho um passaporte britânico, onde fico? Eu não concordei com esta decisão… E na verdade eu só estou no Reino Unido porque sou um resultado dessa forma de pensar, dessa história imperialista. Eu vi velhotas jamaicanas, africanas, que sempre se mantiveram alheadas do processo político, que nunca foram à Escócia ou à Europa e que no entanto fizeram fila para votar contra o Brexit porque lá no fundo elas perceberam o que estava em causa. Vamos construir um futuro mais igualitário ou voltamos ao passado? É igual ao ‘make America great again’. Este disco é, obviamente, uma reacção a tudo isto. Muito do meu trabalho nestes últimos dois anos é, na verdade, um acto de resistência, de oposição.”

 

[A subversão da tecnologia pela cultura negra]

“O que eu acho curioso é que as pessoas em geral ainda se espantem com o carácter subversivo da cultura negra, com a sua capacidade de invenção e criatividade. Sobretudo com o que se passa na cultura das Caraíbas… ou nem sequer vale a pena falar da cultura das caraíbas, mas de toda a cultura africana que sobrevive nas ruas, com tradições próprias e um pensamento próprio. Pega-se em pessoas, retira-se tudo o que são normais oportunidades, e essa ingenuidade, essa capacidade de subversão é o que lhes resta. Penso que isso é algo que está na nossa natureza, já está inscrito nos nossos genes, porque há séculos que somos obrigados a fazer isto. Temos que comer barato, asas de frango, costelas, temos que usar ferramentas baratas, mas damos-lhe a volta, alteramos essa tecnologia para algo que nos dê poder. E isso é inato à cultura negra porque nunca nos deixaram fazer as coisas de outra maneira.”

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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