Gabriel Ferrandini na Culturgest: as volúpias do monge e o acelerador de partículas do baterista

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Vera Marmelo

Houve um momento no concerto ontem comandado pelo baterista Gabriel Ferrandini no auditório da Culturgest que, apesar de discreto, simbolizou bem aquilo que nos foi oferecido no que era suposto ter sido a apresentação de Volúpias: antes de se atirar a mais uma peça, o irrequieto músico tirou o relógio do seu pulso e pousou-o no chão, ao lado do suporte do prato de choques. De facto, ontem, Ferrandini dispensou o tempo formal, estilhaçou qualquer noção familiar de ritmo e conduziu o seu trio com mão firme por uma viagem intensa ao território de Thelonious Monk.

O trio, que depois de uma residência importante na ZDB nos ofereceu este ano o extraordinário Volúpias, inclui, além do líder e compositor Ferrandini, o veterano contrabaixista Hernâni Faustino e o jovem leão do tenor Pedro Sousa. Mas ontem houve duas importantes adições a essa formação: a primeira, anunciada, foi a do decano do pianismo europeu Alexander von Schlippenbach e a segunda, uma inesperada surpresa, traduziu-se na subida ao palco do trompetista Peter Evans, americano que actualmente reside em Lisboa.

Referia-se a condução do trio por Ferrandini — e foi possível em diferentes momentos vê-lo a dar discretas indicações a Hernâni Faustino, por exemplo — porque Alexander Von Schlippenbach dispensa direcções e conhece muito bem os sinuosos caminhos de Monk, alguém que reinventou a noção de tempo, que tinha uma relação especial com o silêncio, que ensinou uma geração de jovens be boppers nova-iorquinos como abordar imaginativamente a harmonia. Schlippenbach, que ofereceu a sua leitura do corpo integral de composições do mítico pianista em Monk’s Casino, era suposto, como nos adiantou o próprio Ferrandini na entrevista que nos concedeu, ter tocado “duas ou três malhas” do reportório do seu herói americano, embarcando depois nas Volúpias do trio, mas o concerto acabou por seguir outro rumo.

O trabalho que Gabriel Ferrandini levou a cabo na exploratória residência na ZdB na companhia de Faustino e Sousa e que se traduziu numa série de composições buriladas em seis concertos e firmadas em disco funcionou também como o manual que ontem orientou o colectivo na viagem de cerca de 75 minutos em torno da obra de Thelonious Sphere Monk. O reportório eleito — “Japanese Folk Song”, “Monk’s Mood”, “Think of One”, “Four in One” e “Round About Midnight”, de acordo com o próprio Ferrandini —, foi “reescrito” de acordo com o “acordo ortográfico” gizado primeiro na ZdB e, certamente, no ensaio ou ensaios e conversas tidas entre o líder e os seus convidados. O “resultado” final foi intenso e enérgico, desafiante e misterioso também.



Ferrandini não se poupou a esforços para dilatar as possibilidades cromáticas do seu kit com a adição de gongos e tímpanos e caixas de madeira, usando diferentes tipos de baquetas e explorando o próprio ar e a vibração das percussões metálicas captadas pelos microfones superiores. E fê-lo com autoridade, raramente parecendo hesitante, tocando entre os estilhaços do tempo que o colectivo foi tratando de fazer implodir a cada nova investida. O swing que o próprio Monk transformou em matéria abstracta foi aqui sujeito a um verdadeiro acelerador de partículas, desmontado até à sua estrutura atómica e colocado debaixo do microscópio de cada um dos instrumentos.

Ferrandini pareceu mais apostado em trabalhar com as mãos, deixando os pés em relativa paz, com o bombo a merecer muito mais descanso do que os pratos, por exemplo. O que liberta o espaço das frequências mais graves para Hernâni Faustino deambular à vontade, com uma linguagem porventura menos abstracta do que as dos seus companheiros de trio e que lhe permitiu, por exemplo, acercar-se das frases fragmentadas que Schlippenbach ia retirando do piano, adornando-as, complementando-as, o que criou momentos de sublime cumplicidade harmónica. E do pianista só se escutou classe superior, sabedoria funda, imaginação em estado puro, nas frases breves e circulares, nos contidos arrebatamentos melódicos, nas inesperadas guinadas de acordes que parecem sempre buscar a suspensão da respiração, da nossa respiração.

Já Pedro Sousa exibiu um monumental par de pulmões, capaz de respirar circularmente emitindo assim longas frases, quase drones, oferecendo à respiração e ao próprio ruído das chaves um espaço mais visível no seu leque expressivo, evocando todas as nuances que nos carregam do êxtase à contemplação. E também percorreu geografias, exibindo o seu natural alinhamento com a particular efervescência da cena lisboeta, mas sendo igualmente capaz de com uma frase apenas nos plantar no “lower east side” de uma velha Nova Iorque.

Na fase final do concerto, a surpresa Peter Evans. Músico que encara o trompete com arrojo e imaginação, que sabe explorar a distância entre o instrumento e o microfone para expandir o seu arsenal textural, que entrega o próprio corpo ao instrumento na forma como integra a sua respiração no som final, o trompetista consegue surpreender sempre a cada nova apresentação, com novos preciosismos técnicos que deixam claro que a sua exploração das potencialidades do trompete está longe de estar terminada.

E assim, em noite de apresentação de Volúpias, Gabriel Ferrandini foi premiado com o quinteto perfeito de que falava na sua conversa com Pedro Santos transposta para a folha de sala. “Uma trabalheira do caraças” que, no entanto, rendeu momentos de profunda e singular beleza, um verdadeiro mural de Rothko, meditativo e absorvente, intrigante e fascinante, mesmo se opaco e resistente à nossa compreensão. Estas volúpias não querem tempo. Querem apenas aplausos. E ontem ninguém os negou.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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