Freddie Gibbs & Madlib no Vodafone Paredes de Coura’19: os gangsters também choram

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Sebastião Santana 

Chegados ao último dia de um festival que se mantém orientado para o rock (branco) e as suas variações mais ou menos distantes da base — apesar de encontrarmos nesta recta final nomes como Kamaal Williams, Flohio, Sensible Soccers e Jayda G –, Freddie Gibbs & Madlib eram, para os amantes de hip hop, o must see do Vodafone Paredes de Coura, não formassem eles uma das parelhas mais idolatradas no rap desde que se estrearem em 2014 com o memorável Pinãta.

Com foco voltado para o seu segundo álbum, Bandana, um dos nossos favoritos para figurar no topo dos melhores do corrente ano, a dupla norte-americana apresentou-se completamente só (e apenas acompanhada de visuais que mostravam uma LA em chamas, resquícios adulterados da capa de Madvillainy e, entre outras coisas, a famosa zebra do artwork do novo LP), não precisando de grandes artifícios para além da voz do frontman e dos pratos do DJ.

Colocado entre Patti Smith e Suede, o rapper de Gary, Indiana, aparecia, como sempre aconteceu na sua carreira (e vida), como o underdog num evento que, na teoria, não seria para si. Completamente embasbacado com o cenário idílico à sua frente, que comparou várias vezes com o Super Bowl, Freddie Kane (sorridente e confiante) não se cansou de demonstrar que se estava pouco ralando para todos os outros: “f*** police” foi o cântico mais incitado pelo próprio, mostrou desprezo pelo resto da programação do dia e assumiu-se embriagado (e não só) enquanto fumava e bebia em palco. Se fosse necessária uma hashtag, #ZeroFucksGiven adequar-se-ia perfeitamente.



De “Freestyle Shit”, “Fake Names”, “Cataracts” e “Half Manne Half Cocaine” a “Deeper”, “BFK” e “Giannis” — faixa em que ouvimos o refrão e verso de Anderson .Paak –, o alinhamento também foi pontuado por paragens para se oferecerem palmas a Madlib (que terminou com uma peruca loira — atirada a partir do público — na cabeça) e momentos cómicos como os pequenos sprints do “atleta” de 37 anos no final.

Há três anos, Gangsta Gibbs falhou a sua estreia em Portugal depois de ter sido preso na Áustria, um momento de viragem que acabou por servir de motivação para o seu mais recente disco. Todos estes anos depois, o MC agradeceu àqueles que, nas primeiras filas, se deslumbravam com a sua prestação (a voz rouca, o tronco nu grande parte do tempo e a resistência e força de um desportista em início de carreira). Com direito a moshs, crowd surfing e descida a um público que precisou de senti-lo para saber que tudo aquilo era real. Pelas reacções, não restaram grandes dúvidas…

No último suspiro, mal o instrumental de “Thuggin'” — a sua música favorita de sempre, revelou-nos — voltou a estoirar no sistema de som, Gibbs sucumbiu e chorou nos braços de Madlib: um gangster também se emociona em Paredes de Coura.