LP / CD / Digital

Floating Points, Pharoah Sanders & The London Symphony Orchestra

Promises

Luaka Bop / 2021

Texto de Rui Miguel Abreu

Publicado a: 30/03/2021

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Quando se estreou em 1964 na ESP-Disk de Bernard Stollman, usando o nome artístico que lhe foi oferecido por Sun Ra, Farrell “Pharoah” Sanders era ainda um jovem de apenas 24 anos, sensivelmente tantos quanto os que Sam Shepherd, ele mesmo provido de nome artístico de ressonância igualmente mística, Floating Points, tinha quando se estreou na sua própria Eglo Records, quase meio século mais tarde, em 2009.

Em teoria, pelo menos, o que separa Sanders e Shepherd é muito mais do que o que os une: o veterano músico de jazz cresceu no sul segregado da América e foi sem-abrigo nas ruas de Nova Iorque antes de se revelar musicalmente durante os política e espiritualmente agitados anos do Movimento dos Direitos Civis; a um oceano e meia vida de distância, o produtor inglês, de Manchester, estudou na conceituada Cheltham’s School of Music antes de obter um diploma em neurociência e epigenética no University College London. Duas experiências dramaticamente distintas. E, no entanto, Promises, o álbum que Floating Points e Pharoah Sanders protagonizam juntamente com a London Symphony Orchestra é a prova definitiva de que a música é a mais generosa, ampla e verdadeira via de comunicação que existe, capaz de harmonizar diferentes histórias e culturas, linguagens e práticas.

O álbum que o produtor e o saxofonista agora lançaram não é, muito pelo contrário, o primeiro exemplo de diálogo transgeracional entre artistas com origens nos universos do jazz e das modernas electrónicas: em 2006. Kieran Hebden, aka Four Tet, lançou o primeiro de dois volumes que documentaram intenso diálogo com o já desaparecido baterista Steve Reid, projecto certeiramente titulado The Exchange Session; o pianista Matthew Shipp, ao lado de Evan Parker, William Parker e Han Bennik, por exemplo, gravou com J Spaceman e com os Spring Heel Jack, em 2003; e, para dar apenas mais um significativo exemplo, em 2001, foi mesmo o veteraníssimo Herbie Hancock, ele próprio nada alheio a mutações por via da electrónica, a marcar encontro com agitadores como Carl Craig, Rob Swift ou A Guy Called Gerald no álbum (uma vez mais apropriadamente titulado) Future 2 Future. Todas essas experiências, no entanto, pareciam nascer, antes de mais, de uma ideia exploratória comum do ritmo ou pelo menos das diferentes nuances do tempo rítmico. O que sucede em Promises é outra coisa.

É interessante a presença da London Symphony Orchestra neste projecto, como se o domínio da orquestra clássica fosse zona neutra e equidistante para quem dele se acerca vindo do lado mais libertário do jazz ou da electrónica mais exploratória. Curiosamente, ou talvez não, a presença da LSO acaba por ser aqui a mais discreta, um precioso “pormenor” que funciona como pertinente sublinhado do trabalho dos dois protagonistas principais. E mesmo esse é surpreendentemente contido: Floating Points e Pharoah Sanders deixam muito claro que estão bem mais interessados em olhar para dentro do que em “discursar” para fora, mais interessados em pensar do que agir, em sugerir do que explicitamente declarar. Nos tempos que correm, de intenso ruído, desinformação, entropia, um disco como Promises revela-se, portanto, o necessário bálsamo, uma música que efectivamente cura, que repõe uma ideia de harmonia que parece cada vez mais ausente das nossas vidas. Não que este seja um “disco da pandemia”, muito pelo contrário: foi gravado ao longo de uma semana em estúdio em 2019, precedendo, portanto, todos os abismos emocionais em que o mundo haveria de ser forçado a mergulhar há cerca de um ano. Ainda assim, foi, ao longo dos últimos dias, impossível não reparar nas redes sociais num generalizado aplauso ao álbum, com muitos dos elogios a chegarem claramente de quem não se identificará imediatamente com este tipo de música. E isso é talvez um dos maiores elogios que se pode tecer a este Promises.

