Fugitivo: “Quis provar a mim próprio que conseguia ‘carregar’ um álbum sem participações de outros rappers”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Joel Aguiar

“9 às 5” é o mais recente single editado por Fugitivo. Novamente com Guesswho a assinar a produção do tema, este é o terceiro avanço de Cara & Coroa, o disco de estreia do rapper açoriano.

O primeiro contacto que tivemos com Fugitivo foi na altura em que a Red Bull editou o documentário AZ-RAP: Filhos do Vento. O MC da Ilha Terceira foi um dos artistas em destaque na curta-metragem cujo guião ficou entregue a Rui Miguel Abreu, director do Rimas e Batidas, e no qual figurou ao lado de outros protagonistas do hip hop made in Açores como LBC ou Sandro G.

Pouco tempo após o destaque nacional que lhe fora oferecido pelo documentário, Fugitivo começou a levantar o véu àquele que está a ser o seu projecto mais ambicioso até à data. São já dez anos de uma relação séria com o hip hop, algo que o leva a assumir este laço como se de um trabalho a tempo inteiro se tratasse. Das “9 às 5”, lá está.

De Pé” e “Encontra-te” são os outros dois singles já revelados de Cara & Coroa que, garante o rapper, deverá estar disponível para escuta integral ainda no decorrer deste trimestre. Em “9 às 5”, Joel Aguiar ficou encarregue da realização do videoclipe, como podem conferir em baixo.

 



Começaste a levantar o pano ao teu disco ainda durante o ano passado. Em que fase se encontra o Cara & Coroa?

O álbum está pronto. Apesar de o ter prometido para 2017, decidi atrasá-lo por uns meses para limar algumas arestas e torná-lo o melhor possível. Em breve anunciaremos a data de lançamento. Mas sim, a parte sonora do álbum está completamente terminada.

Já nos falaste da importância do Guesswho nesse disco, que vai também contar com beats do Reis e Ems. Ao nível das rimas, vais ter algum MC convidado?

Não. E foi uma decisão que tomei muito cedo quando iniciei o processo de construção do álbum. Claro que existem muitos MCs (mais chegados ou não) com os quais gostava de trabalhar e com os quais espero vir a trabalhar no futuro. Neste projecto quis provar a mim próprio que conseguia “carregar” um álbum sem participações de outros rappers, com todos os riscos/vantagens e trabalho acrescido que isso acarreta. Mas, na minha opinião, consegui fazê-lo.

É por isso um álbum muito pessoal também a nível das temáticas que escolheste abordar?

Sim, esse foi talvez o maior desafio que impus a mim próprio logo desde o início. Que o álbum fosse um reflexo o mais aproximado possível de quem eu sou, tanto como artista como pessoa. Daí existirem muitos altos e baixos, muitos estados de espírito e muita diversidade tanto nos temas como na forma como são abordados. O álbum tem sons mais “cerebrais” e outros mais “crus”, e outros que são híbridos. O Guesswho foi fulcral na concepção do álbum, porque fez transparecer isso mesmo, deu a roupagem certa a cada som e acima de tudo nota-se a tal versatilidade de faixa para faixa que, no todo e pela ordem certa, acaba por fazer sentido como álbum.

Para este tema que lançaram agora, qual foi a receita que vos fez chegar ao resultado final de “9 às 5”?

A “9 às 5” apareceu já nos términos do álbum e foi um dos casos pontuais em que o conceito e até parte da letra já existiam antes do instrumental. O que por vezes pode ser mau sinal porque envolve tentar fazer um instrumental por “encomenda”. Mas mesmo estando consciente disso, debati e expliquei a ideia ao Guesswho e uns dias depois recebi um telefonema dele a dizer que tinha “flipado” o sample perfeito para o tema. Mandou-me o beat e dito e feito, acabei a letra/gravei, e foi uma das últimas faixas a seguirem para mistura.

Já tens ideia de quando sai o projecto? Que mais nos podes revelar sobre o teu álbum de estreia?

Ainda não existe uma data em concreto mas estamos a trabalhar para editá-lo no final do primeiro trimestre deste ano. Posso avançar que vamos continuar a levantar o véu sobre o que aí vem, de várias formas, e que é o meu “all in” ao fim de 10 anos a fazer música — se nunca ouviram falar de mim até pode ser algo positivo, porque se ouvirem os singles e o álbum completo, que juntará todas as peças do puzzle, e o fizerem de mente aberta, poderão ver e ouvir esta “fome”. O meu objectivo e o da minha equipa é fazer boa música e, acima de tudo, é o de chegar para ficar.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira