Filipe Sambado: “Precisamos uns dos outros mais do que nunca”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

“Jóia da Rotina” é o mais recente single de Filipe Sambado. O tema faz parte de Revezo, o novo álbum que será editado a 24 de Janeiro pela Valentim de Carvalho. Cecília Henriques, Primeira Dama, Violeta Azevedo, Chinaskee, Vera Vera-Cruz e Rui Antunes são as vozes e os instrumentistas ao serviço do cantautor.

Nesta nova fase de cruzamento entre o tradicional e a pop, Sambado coloca-se no mesmo comprimento de onda dos portugueses Conan Osiris e Pedro Mafama ou até da espanhola Rosalía. Se a música esclarece isso por si mesma, o videoclipe de Miguel Afonso confirma-o. “A sonoridade e o tema da canção levaram-me a um exercício de leveza: elementos que estão carregados de um significado complexo — santinhos, crucifixos, a memória do ambiente do quarto da minha avó — foram perdendo o seu peso e foram-se aproximando de uma característica da canção e do álbum que me é muito querida – uma certa ausência de drama, como se absolvêssemos, através da bondade descomplicada do som do Filipe, elementos que seriam normalmente densos e dramáticos. Por outro lado, e respondendo à estranheza agradável que me provocou a união entre o conteúdo e a forma da canção — uma canção pop sobre o prazer de estar confortável em casa — procurei desenhar situações que alcançassem o mesmo nível e estilo de estranheza, que, embora estivessem coladas ao tema da música e à textura do som, estivessem ao mesmo tempo distantes de alguma representação figurativa da letra”, explica o realizador.

E, afinal, onde é que vamos encaixar o músico aquando do lançamento do seu terceiro longa-duração? Em três respostas, o músico ajuda-nos a perceber o que aí vem.



Que “Jóia da Rotina” é esta?

É a família, ou algum conceito que se traduza dessa forma. Laços que te pacifiquem, que façam valer a pena a produção de produção em que vivemos. Havendo uma razão para isto tudo, que seja a partilha.

Falas da “ideia de novos lares, novas formas de amar e novas tradições”. Queres desenvolver um pouco mais sobre isso?

Novas famílias, acrescentaria agora. Tem de haver um amor comunitário. O sistema em que vivemos circunstanciou-nos. Construímos lares com amigxs, às vezes desconhecidos. A família nuclear é uma espécie em vias de extinção. As tradições têm origens e práticas, confusas e obsoletas. As lutas, as agendas e os programas querem-se interseccionais, aliados e por isso em comunidade. Precisamos uns dos outros mais do que nunca. Criar novos laços. Aprendemos um amor que não existe e temos de encontrar formalmente, culturalmente, ideologicamente e politicamente o significado dessas emoções e ligações.

De que forma é que este single serve de cartão de apresentação para o novo álbum? A sonoridade vai situar-se à volta do que ouvimos aqui?

A sonoridade deste disco resulta do meu interesse no conceito de folclore e da pop, enquanto agentes formais de comunicação, através do formato canção. Entender o malhão, o corridinho ou chula como encadeamentos rítmico, para a condução da dança e da canção moderna. No fundo ouvi muito o Zeca e o Fausto; e a Rosalía foi a minha diva com o El Mal Querer.