Em peça publicada há dias no New York Times, Giovanni Russonello começa por explicar que o interesse para uma colaboração, inicialmente manifestado por Pharoah Sanders, ocorreu quando o veterano saxofonista escutou pela primeira vez Elaenia, álbum de estreia de Floating Points, editado em 2015. Apesar de ter assinado pontuais colaborações com Kahil ‘El Zabar ou de, por exemplo, ter até gravado, em Lisboa, no Jazz em Agosto, com Rob Mazurek e Mauricio Takara (resultando o encontro num álbum lançado pela portuguesa Clean Feed), o tenorista sentia não assinar uma “obra importante” há um par de décadas quando sentiu essa eventualmente inesperada sintonia com a música do produtor britânico. Um encontro entre ambos seria, por isso mesmo, inevitável. Nesta Primavera de destroços de 2021 podemos, finalmente, colher os frutos de tal diálogo e encetar uma experiência de cura através da concentrada audição deste Promises.

Apresentado como uma “suite” em nove movimentos, Promises nasce como uma sugestão harmónica e melódica muito contida, uma espécie de “haiku” desenhado por Shepherd no cravo, piano e celesta, motivo esse que é depois envolto em poeira cósmica sintetizada, primeiro, em seda de cordas tecida pela London Symphony Orchestra, mais tarde, base essa que deixa amplo espaço para a extremamente poética meditação de Pharoah Sanders. O tom do saxofonista que Ornette Coleman declarou ser o melhor tenor de sempre é deveras especial, uma “voz” nobre e funda, orgulhosa das suas próprias “rugas”, marcada pelo tempo, mas tão leve quanto o próprio vento. Há, aliás, momentos em que a respiração de Sanders através do seu bucal chega e sobra para nos mostrar de que sopro vital se faz afinal a sua alma. Aos 81 anos, é admirável que Pharoah Sanders continue a vibrar desta forma tão pura e intensa, sendo capaz de nos enredar no seu pensamento traduzido em ar, erguendo-nos com a mesma facilidade com que um sopro faz levitar uma pena.

O trabalho de sintetizadores de Floating Points é igualmente admirável, de uma subtileza sem fim, como tão bem demonstrado em “Movement 3”, num “solo” que abre caminho para que a voz de Pharoah desponte, antes de se “soltar” no movimento seguinte, tão honesta no seu melancólico rumor, suportado por um drone de órgão absolutamente celestial. É desse entrelaçar de ideias, as que Sanders magistralmente expõe com o seu tenor (“Movement 5”, por exemplo, é magnífico), com a sua garganta, com o seu corpo e alma, e as que Shepherd enuncia, com os seus instrumentos, mas também com os arranjos interpretados pela LSO, como os que ascendem num dos mais longos movimentos da suite, o número 6, que tão claramente remete para o lado mais orquestral da obra de Alice Coltrane (com quem, sublinhe-se, Pharoah colaborou), que resulta o assombro que é, afinal de contas, este Promises, um disco capaz de se sobrepor ao tempo, que pode ressoar de maneira incrível nestes dias de ruído e cinza, mas que permanecerá certamente relevante noutros tempos que hão-de chegar, talvez menos ensombrados.

O final do “Movement 6” parece traduzir uma espécie de êxtase, antecedendo outras duas peças longas que são também os movimentos em que Pharoah Sanders mais se alarga numa emocional exposição que começa murmúrio antes de se tornar grito, numa demonstração de pleno poder técnico e expressivo, com o saxofone tenor a soar como o mais genuíno dos instrumentos, aquele que talvez melhor permita ao músico “falar” a mais universal das línguas, uma em que as palavras se reduzem a tom, a intenção, a reflexo directo do pensamento que se faz tanto com o cérebro como com o coração ou todas as células de que se constitui um corpo.

Não é álbum do ano, é bem mais do que isso: 21 anos pelo século XXI adentro, talvez seja um dos mais incríveis registos deste tempo que a História que era impossível de vislumbrar quando em 1964 Pharoah lançou o seu primeiro álbum afinal nos legou. As promessas a que o título alude são, talvez, as que essa História precisa de cumprir. Se assim for, este álbum contém um pungente apelo à construção dessa harmonia. A tal unanimidade que se referiu antes, com elogios arrebatados a surgirem de todo o lado, pode ser um sinal de que a cura pela música pode mesmo acontecer. E, assim sendo, tocar este disco é quase um dever cívico.


*Álbum disponível na Jazz Messengers Lisboa.

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