Festival F’18 – Dia 2: rei Piruka chegou e com ele uma corte rica de música portuguesa

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Camille Leon (Ermo e Mazarin) e Rui Bandeira (Piruka)

Ao segundo dia de Festival F, na zona histórica designada como Vila Adentro, em Faro, é notável e notório o esforço que a autarquia local faz para sustentar a indústria de que se vive por aqui há décadas. Não é apenas o F, pois pela cidade vislumbram-se cartazes de outros eventos que procuram, ao longo do Verão e mais além, manter uma ideia de agitação cultural permanente. E quando se sabe que também por aqui estruturas de teatros efectuam encomendas especiais a artistas locais não se pode deixar de sublinhar que as coisas parecem andar na direcção certa. Turistas sim, mas já agora além de sol que se lhes ofereça também cultura.

Em véspera de fim-de-semana, o recinto do F parecia estar ainda mais cheio, embora, com o volume de público permanentemente controlado pelo sistema de entradas e saídas, a verdade é que nunca se sente um excesso desconfortável de pessoas, fazendo-se a circulação sempre com fluidez suficiente entre os diferentes palcos. E, por outro lado, apesar de boa parte dos palcos ter lugar na Vila Adentro, ter o principal espaço do festival, no Palco Ria, na zona exterior permite acomodar multidões mais generosas sem qualquer tipo de problema. Que foi o que aconteceu ontem, muito por culpa de Piruka.

É verdade que Sérgio Godinho e Aurea, as outras presenças do palco maior do F, também hão-de ter pesado para muita gente como argumentos válidos na hora de adquirir o bilhete, mas, nas duas filas de entrada por onde passámos, o nome que se ouviu mais mencionado, por novos e velhos, era o de Piruka. O rapper da Madorna foi quem mais público atraiu ontem, mas o dia começou cedo, com outras propostas.

No palco Castelo, com a ingrata missão de darem o pontapé de saída, logo pelas 19:30, os bracarenses Ermo apresentaram-se ainda com a luz do dia a contrariar o natural carácter nocturno da sua música e da sua mise en scéne: com t-shirt e jeans negros, chapéu e máscara negra, António Costa e Bernardo Barbosa oferecem os seus flancos ao público enquanto, frente a frente, dominam máquinas e microfone.

Os temas de Lo-Fi Moda, e o que nos soou a um par de novidades, têm músculo e personalidade, duas qualidades que lhes permitiriam aguentar um diferente slot em qualquer tipo de festival. Ainda assim, encontrar Ermo num evento desta natureza — ou Filipe Sambado, que com os bracarenses emoldurou o segundo dia fechando o cartaz com uma belíssima apresentação no fantástico palco Museu — não deixa de ser um claro sinal da saudável diversidade da música portuguesa que num dia de cartaz permite ir da electrónica pura e dura às orquestrações neo-clássicas de Rodrigo Leão, à portugalidade western dos Dead Combo ou ao novo tribalismo eléctrico dos PAUS fazendo ainda assim com que tudo se encaixe e faça sentido.

 



No palco Arco, comandado por Gijoe, outro momento muito especial. Os Mazarin, de que ainda ontem Alexandre Ribeiro dava conta na reportagem dedicada ao ZigurFest, percorreram o caminho entre Lamego e Faro, enfrentaram o calor elevado numa carrinha que já viu mais quilómetros do que devia, e praticamente sem soundcheck, como nos explicaram, assinaram um incrível set de uma hora que é indicador mais do que claro do potencial que concentram.

Vicente Booth, na guitarra e sintetizador, Afonso Serro, nos teclados, João Romão, na bateria, e João Spencer, no baixo, são uma seguríssima unidade capaz de soar inventiva e lúdica, inteligente e natural num reportório próprio — mais uma versão de “Lavender Town” da banda sonora do jogo de computador Pokemon (são estes os novos standards…) — que é indiciador de uma justa ambição. Estes rapazes querem deixar marca.

Ontem, tal como tinha já acontecido em Lamego, os Mazarin trouxeram um elemento extra: Panda, ou Ricardo Jesus, é um jovem saxofonista de apenas 18 anos, natural de Portimão, e que só há menos de três anos descobriu o instrumento que agora executa com notável qualidade técnica depois de anos a estudar guitarra clássica. Panda traz cor e vigor juvenil, daquele que parece desconhecer barreiras entre linguagens, e encaixa-se na perfeição num colectivo que ao vivo soa como uma improvável ponte entre o Herbie Hancock mais electrónico dos anos 70 e o J Dilla de Donuts: capacidade de explorar o espaço aliada a uma tendência natural para manter a síncope rigorosa, como se fosse uma MPC e não as mãos e pés de João Romão a fornecer o pulso ao colectivo. Incrível.

 



A noite no Arco só terminaria a altas horas depois de uma imaculada actuação do projecto Geeks Are de Gijoe e Rhythm: em palco, duas mesas de mistura, quatro pratos e outras tantas mãos sabedoras. O que se traduziu num set rico em minudências técnicas, mas também fortíssimo na escolha de bangers. Estes geeks tocam para a cabeça, deslumbram quem souber descodificar todos os detalhes que imprimem às suas misturas, todos os “acrescentos” que realizam por via do scratch e das sobreposições, mas também não esquecem as ancas de quem não arreda pé daquela varanda sobre a ria, mantendo sempre a justa pressão rítmica que, inevitavelmente, conduz à dança.

Saídos do palco Arco, o destino foi a Ria. DJ Nel’Assassin, o “mais velho” nas palavras de Piruka, começou por aquecer as massas recorrendo a Drake ou Eminem, como se dissesse “fazemos todos parte do mesmo universo”. E a verdade é que fazem mesmo: os milhões de streams e views que as super-estrelas da América do Norte acumulam nas plataformas digitais têm equivalência, à escala nacional, na música de um homem que já leva uns espantosos 500 mil seguidores no seu canal de YouTube. Piruka não precisa de ninguém para ser o campeão que é. Ou melhor, precisa, do seu público, a “família” como frisa constantemente, mas esse está incondicionalmente do seu lado.

A apresentação de Piruka, que se ladeou com os “amplificadores de energia” Vate Mc, Timor e Savage, é primorosa do ponto de vista técnico: o som dos beats é perfeito (longe vão os dias em que se disparavam instrumentais de um CD que invariavelmente saltava a meio da actuação…), o equilíbrio entre microfones apurado e a integração de vídeo e de efeitos pirotécnicos só concorre para elevar os momentos de tensão e libertação que a sua música comporta. E desde “Vai” a “Se Eu Não Acordar Amanhã”, o que Piruka oferece a uma multidão rendida desde o princípio são bangers atrás de bangers, carregados de peso e daquela moral tão particular que parece estar a conquistar os ouvidos, mas também os corações de uma geração. Haverá limites para um artista assim?

Antes de rumarmos ao justo repouso, ainda passámos pelo íntimo espaço do palco Museu, nos belíssimos claustros da instituição, onde se apresentava Filipe Sambado. Pose queer, canções entre Ariel Pink e Variações, letras refinadas e inteligentes e uma interacção cúmplice com o público fazem da prestação de Sambado um perfeito ponto final para mais um dia muito intenso, variado e rico em grande música. Toda nossa. E cheia de futuro.

Mais logo há mais.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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